Entramos as duas na banheira da vovó Zizi, como de costume.
Você, toda linda, querendo lavar os próprios cabelos com a bucha vegetal cheia de sabonete de gente grande.
Refreei seu impulso, dando-lhe um pouco do sabonete líquido infantil, designados a olhinhos como os seus (assim não arde). Pegou um bocado e lavou a cabeça, a barriga e o bumbum. Lavava enquanto nomeava as partes lavadas. Lavou a sua carinhosamente apelidada "pepequinha", pela primeira vez, com uma maestria de quem já tem três anos (mas você ainda nem completou o segundo!). Foi muito interessante observar o quanto você aprende rápido e quão intensamente absorve todas as informações que lhe são apresentadas. Crianças devem ser mesmo uma esponja neuronal, como diz meu pai.
Voltando um pouco as horas antes do banho, para contextualizar o post: estamos em Belo Horizonte, só nós duas (seu pai voltou para Vila Velha no dia 26 de dezembro e nós só voltaremos no dia 31). Hoje, acordamos na casa de seus avós paternos e a primeira coisa que fez quando viu a foto do Lucas foi soltar um: "papai! vamo a casa deie, vamo!". Meu coração ficou pequeno, mas foi muito bonitinho. Umas duas horas depois, você emplacou outra engraçadíssima, mostrando saudades das pessoas que estão longe: "ah, tadinha, vovó zizi, tá dodói". Vovó Zizi dodói? De onde saiu essa? Não tenho idéia! Só sei que você achou um jeito de falar que minha mãe está dodói. Vai ver que é para você ter de ir lá cuidar dela. Ou então você já sabe que ela deve estar mesmo é doente...de saudades.
Fomos ao Quinta Avenida e compramos um sapatinho maravilhoso para seu pezinho vinte e dois. Todo em couro, macio como ele só! Não se fazem sapatos assim, diriam alguns, como antigamente se fazia. Discordo: finalmente achei um sapato de antigamente! Fiquei tão feliz que tive ímpetos de comprar dois, três pares, todos de tamanhos diferentes! Enquanto escrevo, percebo os pequenos prazeres bobos de ser mãe e querer sempre do melhor para a cria... Paciência! Com licença, que a minha cria já toma banho sozinha, conta até quatorze sem errar e sabe narrar histórias, além de me beijar carinhosamente quando quer carinho? :)
(Que mãe babona!)
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Natal dos adultos
Esse ano lhe trouxe um Natal aprazível. Na verdade, penso que você é que estava aprazível para o Natal, dada sua idade tão fantástica de começar a descobrir as coisas.
Depois de um longo e tenebroso vácuo de vinte e dois anos, você foi a primeira criança a voltar a povoar os natais da família Maia Junqueira e posso lhe garantir que abrimos as portas para toda uma nova geração de junqueirinhas que, agora, sairão do ovo. Tia Maria, que você tanto gosta, será vovó duas vezes em menos de um ano (exatamente como fizemos com sua avó Dayse). Isso é bem bacana: no próximo Natal, já serão três crianças, para dizer o mínimo (porque sempre há a possibilidade de alguém correr atrás do prejuízo e aparecer cultivando uma sementinha até meados de março).
Quem sabe, com a família encriançada, as pessoas não passem a praticar um pouco mais de carinho, paciência e perdão. Ninguém sairia perdendo com isso, garanto.
E por falar em família, deixa eu lhe colocar umas questões interessantes, antes que sua adolescência teime em lhe arrancar do seio familiar.
Na casa dos seus avós maternos (e só vou dar o exemplo dos avós maternos porque foi desse ninho que eu saí e são as lembranças das experiências que me fizeram o indivíduo que sou hoje) o Natal é comemorado com rodas de abraço, mesuras, comidas e vinho. Nunca vi um povo que gosta tanto de beber comendo, enquanto deixa a nostalgia tomar conta das conversas que se dão na sala de estar, junto à árvore. Posso dizer, por vivência, que um abraço apertado em minha família, vale mais que um presente, e é item obrigatório na chegada, na saída, e nos intervalos de meia hora. Gostamos de abraçar, de massagens, de falar alto, de dar beijinho nas nossas crianças. Gostamos, minto, amamos comer afetivamente também. Devoramos grandes bocados de tudo que está no pratinho com patê de gorgonzola, só pelo prazer de usar a boca (é um blá blá blá, mnhamnham, blá blá, mnhamnham interminável). Cresci achando que Natal era isso: reunir a família, comer até cansar, falar até cansar e trocar presentes. Do ponto de vista médio-burguês, continuo achando, apesar de, nesse Natal, essa imagem ter se desgastado um pouco quando percebi que não são todas as famílias que fazem essa mesma celebração dos sentidos.
Olhando em retrospectiva, penso que seja especialmente importante entender o lugar de onde saímos para conseguir definir com que apetrechos vamos para onde escolhemos ir. Compreendo que sua pouca idade hoje seja empecilho para discussão de questões dessa natureza (você ainda está na fase de discutir se suja suas fraldas escondidinha atrás do sofá ou dentro do armário), mas chegará o tempo em que tudo isso brotará na sua frente e, por via das dúvidas, caso isso lhe chegue sem minha presença, já deixo aqui um pouco do que acredito ser uma medida razoável de convivência pró crescimento: família é importante. Muito importante. Fundamental.
São as únicas pessoas com grandes chances de lhe acompanhar ao longo de sua vida e, se você tiver sorte, são aquelas que carregarão você para dentro da vida delas, dando-lhe a oportunidade de fazer a diferença lá também. Aproveite. Conheça seus avós. Conheça seus tios e tias, primos, tio-avós. Dê a eles a chance de saber quem você é em troca da chance que eles lhe darão de parar para conhecer você. Sei que, muitas vezes, é mais fácil (ou mais prazeroso) se entender com colegas de sala ou vizinhos, mas o laço familiar é algo que conecta as pessoas como uma linha invisível, um cordão umbilical universal que lhe garante abrigo e lhe cobra abrigo em casos especiais ou corriqueiros e abraçar essa prática definitivamente faz pessoas melhores.
É claro que há gente em nossa família com quem não nos identificamos. Há gente assim em todo lugar. Desses, só digo uma coisa: não há necessidade de abraçá-los ou forçar a convivência, mas aprenda com eles como você não gostaria de ser, para não se deixar tornar um deles. Cada um têm uma informação valiosa para lhe oferecer, até para o lado contrário...
Depois de um longo e tenebroso vácuo de vinte e dois anos, você foi a primeira criança a voltar a povoar os natais da família Maia Junqueira e posso lhe garantir que abrimos as portas para toda uma nova geração de junqueirinhas que, agora, sairão do ovo. Tia Maria, que você tanto gosta, será vovó duas vezes em menos de um ano (exatamente como fizemos com sua avó Dayse). Isso é bem bacana: no próximo Natal, já serão três crianças, para dizer o mínimo (porque sempre há a possibilidade de alguém correr atrás do prejuízo e aparecer cultivando uma sementinha até meados de março).
Quem sabe, com a família encriançada, as pessoas não passem a praticar um pouco mais de carinho, paciência e perdão. Ninguém sairia perdendo com isso, garanto.
E por falar em família, deixa eu lhe colocar umas questões interessantes, antes que sua adolescência teime em lhe arrancar do seio familiar.
Na casa dos seus avós maternos (e só vou dar o exemplo dos avós maternos porque foi desse ninho que eu saí e são as lembranças das experiências que me fizeram o indivíduo que sou hoje) o Natal é comemorado com rodas de abraço, mesuras, comidas e vinho. Nunca vi um povo que gosta tanto de beber comendo, enquanto deixa a nostalgia tomar conta das conversas que se dão na sala de estar, junto à árvore. Posso dizer, por vivência, que um abraço apertado em minha família, vale mais que um presente, e é item obrigatório na chegada, na saída, e nos intervalos de meia hora. Gostamos de abraçar, de massagens, de falar alto, de dar beijinho nas nossas crianças. Gostamos, minto, amamos comer afetivamente também. Devoramos grandes bocados de tudo que está no pratinho com patê de gorgonzola, só pelo prazer de usar a boca (é um blá blá blá, mnhamnham, blá blá, mnhamnham interminável). Cresci achando que Natal era isso: reunir a família, comer até cansar, falar até cansar e trocar presentes. Do ponto de vista médio-burguês, continuo achando, apesar de, nesse Natal, essa imagem ter se desgastado um pouco quando percebi que não são todas as famílias que fazem essa mesma celebração dos sentidos.
Olhando em retrospectiva, penso que seja especialmente importante entender o lugar de onde saímos para conseguir definir com que apetrechos vamos para onde escolhemos ir. Compreendo que sua pouca idade hoje seja empecilho para discussão de questões dessa natureza (você ainda está na fase de discutir se suja suas fraldas escondidinha atrás do sofá ou dentro do armário), mas chegará o tempo em que tudo isso brotará na sua frente e, por via das dúvidas, caso isso lhe chegue sem minha presença, já deixo aqui um pouco do que acredito ser uma medida razoável de convivência pró crescimento: família é importante. Muito importante. Fundamental.
São as únicas pessoas com grandes chances de lhe acompanhar ao longo de sua vida e, se você tiver sorte, são aquelas que carregarão você para dentro da vida delas, dando-lhe a oportunidade de fazer a diferença lá também. Aproveite. Conheça seus avós. Conheça seus tios e tias, primos, tio-avós. Dê a eles a chance de saber quem você é em troca da chance que eles lhe darão de parar para conhecer você. Sei que, muitas vezes, é mais fácil (ou mais prazeroso) se entender com colegas de sala ou vizinhos, mas o laço familiar é algo que conecta as pessoas como uma linha invisível, um cordão umbilical universal que lhe garante abrigo e lhe cobra abrigo em casos especiais ou corriqueiros e abraçar essa prática definitivamente faz pessoas melhores.
É claro que há gente em nossa família com quem não nos identificamos. Há gente assim em todo lugar. Desses, só digo uma coisa: não há necessidade de abraçá-los ou forçar a convivência, mas aprenda com eles como você não gostaria de ser, para não se deixar tornar um deles. Cada um têm uma informação valiosa para lhe oferecer, até para o lado contrário...
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Lembrando dos velhos tempos
A primeira palavra que você falou, aproximadamente aos nove meses, foi urubu.
(A bem da verdade, uma réplica fonética perfeita diria que foi "u-u-bu").
É claro que você falava "mama" também, mas em "mama" não havia o sentido "mãe", era só um balbuciar de sílabas ridiculamente fácil e elementar, que toda criança fala desde quase sempre. Mas a primeira palavra com sentido mesmo, aquela que você falava sabendo do que estava falando, foi urubu e eu amo você por isso.
Nunca quis forçar que aprendesse "mamãe" sobre todas as coisas e ademais, penso que existe uma mágica quando se começa a falar: o que se diz, como se diz, com que freqüência. Uma primeira palavra é unica e vai ficar marcada para o resto da vida, veja bem. Poderia ter sido qualquer outra coisa, dada a quantidade de vezes que a gente substantivava perto de você para distrair seus olhinhos: au-au, miau, mamãe, papai, vovó, carro, bicho, sei lá, para quem nunca disse nada, todas as palavras são uma primeira em potencial!
E você, dando mostras do bichinho eloqüente que já é, me aponta para o céu e fala urubu. Assim, do nada, num passeio pelo quintal da casa da vovó Zizi. Pirei.
Hoje suas incursões pelo mundo das palavras são desbravadoras e você fala (ou, pelo menos, tenta) praticamente de tudo. Mas, não se engane, não é porque falar já se tornou senso comum para você que tal ato perdeu a magia e caiu na rotina. Vibro com cada palavra aprendida e, confesso, há coisas tão lindinhas que você fala (" o e-e-fanti comi a fôia e o gaio") que dá vontade de reforçar a fala errada só pra ficar mais bonitinho por mais tempo!
(A bem da verdade, uma réplica fonética perfeita diria que foi "u-u-bu").
É claro que você falava "mama" também, mas em "mama" não havia o sentido "mãe", era só um balbuciar de sílabas ridiculamente fácil e elementar, que toda criança fala desde quase sempre. Mas a primeira palavra com sentido mesmo, aquela que você falava sabendo do que estava falando, foi urubu e eu amo você por isso.
Nunca quis forçar que aprendesse "mamãe" sobre todas as coisas e ademais, penso que existe uma mágica quando se começa a falar: o que se diz, como se diz, com que freqüência. Uma primeira palavra é unica e vai ficar marcada para o resto da vida, veja bem. Poderia ter sido qualquer outra coisa, dada a quantidade de vezes que a gente substantivava perto de você para distrair seus olhinhos: au-au, miau, mamãe, papai, vovó, carro, bicho, sei lá, para quem nunca disse nada, todas as palavras são uma primeira em potencial!
E você, dando mostras do bichinho eloqüente que já é, me aponta para o céu e fala urubu. Assim, do nada, num passeio pelo quintal da casa da vovó Zizi. Pirei.
Hoje suas incursões pelo mundo das palavras são desbravadoras e você fala (ou, pelo menos, tenta) praticamente de tudo. Mas, não se engane, não é porque falar já se tornou senso comum para você que tal ato perdeu a magia e caiu na rotina. Vibro com cada palavra aprendida e, confesso, há coisas tão lindinhas que você fala (" o e-e-fanti comi a fôia e o gaio") que dá vontade de reforçar a fala errada só pra ficar mais bonitinho por mais tempo!
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Um ano e nove meses, acabou de sair do banho, corre para a televisão para assistir os Backyardigans. No episódio de hoje, tem um extraterrestre que você cismou de chamar de "sapo", porque o bicho é verde e tem olhos esbugalhados. Pois bem. Você se aproxima da tevê, o suficiente para abraça-la, so to speak, e toca a tela de vidro, fazendo carinhos nas personagens. "Vem cá, vem, sapo. Dá a mão. Aqui, ó, sapo, vem. Vem cá, 'gans' [a forma como consegue falar backyardigans me enternece], vem cá, por favor".
E falou assim mesmo, com as palavras claras como um dicionário para cegos (exceto pelo nome do desenho, que ainda é um desafio para você). Foi muito lindo. Emocionante.
Você vai entender, daqui a algum tempo, que os desenhos são só desenhos e que nós os encontramos em parques temáticos e trenzinhos em volta da Praça da Liberdade. Ou então eles participam das festas de aniversários. Ou vão à sua escola no dia das crianças. Mas hoje, hoje você ainda entende esses mundos como sendo o mesmo mundo compartilhado por todos. Você é o "Onde vivem os monstros" sem monstros ou história de falta de afeto. É "Labirinto", sem a história do bebê roubado (acho que você é só o finalzinho, quando a Sarah está no quarto e os bichos saem do espelho).
Amo você. Amo todos os seus mundos tão bonitos, que a gente acaba por sufocar depois que vira adulto. Quer saber? Gostaria de lhe pedir um favor: quando crescer, deixe sempre um espaço para a brincadeira, a imaginação e as histórias de quadrinhos e desenhos animados. Um adulto que é só adulto, nada mais é que uma pessoa mais triste que as outras...
E falou assim mesmo, com as palavras claras como um dicionário para cegos (exceto pelo nome do desenho, que ainda é um desafio para você). Foi muito lindo. Emocionante.
Você vai entender, daqui a algum tempo, que os desenhos são só desenhos e que nós os encontramos em parques temáticos e trenzinhos em volta da Praça da Liberdade. Ou então eles participam das festas de aniversários. Ou vão à sua escola no dia das crianças. Mas hoje, hoje você ainda entende esses mundos como sendo o mesmo mundo compartilhado por todos. Você é o "Onde vivem os monstros" sem monstros ou história de falta de afeto. É "Labirinto", sem a história do bebê roubado (acho que você é só o finalzinho, quando a Sarah está no quarto e os bichos saem do espelho).
Amo você. Amo todos os seus mundos tão bonitos, que a gente acaba por sufocar depois que vira adulto. Quer saber? Gostaria de lhe pedir um favor: quando crescer, deixe sempre um espaço para a brincadeira, a imaginação e as histórias de quadrinhos e desenhos animados. Um adulto que é só adulto, nada mais é que uma pessoa mais triste que as outras...
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Manhas e resfriados
Você sabe bem o que é um e o que é o outro. Como não poderia ser diferente, você também sabe muito bem como misturá-los até me confundir por completo. Ponto para você!
Hoje, enquanto íamos para a sua escolinha, ouvi seus protestos no banco de trás: " não, mãe, coinha não, favor, mãe, nããão...nhuimnhiumnhooooommmm". Seria bonitinho, não fosse tão heartbreaking. Deixei você lá, assim mesmo. E não deveria? Eu também tenho de trabalhar e, ademais, você precisa de rotinas e regras bem definidas para poder entender quais são seus alcances e quais não.
Afinal, uma hora depois de deixa-la, lá estava eu, a busca-la. As tias caíram no seu papo de "dodói". Fiquei até satisfeita de ter de ir, mas confesso que tive uma ponta de preocupação no fato de você já estar conseguindo manipular tanta gente com tamanha maestria. Se sua avó pudesse comentar aqui, escreveria: "ah, menina que parece com a mãe!" e riria sarcasticamente, como se você fosse o troco do que eu, supostamente, devo a ela...
Hoje, enquanto íamos para a sua escolinha, ouvi seus protestos no banco de trás: " não, mãe, coinha não, favor, mãe, nããão...nhuimnhiumnhooooommmm". Seria bonitinho, não fosse tão heartbreaking. Deixei você lá, assim mesmo. E não deveria? Eu também tenho de trabalhar e, ademais, você precisa de rotinas e regras bem definidas para poder entender quais são seus alcances e quais não.
Afinal, uma hora depois de deixa-la, lá estava eu, a busca-la. As tias caíram no seu papo de "dodói". Fiquei até satisfeita de ter de ir, mas confesso que tive uma ponta de preocupação no fato de você já estar conseguindo manipular tanta gente com tamanha maestria. Se sua avó pudesse comentar aqui, escreveria: "ah, menina que parece com a mãe!" e riria sarcasticamente, como se você fosse o troco do que eu, supostamente, devo a ela...
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Autora
Hoje você me contou a sua primeira história. Narrou, lindamente, o primeiro curta da Pixar, onde uma abelha persegue um bicho azul estranho, que você denominou um urso. Foi a coisa mais emocionante do dia, especialmente a forma como me contou: nós duas deitadas, você com suas mãozinhas envolvendo meu rosto, nossos narizes quase se tocando. Perdoe a falta de jeito na descrição, mas nada tão belo de se captar vale a pena ser descrito, justamente sob pena de perder fatias da beleza: " e a abeia coeu, coeu, o usso coeu a abeia, mamãe".
Fiquei extasiada. Meu bebê, aos vinte meses, já desenvolveu a arte de contar histórias!
Se for como sua mãe, jamais tornará ao silêncio literário. E me parece que será...
Cuidado, meu amor, que elas se confundem com a vida!
Fiquei extasiada. Meu bebê, aos vinte meses, já desenvolveu a arte de contar histórias!
Se for como sua mãe, jamais tornará ao silêncio literário. E me parece que será...
Cuidado, meu amor, que elas se confundem com a vida!
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Com as garças
Ontem fomos à Anchieta.
Chegando na praia da frente, lá pelos cantos do terreno do Geraldinho (depois você precisa me lembrar de lhe contar essa história), vimos centenas de garças andando pela água, a maré estava bem baixa, de modo que havia menos de um palmo dágua entrando da margem até um duzentos metros para dentro do mar. Elas passeavam despreocupadas, caçando peixinhos e conversando umas com as outras, com barulhos engraçados e altos. O sol estava a pino e o vento soprava agradavelmente.
Você, de vestido branco, não queria descer do meu colo, por medo da proximidade com os bichos (algumas chegavam a um metro e pouquinho de altura). Entrei na água e fui caminhando para o meio delas, com você no colo. Vimos que elas comiam peixinhos e futucavam o fundo dágua à procura de mexilhões. Contei-lhe histórias de garças e aos poucos, você foi se acostumando em estar ali, quase que absorvendo o cenário. Seu avô tentava tirar fotos da margem, mas estávamos muito longe...
Coloquei você no chão, pezinhos nágua. Gostou. Largou lentamente minha mão e passou a se apoiar em meio vestido. Falava com as garças, brincava com elas, ria. "Bonito, mamãe, bonito", apontou para uma garça com uma cabeça de peixe no bico, em pleno vôo. Eu também achei bonito. Qualquer um acharia bonito estar ilhado por garças e água, num cenário paradisíaco daqueles. Queria guardar tudo em fotos, filmes, livros. Queria mudar com você para a beira das garças, para você nunca perder esse contato com a natureza. Queria que você conseguisse guardar na mente essa tarde tão deliciosamente morna e feliz...
Chegando na praia da frente, lá pelos cantos do terreno do Geraldinho (depois você precisa me lembrar de lhe contar essa história), vimos centenas de garças andando pela água, a maré estava bem baixa, de modo que havia menos de um palmo dágua entrando da margem até um duzentos metros para dentro do mar. Elas passeavam despreocupadas, caçando peixinhos e conversando umas com as outras, com barulhos engraçados e altos. O sol estava a pino e o vento soprava agradavelmente.
Você, de vestido branco, não queria descer do meu colo, por medo da proximidade com os bichos (algumas chegavam a um metro e pouquinho de altura). Entrei na água e fui caminhando para o meio delas, com você no colo. Vimos que elas comiam peixinhos e futucavam o fundo dágua à procura de mexilhões. Contei-lhe histórias de garças e aos poucos, você foi se acostumando em estar ali, quase que absorvendo o cenário. Seu avô tentava tirar fotos da margem, mas estávamos muito longe...
Coloquei você no chão, pezinhos nágua. Gostou. Largou lentamente minha mão e passou a se apoiar em meio vestido. Falava com as garças, brincava com elas, ria. "Bonito, mamãe, bonito", apontou para uma garça com uma cabeça de peixe no bico, em pleno vôo. Eu também achei bonito. Qualquer um acharia bonito estar ilhado por garças e água, num cenário paradisíaco daqueles. Queria guardar tudo em fotos, filmes, livros. Queria mudar com você para a beira das garças, para você nunca perder esse contato com a natureza. Queria que você conseguisse guardar na mente essa tarde tão deliciosamente morna e feliz...
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Uma carta pra você
Outro dia mesmo eu estava prestando atenção no quanto é importante conversar com você.
Quando eu digo conversar, não estou querendo dizer repetir palavras fáceis ou rir simplesmente do que você diz, mas conversar mesmo, no mais amplo sentido da palavra: lhe conto coisas e lhe escuto as coisas, como se tivéssemos, ambas, pleno entendimento do que a outra diz.
Sei que não entendo metade do que fala, mesmo porque você está agora numa fase engraçadinha demais, que repete sílabas a esmo, esperando que aquele amontoado de sons faça tanto sentido quanto os amontoados de som que os adultos dizem. Mas penso que, nesse momento, entender a importância da sua fala já é o suficiente na grande maioria dos casos. E isso vale reciprocamente. Você está aprendendo a escutar; o que é definitivamente importante e definidor para a sua vida. Lembre-se disso: duas das nossas grandes armas são os ouvidos e a memória.
Estou achando muito bacana ter tido a oportunidade de ser sua mãe. Se pudesse escolher uma filha a dedo, não teria chegado perto da perfeição que é você. Engraçado como toda mãe provavelmente diz isso, mas, de algum modo, acho que sou a única que realmente pode dizer, porque, certamente, você é mais especial que qualquer filha dos outros.
Ser mãe tem lá seus traços perversos, especialmente porque quando endeusamos demais os filhos, estamos fazendo um cumprimento indireto a nós mesmas: veja só como sou especial; olhem a filha perfeita que fiz!
Mas, não se preocupe: isso só é perigoso quando a gente não sabe que é perverso e, como entendo esse lado da maternidade, não deixarei que isso afete nossa relação de maneira destrutiva (prometo que vou tentar!).
Enfim, enquanto você dorme (e eu só escrevo enquanto você dorme _ ora, haveria alguma outra hora para eu escrever?), reflito sobre seu papel na minha vida e, consequentemente, sobre o meu na sua e penso que, apesar dos inevitáveis (e por que não, saudáveis) embates, nos entenderemos sempre muito bem...
Quando eu digo conversar, não estou querendo dizer repetir palavras fáceis ou rir simplesmente do que você diz, mas conversar mesmo, no mais amplo sentido da palavra: lhe conto coisas e lhe escuto as coisas, como se tivéssemos, ambas, pleno entendimento do que a outra diz.
Sei que não entendo metade do que fala, mesmo porque você está agora numa fase engraçadinha demais, que repete sílabas a esmo, esperando que aquele amontoado de sons faça tanto sentido quanto os amontoados de som que os adultos dizem. Mas penso que, nesse momento, entender a importância da sua fala já é o suficiente na grande maioria dos casos. E isso vale reciprocamente. Você está aprendendo a escutar; o que é definitivamente importante e definidor para a sua vida. Lembre-se disso: duas das nossas grandes armas são os ouvidos e a memória.
Estou achando muito bacana ter tido a oportunidade de ser sua mãe. Se pudesse escolher uma filha a dedo, não teria chegado perto da perfeição que é você. Engraçado como toda mãe provavelmente diz isso, mas, de algum modo, acho que sou a única que realmente pode dizer, porque, certamente, você é mais especial que qualquer filha dos outros.
Ser mãe tem lá seus traços perversos, especialmente porque quando endeusamos demais os filhos, estamos fazendo um cumprimento indireto a nós mesmas: veja só como sou especial; olhem a filha perfeita que fiz!
Mas, não se preocupe: isso só é perigoso quando a gente não sabe que é perverso e, como entendo esse lado da maternidade, não deixarei que isso afete nossa relação de maneira destrutiva (prometo que vou tentar!).
Enfim, enquanto você dorme (e eu só escrevo enquanto você dorme _ ora, haveria alguma outra hora para eu escrever?), reflito sobre seu papel na minha vida e, consequentemente, sobre o meu na sua e penso que, apesar dos inevitáveis (e por que não, saudáveis) embates, nos entenderemos sempre muito bem...
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Parece baleia
Falo de carteirinha: não se sabe o que esperar de uma criança de um ano e meio, em matéria de coisas engraçadas. Você, que é meu parâmetro para "crianças de um ano e meio", é a prova viva da engraçadisse da infância. Olhe bem, nunca tinha escutado um caso desses, mas vou adiantando que não deve ser muito comum para a sua idade.
Estávamos no calçadão da Praia da Costa, seus avós paternos, seu pai, você e eu. Você, toda serelepe, olhava para o mar e, de súbito, parou os olhos na água. Fitava as pedras enormes da curva da praia. Apontando para elas, gritou "mamãe, baleia!", enquanto olhava extasiada a pedra com formato de baleia cachalote, que despontava à sua frente. Eu e sua avó rimos, enquanto você dava uma segunda fitava na pedra. Com a cabeça de lado, corrigiu-se "parece baleia..." e saiu andando, à cata de pedrinhas no chão.
Tentei imaginar de onde você conheceria uma baleia de fato, para fazer tal correlação. Televisão? Livros? Poderia ser. Ou então eram as baleias de desenho animado, que se pareciam com a pedra, quem sabe? Seu episódio preferido do Pocoyo é intitulado "O aniversário da baleia". Seria essa baleia? Penso que nunca saberei ao certo. Fato é que foi divertido demais ver sua carinha tentando entender aquela baleia esquisita. E eu que pensei que você fosse tão novinha, já vejo mostras dos seus mundos fantásticos...
Estávamos no calçadão da Praia da Costa, seus avós paternos, seu pai, você e eu. Você, toda serelepe, olhava para o mar e, de súbito, parou os olhos na água. Fitava as pedras enormes da curva da praia. Apontando para elas, gritou "mamãe, baleia!", enquanto olhava extasiada a pedra com formato de baleia cachalote, que despontava à sua frente. Eu e sua avó rimos, enquanto você dava uma segunda fitava na pedra. Com a cabeça de lado, corrigiu-se "parece baleia..." e saiu andando, à cata de pedrinhas no chão.
Tentei imaginar de onde você conheceria uma baleia de fato, para fazer tal correlação. Televisão? Livros? Poderia ser. Ou então eram as baleias de desenho animado, que se pareciam com a pedra, quem sabe? Seu episódio preferido do Pocoyo é intitulado "O aniversário da baleia". Seria essa baleia? Penso que nunca saberei ao certo. Fato é que foi divertido demais ver sua carinha tentando entender aquela baleia esquisita. E eu que pensei que você fosse tão novinha, já vejo mostras dos seus mundos fantásticos...
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Reunião de pais
Você está contando: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze. E pára no onze. Por que cargas dágua você não parou no dez, como todo mundo, eu não sei. Mas também nunca vi muitas crianças de um ano e meio contando até lá, sem errar. E tem mais: você introjetou conceitos matemáticos. Você sabe que um é diferente de dois e que eles não são meramente uma sequência de lógica oculta. Quer a prova? Pois bem. Essa noite você cuspiu a chupeta para um buraco negro em sua cama. Choramingava, procurava, procurava e nada. A chupeta devia estar no meio dos lençóis, debaixo dalgum travesseiro, sei lá. Tive de levantar e lhe levar outra chupeta. Daí, de manhã, quando acordou, olhou para mim e disse: mamãe, duas chupetas. E tinha as duas nas mãos. Fiquei estarrecida...
Acho que os pais sempre ficam estarrecidos com as coisas que seus filhos fazem, principalmente nesse comecinho de vida, onde toda informação é nova e diferente dos pequenos repertórios que vocês tem. Achei muito fantástico você saber o que significa duas chupetas. Você entendeu! Você realmente aprendeu o número dois.
Isso me pegou de surpresa...
Hoje é a primeira reunião de pais da minha vida. Depois eu lhe conto como foi...
Acho que os pais sempre ficam estarrecidos com as coisas que seus filhos fazem, principalmente nesse comecinho de vida, onde toda informação é nova e diferente dos pequenos repertórios que vocês tem. Achei muito fantástico você saber o que significa duas chupetas. Você entendeu! Você realmente aprendeu o número dois.
Isso me pegou de surpresa...
Hoje é a primeira reunião de pais da minha vida. Depois eu lhe conto como foi...
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Fazendinha
Hoje você ficou na escolinha até mais tarde para ver a apresentação do minizoológico. Não sei bem o que diabos é um minizoológico, mas suspeito que haja um pônei e algumas galinhas sapateiras pras crianças brincarem...
Sua risada está cada dia mais contagiante... E a forma como você come, ah, Alice... Quem lhe ensinou a fazer isso? Um barulhinho tão bonito de nhamnhamnhamnham... E quanto mais você gosta da comida, mais alto faz seu nhamnhamnham... Você pode passar longos minutos ruminando a refeição, só para se escutar. É uma delícia de ouvir!
Sua risada está cada dia mais contagiante... E a forma como você come, ah, Alice... Quem lhe ensinou a fazer isso? Um barulhinho tão bonito de nhamnhamnhamnham... E quanto mais você gosta da comida, mais alto faz seu nhamnhamnham... Você pode passar longos minutos ruminando a refeição, só para se escutar. É uma delícia de ouvir!
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Abraços
Hoje você pediu o vidro de catchup para explorá-lo. Olhou um lado, virou, olhou a tampa. Por fim, convencida de que era um amigão de longa data, abraçou-o!
Abraço (ok, você disse abásso), cantava, enquanto apertava o catchup e sacudia de um lado para o outro, como se ninasse uma de suas bonecas. Achei tão bonitinho! Você gosta de dar abraços. Gosta de ser carinhosa e de fazer carinho e dar beijos nas coisas. É a coisa mais fofa ver você se despedindo das gangorras em forma de bichinhos em sua nova escolinha (já a freqüenta há duas semanas): vai de uma a uma, preferencialmente iniciando pelo peixinho, e as beija delicadamente. Faz o mesmo com o desenho de caranguejo que fica na parede de sua sala. E, novamente, o mesmo com os cavalinhos de balanço e a professora Kellen.
Outro dia, morremos de rir com sua nova marca registrada: adóio cadeia. Deixa eu explicar: sua avó lhe comprou duas cadeirinhas pequenas, que ficam, uma em nossa casa, outra na casa dela. Na hora do almoço, na casa dos avós, seu avô pegou você no colo e, lhe apertando num abraço, disse "adoro a Alice!". Você não teve dúvidas, pediu para ir pro chão, correu para a cadeirinha que ganhou e retrucou "adóio cadeia!".
Rimos a tarde inteira...
Abraço (ok, você disse abásso), cantava, enquanto apertava o catchup e sacudia de um lado para o outro, como se ninasse uma de suas bonecas. Achei tão bonitinho! Você gosta de dar abraços. Gosta de ser carinhosa e de fazer carinho e dar beijos nas coisas. É a coisa mais fofa ver você se despedindo das gangorras em forma de bichinhos em sua nova escolinha (já a freqüenta há duas semanas): vai de uma a uma, preferencialmente iniciando pelo peixinho, e as beija delicadamente. Faz o mesmo com o desenho de caranguejo que fica na parede de sua sala. E, novamente, o mesmo com os cavalinhos de balanço e a professora Kellen.
Outro dia, morremos de rir com sua nova marca registrada: adóio cadeia. Deixa eu explicar: sua avó lhe comprou duas cadeirinhas pequenas, que ficam, uma em nossa casa, outra na casa dela. Na hora do almoço, na casa dos avós, seu avô pegou você no colo e, lhe apertando num abraço, disse "adoro a Alice!". Você não teve dúvidas, pediu para ir pro chão, correu para a cadeirinha que ganhou e retrucou "adóio cadeia!".
Rimos a tarde inteira...
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Escrevendo no ar
Você anda fazendo arte pela casa. Paredes, chão, portas de vidro: tudo é suporte para seus desenhos de lápis de cera. E não adianta eu chamar sua atenção; você franze a testa, faz bico e aperta os olhos, como se fosse chorar, mas, em segundos, lá está novamente, praticando o proibido.
Começo a perceber o quanto ser mãe é dedicar-se exclusivamente às pequenas coisas. Não teria graça deixar você fazer de tudo (e, especialmente, não seria certo). Não teria graça lhe privar de tudo que é potencialmente perigoso ou desordeiro. O segredo é o meio. Dou-lhe giz de cera para que brinque no papel e espero paciente quando o giz pula do papel para o chão, tomando preferência pelo chão. É claro que chamo sua atenção. Ora, os limites só existem quando são ensinados. E desde pequena você precisa entender que há regras maiores no mundo que os seus gritinhos fofos pela chupeta...
Começo a perceber o quanto ser mãe é dedicar-se exclusivamente às pequenas coisas. Não teria graça deixar você fazer de tudo (e, especialmente, não seria certo). Não teria graça lhe privar de tudo que é potencialmente perigoso ou desordeiro. O segredo é o meio. Dou-lhe giz de cera para que brinque no papel e espero paciente quando o giz pula do papel para o chão, tomando preferência pelo chão. É claro que chamo sua atenção. Ora, os limites só existem quando são ensinados. E desde pequena você precisa entender que há regras maiores no mundo que os seus gritinhos fofos pela chupeta...
domingo, 3 de outubro de 2010
Quando nascem as doenças
Lembro-me do seu primeiro resfriado. A primeira vez que vi seu narizinho escorrendo e seus olhos ficarem abatidos pelo cansaço de não conseguir dormir. Eu também não consegui dormir. Foram dias apertados, você não estava acostumada às sensações estranhas advindas dum resfriado.
Hoje, um ano e alguns resfriados depois, estamos às voltas com o mesmo dito: cada espirro (tão fofos!) traz um chorinho de mal estar e prováveis dores. Neste momento, você dorme a meu lado e eu lhe velo o sono, virando seu corpo de vez em quando, para revezar as narinas entupidas entre si. Quando crescer, não vai se lembrar disso, mas o movimento de mudar de lado virá quase como que instintivo...
Observar a sua fragilidade me dá um medo danado. Medo de que sofra, sinta dores, fique irremediavelmente triste. Uma vez minha mãe me disse que, quando eu era pequena, ela tinha medo de morrer, porque temia pelo meu cuidado nas mãos de eventuais outras pessoas. Eu não sinto como minha mãe sentia. Definitivamente não tenho medo de morrer e deixar você aqui. Há tanta gente que ama você! Você ficaria bem se eu fosse. O contrário é que seria devastador. A grande sacada de ser mãe é quando se percebe que a gente precisa mais do filho do que ele precisa da gente. Esse é um sentimento aterrador, sem retorno e sem remédio. Eu preciso de você. Preciso de ver você. De saber que está bem. Toda a definição de propagação da espécie deve se definir nisso: eu preciso e amo tão imensamente, que cuido do seu bem estar à frente do meu. Quando saio nas ruas e vejo vitrines, penso em você. No mercado, ao fazer compras, as suas vem primeiro. Assim também quando eu faço o almoço. E quando minhas amigas me chamam para sair, a condição é que você esteja bem, banho tomado, mamadeira pronta, fralda limpa e tranquila.
Na noite passada, por exemplo, fui a um aniversário. Seu pai me chama, altas horas, para me avisar que você acordou vomitando, por causa do resfriado. Cobri uma distância de quatro km em três minutos, contando as curvas, sinais de trânsito e outros carros. Contando até a demora do elevador do nosso prédio. Pensei que fora má ideia ter saído quando seu narizinho estava escorrendo. Culpei-me por uns minutos, pela ausência, mas depois eu mesma me reprimi a paranóia: crianças ficam resfriadas. Ficam gripadas. Crianças tem catapora e diarréia também e não há nada que mude isso. Estamos apenas no começo da sua viagem...
Hoje, um ano e alguns resfriados depois, estamos às voltas com o mesmo dito: cada espirro (tão fofos!) traz um chorinho de mal estar e prováveis dores. Neste momento, você dorme a meu lado e eu lhe velo o sono, virando seu corpo de vez em quando, para revezar as narinas entupidas entre si. Quando crescer, não vai se lembrar disso, mas o movimento de mudar de lado virá quase como que instintivo...
Observar a sua fragilidade me dá um medo danado. Medo de que sofra, sinta dores, fique irremediavelmente triste. Uma vez minha mãe me disse que, quando eu era pequena, ela tinha medo de morrer, porque temia pelo meu cuidado nas mãos de eventuais outras pessoas. Eu não sinto como minha mãe sentia. Definitivamente não tenho medo de morrer e deixar você aqui. Há tanta gente que ama você! Você ficaria bem se eu fosse. O contrário é que seria devastador. A grande sacada de ser mãe é quando se percebe que a gente precisa mais do filho do que ele precisa da gente. Esse é um sentimento aterrador, sem retorno e sem remédio. Eu preciso de você. Preciso de ver você. De saber que está bem. Toda a definição de propagação da espécie deve se definir nisso: eu preciso e amo tão imensamente, que cuido do seu bem estar à frente do meu. Quando saio nas ruas e vejo vitrines, penso em você. No mercado, ao fazer compras, as suas vem primeiro. Assim também quando eu faço o almoço. E quando minhas amigas me chamam para sair, a condição é que você esteja bem, banho tomado, mamadeira pronta, fralda limpa e tranquila.
Na noite passada, por exemplo, fui a um aniversário. Seu pai me chama, altas horas, para me avisar que você acordou vomitando, por causa do resfriado. Cobri uma distância de quatro km em três minutos, contando as curvas, sinais de trânsito e outros carros. Contando até a demora do elevador do nosso prédio. Pensei que fora má ideia ter saído quando seu narizinho estava escorrendo. Culpei-me por uns minutos, pela ausência, mas depois eu mesma me reprimi a paranóia: crianças ficam resfriadas. Ficam gripadas. Crianças tem catapora e diarréia também e não há nada que mude isso. Estamos apenas no começo da sua viagem...
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Wild horses
Enquanto vejo você dormir, percebo a herança emocional que cada mãe passa a cada filha, atravessando gerações, desde o início dos tempos.
Você pode tudo. Você é tudo. E, especialmente, pode ser tudo o que não consegui me tornar. Penso nas coisinhas bonitas que você faz, no jeito como me olha de lado quando quer alguma coisa, na gargalhada que dá a cada vez que consegue o que deseja, no vozeirão encorpado e ríspido quando diz um não.
Você é um gigante. É a mãe das feministas e das fundamentalistas patriarcais. É a mais bonita, a mais elegante e, decerto, a mais educada e culta de todas as mulheres. Sei que escreverá livros, conquistará cadeiras e pessoas, fará permanecer sua palavra, como a última. Enlouquecerá os fracos, fazendo-os dobrar os joelhos para você passar. Pintará telas, comporá músicas, escreverá romances, adorará romances, ganhará medalhas, dormirá pouco e dificilmente parará em casa para me contar como foi seu dia, pois terá tantos compromissos importantes que a trivialidade não lhe será o suficiente. Nada lhe será o suficiente.
Imagino você, de mochilas, fazendo as viagens que eu não fiz. Refazendo as que já fiz. Aconselhando-me a ir para este ou aquele lugar. Escuto você falando um inglês perfeito, um francês indefectível, um alemão fantástico e um mandarim extraordinário. Comprará muitos livros e os lerá, senão todos, grande parte deles. Escreverá cartões de Natal de onde estiver, e não terá muito tempo para enviá-los; os encontrarei anos depois, dentro de um caderno ou outro, que você trouxe de volta para casa.
Daqui a uns anos, que passarão como minutos quer eu tenha cuidado ou não, o mundo lhe clamará de volta e eu vou ter de descobrir o que minha mãe reluta em entender: os filhos são do mundo e deles mesmos.
Enquanto você dorme e eu lhe vigio o sono, temo que, quando chegar a hora e você for diferente disso que lhe desejo, eu lhe cobre indevidamente tornar-se todas essas coisas, repetindo esse ciclo eterno das pobres transferências maternas...
Você pode tudo. Você é tudo. E, especialmente, pode ser tudo o que não consegui me tornar. Penso nas coisinhas bonitas que você faz, no jeito como me olha de lado quando quer alguma coisa, na gargalhada que dá a cada vez que consegue o que deseja, no vozeirão encorpado e ríspido quando diz um não.
Você é um gigante. É a mãe das feministas e das fundamentalistas patriarcais. É a mais bonita, a mais elegante e, decerto, a mais educada e culta de todas as mulheres. Sei que escreverá livros, conquistará cadeiras e pessoas, fará permanecer sua palavra, como a última. Enlouquecerá os fracos, fazendo-os dobrar os joelhos para você passar. Pintará telas, comporá músicas, escreverá romances, adorará romances, ganhará medalhas, dormirá pouco e dificilmente parará em casa para me contar como foi seu dia, pois terá tantos compromissos importantes que a trivialidade não lhe será o suficiente. Nada lhe será o suficiente.
Imagino você, de mochilas, fazendo as viagens que eu não fiz. Refazendo as que já fiz. Aconselhando-me a ir para este ou aquele lugar. Escuto você falando um inglês perfeito, um francês indefectível, um alemão fantástico e um mandarim extraordinário. Comprará muitos livros e os lerá, senão todos, grande parte deles. Escreverá cartões de Natal de onde estiver, e não terá muito tempo para enviá-los; os encontrarei anos depois, dentro de um caderno ou outro, que você trouxe de volta para casa.
Daqui a uns anos, que passarão como minutos quer eu tenha cuidado ou não, o mundo lhe clamará de volta e eu vou ter de descobrir o que minha mãe reluta em entender: os filhos são do mundo e deles mesmos.
Enquanto você dorme e eu lhe vigio o sono, temo que, quando chegar a hora e você for diferente disso que lhe desejo, eu lhe cobre indevidamente tornar-se todas essas coisas, repetindo esse ciclo eterno das pobres transferências maternas...
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Princesas Disney
Ok, sei que ainda não é uma boa hora, dados seus um ano e meio, mas é a única hora que tenho para lhe advertir em relação às princesas Disney...
Deixa eu lhe contar: acabei de assistir A Pequena Sereia pela primeira vez em vinte anos. Quando criança amava esse desenho e cresci achando que ele era muito divertido e lindo - e ele realmente o é, em vários aspectos. O que a Disney não vai lhe contar é que há algumas facetas estranhas, não só desse filminho em particular, mas de todos os desenhos Disney de mil novecentos e sua avó nascendo: meninas lindas que abandonam lar, família e tudo o que são e conhecem para ir ao encontro de seu grande amor (lindos príncipes, filhinhos de papai e herdeiros de tudo que a nobreza lhes poderia oferecer e que, via de regra, não mudam por elas).
Filhota, pelamordedeus, não caia nessa de deixar esses desenhos povoarem seu imaginário e construírem sua personalidade. Enquanto não tem idade o suficiente para entender nada do que estou dizendo, garantirei que só assistirá desenhos bacanas e sem mensagens subliminares potencialmente devastadoras (vide todas as mulheres da idade da sua mãe que gastam fortunas em terapia!). Algum dia você irá agradecer...
Deixa eu lhe contar: acabei de assistir A Pequena Sereia pela primeira vez em vinte anos. Quando criança amava esse desenho e cresci achando que ele era muito divertido e lindo - e ele realmente o é, em vários aspectos. O que a Disney não vai lhe contar é que há algumas facetas estranhas, não só desse filminho em particular, mas de todos os desenhos Disney de mil novecentos e sua avó nascendo: meninas lindas que abandonam lar, família e tudo o que são e conhecem para ir ao encontro de seu grande amor (lindos príncipes, filhinhos de papai e herdeiros de tudo que a nobreza lhes poderia oferecer e que, via de regra, não mudam por elas).
Filhota, pelamordedeus, não caia nessa de deixar esses desenhos povoarem seu imaginário e construírem sua personalidade. Enquanto não tem idade o suficiente para entender nada do que estou dizendo, garantirei que só assistirá desenhos bacanas e sem mensagens subliminares potencialmente devastadoras (vide todas as mulheres da idade da sua mãe que gastam fortunas em terapia!). Algum dia você irá agradecer...
A boa nova
Quando decidimos espalhar a notícia da gravidez (o que aconteceu dois dias depois de sabermos de você em minha barriga), uma onda de frisson parecia ter tomado conta da família. Ora, já eram vinte e três anos sem um bebê na família de minha mãe e olha que somos muitos netos! Cada um dos vinte e tantos primos respondeu à sua forma, desde as ditas invejinhas boas até os "aimeudeusdocéu, que coragem". Todos ligavam a toda hora, as tias (irmãs de mamãe) viraram tietes e alisavam você quando ainda era menor que meu umbigo.
Pelo lado do seu pai, o susto veio maior que a festa, de princípio: seu tio Gustavo já estava grávido e todos ainda faziam as farras para eles, que já eram uma família estabelecida de fato e direito. Nós éramos amadores e malucões, mal saídos das faculdades.
Numa quinta-feira, fomos à feirinha da Savassi, contar pros amigos sobre a sua existência e todo mundo ficou doido. Era tudo muito novo, poucos dos nossos já eram pais e, se não me engano, da turma do seu pai, ele foi, sarcasticamente, o primeiro. Cheguei primeiro e o encontrei lá. Ele tinha um presente nas mãos _ seu primeiro presente! Era uma toalha de sapo, forrada de algodão, muito linda. Acho que achávamos que você seria um menino, não sei porquê. Mas isso foi só um palpite chutado pra bem fora do gol.
Combinamos que, se fosse menino, seu pai escolheria seu time de futebol. Se fosse menina, essa tarefa caberia a mim. Desde esse dia, eu já sentia que você era menina...
Pra falar a verdade, meu palpite sobre ser menina veio de um pensamento exclusivo: aqui se faz, aqui se paga. Eu sabia que minha mãe rezava bastante e provavelmente ela teve alguma parcela de influência na hora do Cara decidir quem ele iria mandar descer pra povoar o conjunto de células que crescia na minha barriga. Não que eu desse muito trabalho, mas também não dava pouco. Vamos ver como vai ser com você...
Anyway, deixa eu te contar como foi que disse a seu pai que ele seria papai.
Estávamos no carro, eu dirigindo, saindo da agência de viagens onde compraríamos nossas passagens para ir pro Canadá (nossa viagem já estava toda acertada, tínhamos gastado às tampas com o programa, o visto, etc e etc. Só faltavam as passagens.) e íamos em direção à casa dele.
No carro, destilei a notícia em uma série de perguntas:
Lucas, você me ama?
- Aham, ele respondeu
Mas, ama mesmo? Muito?
- Amo.
E você vai ter uma casa comigo no Canadá?
- Aham.
E nós vamos ter um cachorro no Canadá?
- Amm... quem sabe?
E vamos ter um filho também?
- Claro. Daqui a uns dois anos.
E vamos ter um filho em junho?
- ...
E o diálogo parou por aqui. Ele me olhava estupefato. Bêbado. Aterrorizado. Suspeito que ele não tenha entendido mais nada desde aquela hora até uns dois dias depois, quando toda a informação começou a fazer sentido e ser mais parte da nossa vida. Eu, por outro lado, achava que teria até junho para realmente me encontrar com você, olho a olho. Mas minhas contas estavam erradas. Você deveria vir no início de maio, como constatei depois, em seu primeiro ultrassom e em nossa consulta médica.
Mas, como você é minha filha mesmo, assim, sem tirar nem por, não aguentou esperar nem até lá: acabou chegando em abril mesmo...
Pelo lado do seu pai, o susto veio maior que a festa, de princípio: seu tio Gustavo já estava grávido e todos ainda faziam as farras para eles, que já eram uma família estabelecida de fato e direito. Nós éramos amadores e malucões, mal saídos das faculdades.
Numa quinta-feira, fomos à feirinha da Savassi, contar pros amigos sobre a sua existência e todo mundo ficou doido. Era tudo muito novo, poucos dos nossos já eram pais e, se não me engano, da turma do seu pai, ele foi, sarcasticamente, o primeiro. Cheguei primeiro e o encontrei lá. Ele tinha um presente nas mãos _ seu primeiro presente! Era uma toalha de sapo, forrada de algodão, muito linda. Acho que achávamos que você seria um menino, não sei porquê. Mas isso foi só um palpite chutado pra bem fora do gol.
Combinamos que, se fosse menino, seu pai escolheria seu time de futebol. Se fosse menina, essa tarefa caberia a mim. Desde esse dia, eu já sentia que você era menina...
Pra falar a verdade, meu palpite sobre ser menina veio de um pensamento exclusivo: aqui se faz, aqui se paga. Eu sabia que minha mãe rezava bastante e provavelmente ela teve alguma parcela de influência na hora do Cara decidir quem ele iria mandar descer pra povoar o conjunto de células que crescia na minha barriga. Não que eu desse muito trabalho, mas também não dava pouco. Vamos ver como vai ser com você...
Anyway, deixa eu te contar como foi que disse a seu pai que ele seria papai.
Estávamos no carro, eu dirigindo, saindo da agência de viagens onde compraríamos nossas passagens para ir pro Canadá (nossa viagem já estava toda acertada, tínhamos gastado às tampas com o programa, o visto, etc e etc. Só faltavam as passagens.) e íamos em direção à casa dele.
No carro, destilei a notícia em uma série de perguntas:
Lucas, você me ama?
- Aham, ele respondeu
Mas, ama mesmo? Muito?
- Amo.
E você vai ter uma casa comigo no Canadá?
- Aham.
E nós vamos ter um cachorro no Canadá?
- Amm... quem sabe?
E vamos ter um filho também?
- Claro. Daqui a uns dois anos.
E vamos ter um filho em junho?
- ...
E o diálogo parou por aqui. Ele me olhava estupefato. Bêbado. Aterrorizado. Suspeito que ele não tenha entendido mais nada desde aquela hora até uns dois dias depois, quando toda a informação começou a fazer sentido e ser mais parte da nossa vida. Eu, por outro lado, achava que teria até junho para realmente me encontrar com você, olho a olho. Mas minhas contas estavam erradas. Você deveria vir no início de maio, como constatei depois, em seu primeiro ultrassom e em nossa consulta médica.
Mas, como você é minha filha mesmo, assim, sem tirar nem por, não aguentou esperar nem até lá: acabou chegando em abril mesmo...
domingo, 26 de setembro de 2010
Tentando entender os papéis
Dizem que quando um filho nasce, tudo muda.
Penso que essa afirmativa é especialmente verdadeira quando do advento do primeiro filho. Tudo muda. Tudo. E, em princípio, em todas as direções, para cima e para baixo, pior e melhor, num revezamento frenético que parece não ter fim.
Quando você nasceu, foi exatamente assim, frenético e louco. Mas, para entender a história antes da sua chegada para fora de mim, vou contar sob quais circunstâncias eu descobri que você já estava aqui dentro.
Seu pai e eu, antes, somente despreocupados namorados, estávamos prestes a devorar uma pizza como a primeira refeição dum domingo cuja noite anterior fora regada a farra e boteco. Não era costume rejeitar as saídas nos infindáveis botecos de Belo Horizonte, apesar de nós já estarmos cansados do circuito monotonizante dos mesmos bares: conhecíamos os garçons, suas vidas, suas famílias. Ora, tínhamos telefones do casal de garçons que trabalhava na Galeteria (que virou Tapas) e ficamos até bem tristes quando eles decidiram deixar o boteco para abrir um próprio deles.
Pois então, após a noitada de bar, acordamos bem tarde e, lá pelas 13:00h estávamos no BH Shopping esperando por uma pizza gigante de quatro queijos com calabresa.
(Nota: eu sou louca por pizza de quatro queijos)
Após a primeira fatia veio a asia. Me sentia mal, enjoada, enojada de comer aquela pizza. O Mister Pizza que não me leve a mal, mas nunca havia sentido tamanha indisposição tão de repente. Embrulhamos quase toda a refeição e voltamos para a minha casa. Achei que tinha bebido demais no sábado e prometi para mim mesma que iria me controlar. Pensei também que a culpa fosse da própria pizza, recheada de gordura de vários tipos de queijos, além da massa gordinha e do azeite em excesso. Tentei afastar a zica com um sal de frutas, outro, bicarbonato diluído, omeprazol, mas não teve jeito: a pizza me fez mal durante um mês inteiro. Até eu desconfiar que talvez não fosse bem a pizza...
O teste de gravidez de farmácia foi por minha conta e risco, às escondidas. Como já tinha experimentado desses antes (mais por imperícia nas contas do que por descuido), esperei a fitinha cor de rosa solitária que se instalaria no visor da resposta. Para minha surpresa, a fitinha tinha companhia e, como reza a bula do teste: duas fitinhas cor de rosa significava...gravidez!
Confirmei com um teste de laboratório, ainda às escondidas (a salvo pelo seu tio Guilherme que, até então, estava horrorizado demais para emitir opiniões a respeito do incerto). O resultado saiu no outro dia: grávida. Grávida? Grávida! Eu ria, gargalhava, histericamente. Sempre quis ser mãe. Sempre fui mãe de todas as minhas bonecas e, principalmente, toda a vida me imaginei avó. Quanta loucura! E agora o primeiro passo era... contar para o meu namorado que iria ser pai. E depois, para os meus pais. E para os pais dele. E... e... foi aí que caiu uma bigorna na minha cabeça: ser mãe acarretaria em efeitos colaterais para muita gente envolvida nessa história. Haveria um pai, quatro avós, três bisavós, vários tios e tias e uma parafernália de tios-avós de todas as partes da família (especialmente da minha, que é imensa).
Seu pai e eu, como já disse antes, éramos namorados. Não planejávamos nos casar ainda, ele é mais novo do que eu e não tínhamos um tostão furado no bolso, quiçá para sustentar uma criança. Eu tremia a cada pensamento. Por outro lado, estava tão eufórica e feliz quanto nunca fora: mamãe. Eu estava me tornando uma mamãe e essa ideia me elevava acima de qualquer nuvem de sustos e incertezas.
Penso que essa afirmativa é especialmente verdadeira quando do advento do primeiro filho. Tudo muda. Tudo. E, em princípio, em todas as direções, para cima e para baixo, pior e melhor, num revezamento frenético que parece não ter fim.
Quando você nasceu, foi exatamente assim, frenético e louco. Mas, para entender a história antes da sua chegada para fora de mim, vou contar sob quais circunstâncias eu descobri que você já estava aqui dentro.
Seu pai e eu, antes, somente despreocupados namorados, estávamos prestes a devorar uma pizza como a primeira refeição dum domingo cuja noite anterior fora regada a farra e boteco. Não era costume rejeitar as saídas nos infindáveis botecos de Belo Horizonte, apesar de nós já estarmos cansados do circuito monotonizante dos mesmos bares: conhecíamos os garçons, suas vidas, suas famílias. Ora, tínhamos telefones do casal de garçons que trabalhava na Galeteria (que virou Tapas) e ficamos até bem tristes quando eles decidiram deixar o boteco para abrir um próprio deles.
Pois então, após a noitada de bar, acordamos bem tarde e, lá pelas 13:00h estávamos no BH Shopping esperando por uma pizza gigante de quatro queijos com calabresa.
(Nota: eu sou louca por pizza de quatro queijos)
Após a primeira fatia veio a asia. Me sentia mal, enjoada, enojada de comer aquela pizza. O Mister Pizza que não me leve a mal, mas nunca havia sentido tamanha indisposição tão de repente. Embrulhamos quase toda a refeição e voltamos para a minha casa. Achei que tinha bebido demais no sábado e prometi para mim mesma que iria me controlar. Pensei também que a culpa fosse da própria pizza, recheada de gordura de vários tipos de queijos, além da massa gordinha e do azeite em excesso. Tentei afastar a zica com um sal de frutas, outro, bicarbonato diluído, omeprazol, mas não teve jeito: a pizza me fez mal durante um mês inteiro. Até eu desconfiar que talvez não fosse bem a pizza...
O teste de gravidez de farmácia foi por minha conta e risco, às escondidas. Como já tinha experimentado desses antes (mais por imperícia nas contas do que por descuido), esperei a fitinha cor de rosa solitária que se instalaria no visor da resposta. Para minha surpresa, a fitinha tinha companhia e, como reza a bula do teste: duas fitinhas cor de rosa significava...gravidez!
Confirmei com um teste de laboratório, ainda às escondidas (a salvo pelo seu tio Guilherme que, até então, estava horrorizado demais para emitir opiniões a respeito do incerto). O resultado saiu no outro dia: grávida. Grávida? Grávida! Eu ria, gargalhava, histericamente. Sempre quis ser mãe. Sempre fui mãe de todas as minhas bonecas e, principalmente, toda a vida me imaginei avó. Quanta loucura! E agora o primeiro passo era... contar para o meu namorado que iria ser pai. E depois, para os meus pais. E para os pais dele. E... e... foi aí que caiu uma bigorna na minha cabeça: ser mãe acarretaria em efeitos colaterais para muita gente envolvida nessa história. Haveria um pai, quatro avós, três bisavós, vários tios e tias e uma parafernália de tios-avós de todas as partes da família (especialmente da minha, que é imensa).
Seu pai e eu, como já disse antes, éramos namorados. Não planejávamos nos casar ainda, ele é mais novo do que eu e não tínhamos um tostão furado no bolso, quiçá para sustentar uma criança. Eu tremia a cada pensamento. Por outro lado, estava tão eufórica e feliz quanto nunca fora: mamãe. Eu estava me tornando uma mamãe e essa ideia me elevava acima de qualquer nuvem de sustos e incertezas.
Enfim sós
Um ano e meio depois, veio o estalo: você é realmente minha. Minha filha.
E foi uma conclusão aterradora.
E foi uma conclusão aterradora.
Assinar:
Postagens (Atom)