sábado, 23 de abril de 2011

Desconstruindo mamãe

Você tem agora dois anos e eu já estou preparando o discurso para quando começarmos nossos embates mais feios (sim, porque todo filho tem embates com os pais, mesmo que, na revista, eles digam que são melhores amigos).
Pais e filhos podem ser amigos, é certo. Mas as mães tem a triste mania de confundir amizade com invasão dos limites da privacidade. E pode ser que eu faça isso, pela própria natureza de ser mãe.
Não estou querendo criar aqui uma desculpa adiantada para um eventual comportamento irracional ou bizarro de minha parte, no futuro; é só uma constatação que observo em muitas casas e vivo, eu mesma, na minha.
Sei que não devo futucar seus emails, nem ler seu diário. Entendo que é papel da mãe intervir no sentindo de saber com quem você está saindo e para onde vai, mas que não é da minha alçada te apertar na parede para saber o que você fez quando chegou lá. Penso que saberei discernir entre saber o nome do seu namorado e saber o que vocês fizeram entre a hora que ele buscou você aqui em casa e lhe devolveu, nos mínimos detalhes.
É claro que não desejo que você seja uma jovem libertina (acho que mãe alguma, em sã consciência, desejaria isso para a filha), mas isso não significa que não quero que aprenda a lidar com sua liberdade individual. Seu corpo é seu. As consequências com o que você faz com ele também o serão. Sua reputação é sua. As consequências com o que você faz com ela, idem.
O próximo parágrafo é piegas. Mas não é.
Ser mãe é um abismo: uma vez lá dentro, não existe possibilidade de retorno. A sua existência mudou minha vida para sempre; todas as escolhas, todos os caminhos; tudo fica suspenso após a descoberta de uma gravidez. Após o nascimento, então, nem se fala. E, penso, depois que os filhos crescem e atingem a adolescência, o evidenciamento desse abismo é real. Ele é desnudado, colocado em primeira página do jornal, o travesti sem roupa em cima da mesa do restaurante em pleno horário de almoço. E depois daquilo, nada será como antes.
A maioria dos filhos dito ingratos são construídos na adolescência. "Ele não me conta mais nada", chora uma mãe, "me esconde as coisas", revela outra. Mas a pior frase de todas (para um ouvido sensível e adolescente) é, provavelmente, "eu nunca sei onde estou pisando com você; você me faz pisar em ovos". Aqui a fragilidade da mãe romântica é colocada à prova. Sim, pois dizer que o filho lhe esconde as coisas é um fato tão antigo quanto a humanidade (que filho chega para os pais e diz que descobriu que a masturbação é a coisa mais bacana que ele já experimentou até então?). Agora, dizer que não sabe onde está pisando com o filho, que não compreende a personalidade do filho, é o mesmo que dizer "eu queria que você fosse do jeito que eu queria, mas já que você não é, eu não sei como agir com você". Puxa. Que tiro. Será que, um dia, falarei isso para você?
Espero que não. Em todo caso, guarde a carta. Pode ser que você precise dela mais tarde, quando eu tiver no lugar de matriarca e pense que, por ter conquistado a cadeira, eu possa falar e fazer tudo, sem ressalvas...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Bolo no palito

Hoje é seu aniversário de dois anos, mas você teima em dizer que é de um. Acho que quando finalmente conseguir dizer que tem dois (e fazer dedinhos acompanhando), vai ser no seu aniversário de três... :)
De manhã, tivemos sua primeira festinha na escolinha, com colegas cantando parabéns e tudo! Passei o dia inteiro de ontem fazendo bolinho e lembrancinhas para você distribuir para todos e valeu a pena: filmamos e tiramos fotos da cantoria e da bagunça que vocês fizeram. Tia Ilma levou até presente para você: uma bolsinha supercharmosa com badulaques de cabelo!

(Obs: a tia Ilma é a responsável por todas as suas tranças embutidas que embelezam seus fiozinhos dourados dia sim, dia não).

Engraçado como o desenvolvimento infantil traz junto das vantagens o desenvolvimento dos medos... você não quis dormir em sua cama (e isso já vem acontecendo há alguns dias), mas foi só eu coloca-la para deitar na minha, que seus olhos se fecharam em segundos e você entregou o corpo ao sono. Deu uma dó danada só de lembrar do tanto que eu tinha medo de escuro (ok, eu tenho até hoje) e do tanto que você ainda vai ter de atravessar até formar-se segura de si e desbravadora dos desconhecidos que rondam o mundo. Mas você consegue, eu sei. Vejo em sua pele o tanto que é forte e determinada. Sua levadeza nada tem de criança insegura ou medrosa; os medos naturais são aqueles que atravessam nosso caminho e, quando os desvendamos, varremos a sujeira para fora da pista.
Durma bem, meu amor, seu primeiro soninho de dois anos! E pensar que, a dois anos atrás, estávamos dormindo juntas sob a luzinha azul do tratamento da sua icterícia...