Querida filha, aos doze anos.
Chegou o momento para o qual não me preparei: você me odeia.
A minha pequenina, doce, delicada menina, que por tantos anos dormiu aninhada no meu colo, que por milhares de vezes dançou balé em cima da minha cama depois que eu acabei de arrumá-la, hoje fecha a porta do quarto para dormir e, muitas vezes, não me deseja um “boa noite, mãe”.
Você tem seus próprios problemas, diz. Pediu para ir à terapia e tudo, como se já soubesse o valor de uma intervenção terapêutica. Você se irrita facilmente com as coisas e está completamente sem paciência para tudo aquilo que se pode chamar de tarefa. A escola lhe incomoda. Seu corpo lhe incomoda. Minha risada lhe incomoda. Seus parentes lhe incomodam. Meu companheiro, em especial, lhe incomoda profundamente e você faz de tudo para que ele se sinta mal recebido, mal quisto (“quem sabe assim, ele desiste e voltamos a ser nós duas?”).
O mundo deixou de ser apenas seu e essa rotação subentendida se mostrou apenas um dos movimentos existentes no universo compartilhado em que vivemos. Há tantas pessoas. Tantos amores. Tantas perdas. Existe tanto comprometimento necessário e tantas resignações e tanto luto e tanto esforço. Por trás das portas do nosso castelo encantado de ar e cumplicidade, há um terreno vasto, repleto, com pelo menos sete bilhões de outras pessoas a se dividir os jardins, a atmosfera, a temperatura, os planos, enfim.
Não estamos sós em nosso umbigo, meu amor. Não somos imperadoras do infinito; não da forma como você estava planejando. Não da forma como as crianças planejam (e, por vezes, são ensinadas erroneamente a crer).
Essa dor que você sente, essa de raiz incompreendida e difusa, essa sensação de que não há sentido e de que não há nada além dos muros do prazer imediato, eu também a sinto. Sentimos todos.
Nesse exato momento em que escrevo, quantas mulheres choram por amores perdidos, sem saber que estão chorando por sua necessidade de serem amadas por outras pessoas justamente porque não conseguem amar a si mesmas (não se vêem boas o suficiente, tampouco dignas de amor). Quantos homens estão desenvolvendo sintomas como queda de cabelo, ansiedade, pânico e impotência porque têm medo de não conseguir cumprir com o papel social duro que lhes é imposto; homens não choram, homens aguentam tudo, o mundo é masculino.
Quantos professores desgostosos de ensinar estão sentados atrás de suas mesas, nas escolas e universidades, sendo alvo de gozação dos alunos, sendo levados na brincadeira, sendo ridicularizados por crianças e adolescentes que não têm um quinto de seu conhecimento acadêmico. Quantos líderes religiosos acabaram de perder sua fé nesse Deus invisível que não impede as tragédias e que leva deles também seus entes queridos.
Quantas artistas de cinema, mesmo as que ganham um belo salário, se entopem de remédios e procedimentos estéticos porque estão próximas de completar mais um aniversário e, em breve, serão substituídas por outras mais novas, mais belas, mais frescas (a indústria da imagem é, de longe, a mais perversa, meu amor).
Tornar-se adulto é aprender a sentir a dor, sem que a dor nos paralise. Aprender a sentir o medo, sem que o medo nos paralise. Aprender a sentir o prazer, sem que o prazer seja a única possibilidade aceitável. Não é fácil, eu entendo. Não parece fácil. Mas ser mestre dos nossos sentimentos dá um alívio imenso. Traz uma sensação de que há controle, de que há além, de que conseguiremos atravessar a nado esse braço de mar que parece nos sugar para o fundo a todo momento. E essa sensação, apesar de libertadora, também se aproxima muito da solidão. Também aponta para um distanciamento da loucura do mundo, das histerias coletivas, das neuroses dos grupos e dos absurdos que escolhemos viver quando estamos em bandos.
Lembra uma coisa, querida: você é um milagre. É muito mais fácil não nascer que nascer e, mesmo assim, cá estamos. Você, eu. Tantos de nós. Assim como você foi feita, é perfeita. Seus dedos, seus cabelos, a curva da sua escápula, os desenhos que você faz, os roteiros que você escreve, seu apurado senso para cores, sua atração por assuntos aleatórios, sua melancolia, seu humor ácido. Há espaço para tudo dentro do infinito espaço que é você.
Seja. E cuide para não se perder em si. Cuide para que saiba voltar de cada caminho explorado, de cada imersão em si mesma. Eu, mesmo não sendo o que você esperava (as mães dificilmente são o que a gente espera na sua idade), estarei sempre à beira, pronta para lhe receber, lhe dar colo e ver-lhe sair novamente, desbravadora, bela, inteira, à procura de seus sentidos e justificativas.
Amo você.
