sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Estomatite

Filhota,

Essa já é a segunda estomatite. E você está bem irritada _ o que é compreensível, já que seu pediatra disse que viu aftas dando oi até o fundo da goela!
Você dorme enquanto escrevo, após uma noite de grunhidos de incômodo, mas já são oito e meia da manhã. Espero que hoje consiga comer alguma coisa, porque, desde ontem, você está comendo tão pouco que dá dó.
Amanhã temos outra Aula de Amor e você mal pode esperar para ir.

Explicando: aula de amor foi do que você chamou a evangelização infantil na UEC (União Espírita Cristã), quando fomos ao nosso primeiro encontro. Você ficou na sala das crianças e eu fiquei na sala dos adultos. Foi tão bacana e tão enriquecedor para mim! Tal a surpresa quando você relatou o quanto foi lindo também para você! Fiquei feliz que estamos nos encontrando espiritualmente e nossos corações, buscando conforto e sabedoria na fé e no infinito que não compreendemos.

Amo você! <3


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O futuro que não nos pertence

Meu amor,

ontem você chorou duramente. Foi um choro de dor. Um choro repleto da mais profunda angústia, fruto da maior certeza da vida: a morte.
Amaldiçoei ter lhe comprado O Menino Maluquinho em tão tenra idade (você queria tanto o tal livro, que não resisti), ao escutar, após o final do livro, sua pergunta certeira: "mãe, por que a gente não consegue segurar o tempo?". E o que eu responderia? Puxa, minha filha, eu mal saí das próprias fraldas e já tenho de lhe responder tamanha filosofia?
"Ah, Alice", tentei, "a gente não consegue segurar o tempo, porque ele não foi feito para ser segurado, meu bem. Ele precisa passar, pra gente crescer, pra gente mudar, pra gente se ver diferente e ver tudo diferente. Você, olhe bem, já está maior que ontem. E amanhã vai ser ainda maior. Um dia vai ser mocinha e vai ser diferente de hoje, não é mesmo? Por isso o tempo passa". E você continuou a filosofar: "É. Eu vou crescer. E ter um filho. E meu filho vai crescer. E eu vou ficar velhinha..." E foi então que você parou. Refletiu. Fez uma careta fatalista e completou: "Mas, mãe... E você? Você vai ficar velhinha também... Você vai morrer?".
Ah, quanto quisera dizer que não morreria jamais, que estaria sempre a seu lado, não importa o que viesse! Mas eu não podia, meu amor. Não podia lhe dizer que eu não morreria. E então, respondi que sim; que um dia eu morreria. E que eu viraria uma estrela e conversaria com você toda a noite, em seus sonhos, e que você me contaria do seu dia e eu lhe contaria do quanto é linda a via láctea vista lá mesmo de cima!
Você ficou calada. Aninhou-se em mim e chorou. Chorou tão tristemente que eu quis tomar-lhe aquela dor e injetar-lhe risadas de alegria... Mas as risadas de alegria não cabem na cabeça de quem sabe que sua mamãe um dia irá morrer. "Mas, mãe. Você não pode morrer. NÃO PODE!", e caiu em meus braços, aos prantos.
Nem toda a psicologia que estudara poderia me preparar para aquela cena. Então, contrariando tudo que há de certo na lei da vida, prometi-lhe uma mentira. Uma mentira que eu talvez nunca chegue a cumprir: "minha filha, ainda vai demorar muito tempo para a mamãe ficar velhinha e morrer... quem sabe mais uns cem anos? Cem é um número grande, não é? E demora muuuuito para chegar lá!". Você abriu um sorriso: "cem?" e ria-se da grandeza da idade que a mamãe teria um dia. Enxugamos suas lágrimas e você ficou tranquila novamente. Cem anos... é tempo suficiente, quem sabe, para ver os tataranetos. Ou mais.
Dormimos abraçadas, como fazemos todas as noites. O seu cheirinho me embala o sono e eu viajo em terras oníricas distantes, só para encontrá-la novamente, horas mais tarde, no mesmo travesseiro.

Agora ouça, meu bem, para encerrar essa história de morte: morrer, desencarnar, mudar de estado. A morte é só uma porta de passagem. É um processo que pode ser dolorido, porque há a falta para quem fica. Mas, por mais complicado que possa parecer, é essa a certeza que temos: tudo é passageiro. E precisamos dar espaço para que o novo venha e tome o lugar do que já perdeu a função. Então, apesar de ter prometido que viveria cem anos, quero lhe reprometer agora: mamãe morrerá, sim, um dia. Não sei que dia será esse, nem sequer se demorará uma hora, um decênio ou quanto for. Só sei que, quando esse dia chegar (e espero que chegue antes do seu, para seguir a ordem natural das coisas), pode ter certeza de que minha função terá sido cumprida com muito amor e muito zelo. Pode escrever em seu caderninho de memórias que eu vivi minha vida como uma mulher realizada e extremamente grata de ter tido você como minha filha: a coisa mais importante que já vi, vivi e toquei. Meu amor por você atravessa paredes, atravessa quilômetros, atravessa o tempo. Quando você toca, conscientemente, meu coração, Alice, eu sei que toco o infinito com a alma.
Boa noite, meu amor. E boa vida, sempre.
Amo você.
mamãe