Seus ombros, brancos como a pérola
se escondiam sob a cabeleira escura
mais curta, mais bela
(dezesseis anos faz ela
e ensaia sair de casa)
a vida tomou novo rumo
depois do seis de abril
despedi-me de mim
e veio outra
maior, mais madura, no prumo
minha criança primeira
juntada de pó de estrela
e se eu soubesse o que sei agora
e se pudesse voltar naquele dia
em que você quis colo e eu tive pressa
ou que a praia pareceu curta demais
ou naquele outro, em que eu fiquei pouco
ou queimei o feijão
ou daquela vez que eu deixei seus pés tocarem o chão
e você voltou cada vez menos para o meu colo
e passou a não temer a solidão
(até que seus dedinhos pararam de caber na minha mão)
minha pequena companhia
éramos nós, eu e você
e tudo lá fora parecia tão grande e tão raro
e nossa ilusão era a de ninguém mais
te amo, ah, como te amo
e te amar demais me faz assim
querer viver você, pra não doer
o tanto que sua ausência dói em mim
te amo, ah, como te amo
e também me amo porque você me habita
e porque há você, há música
e porque há você, a vida é mais bonita
e porque há você, uma parte de mim despertou
quando essa outra parte morreu
e o meu mundo ficou maior que eu