quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Maia, Max e seu investimento no ENEM

 Minha querida. vai dar certo.

Claro que eu não planejei ter outros dois filhos só para que você pudesse se empenhar em fazer uma faculdade longe de mim. 

Claro que eu queria você debaixo da minha asa para sempre, todos os dias, tardes e noites, para o resto da vida. Suponho que quase toda mãe quer isso. Suponho que seja um pavor comum ter de lidar com as idas dos filhos para lugares longínquos, perigosos ou potencialmente tão bons que os filhos não vão querer mais voltar.

Mas os filhos vão.

Eu fui. Meus irmãos foram. Meus pais foram. Tem sido a história da humanidade _ pelo menos nessas últimas centenas de anos. And yet, quando chega a nossa vez, parece que é um crime imenso e uma dor infindável...

Daqui a algumas semanas, o barulho da casa vai aumentar. Os cheiros vão mudar. Nós vamos mudar de lugar, de motivação, de rotina. Tudo vai ser diferente, mais uma vez. Com a chegada do Max, nós ainda não temos ideia de como vão ser os comportamentos da Maia... não sei se ela vai regredir, se vai ficar violenta, ciumenta, de boas ou indiferente. Vamos esperar para ver. 

Talvez eu fique ausente por uns meses, para você. A percepção da mãe que vai estar sempre exausta, acabada e vendo a vida sob uma névoa de negatividade pode vir a acontecer, sim, como aconteceu logo que a Maia nasceu.

Mas vai passar.

Vamos voltar às boas assim que ele aprender a dormir. Assim que eu voltar a dormir. 

Vamos ainda nos apoiar muito. Nos cuidar muito. E, prometo, vou trabalhar ao máximo para que meus cansaços não afetem imensamente nosso relacionamento e suas necessidades.

Amo você.

mamãe <3 


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Mãe, é por sua causa que eu preciso sair dessa casa!

 

A frase do título foi saída de uma dedução sua, por conta de uma observação minha. Eu, enquanto catava as roupas do varal, lhe dizia que você gastava roupas demais (você nunca repete uma roupa, Alice. Nem pijama. Assim fica difícil de não uma pilha de roupas pra lavar. Quero ver quando for morar sozinha.). 

E você ameaçou que ia, por minha causa. Por causa da minha chatice. Porque eu falo coisas como as que eu falei.

É. Eu falo.

Eu não sei que tipo de mãe não falaria coisas assim. Talvez as que têm um séquito de domésticas. Talvez as que lavam roupas na lavanderia. Talvez as que não se importam com o fato de os filhos se arvorarem para cima delas, como se fosse obrigação da mãe obedecer a todo tipo de mando e ordem vinda dos filhos. 

Eu amo você e você sabe disso. Eu amo ser sua mãe e amo fazer parte da sua vida. Ouvir umas frases assim faz parte, dirão todas as outras mães que vieram antes de mim; as sábias, as avós, as bisas velhas. Elas também ouviram isso e muito mais. Eu também ouvirei muito mais. 

É que a gente tem um bichinho chamado expectativa, que, de vez em quando, se irrita de ouvir. E queria que tudo saísse conforme o script dele. A expectativa queria que ninguém nos desafiasse. Que ninguém nos incomodasse. Que tudo que estivesse fora da gente contribuísse para manter a gente na bolha. Ah, que fantasia engraçada, ficar na bolha! Mas seria confortável...

É como imaginar que se está ganhando na loteria, pois bem. Só de imaginar, a gente já sonha com tudo aquilo que vai fazer com o dinheiro. A gente sabe que sonhar é ineficaz, que é até errado, porque nos empurra para a a  beiradinha de um abismo do qual a gente sabe que não tem muita chance de sair vivos. Mas a gente se deixa sonhar. A gente gosta da sensação do "e se". E a gente vai pra beira, voluntariamente. 

A gente espera que os filhos nos reconheçam. Que nos endeusem, quase. Que sejam gratos e que tenham apenas palavras de construção, carinho e calma. 

O abismo, quem o colocou ali, não foram os filhos. Não foi a gente. Ele simplesmente existe, como um lembrete. Como o bilhete premiado da loteria. Só um, em milhões. Não é saudável esperar. Não é razoável. 

Mas o paraíso da recompensa é tão idílico,  tão sedutor, que a gente se deixa escapulir para o outro lado. para o lado em que nossos filhos serão sempre amor e braços abertos, mesmo quando não têm de ser. Mesmo quando estamos erradas.

Ah, minha querida. É por minha causa que você precisa sair dessa casa. É porque eu te cobro. É porque eu faço comentários que não constroem ou te faço sentir culpada por ser você mesma. 

Eu espero que, ao sair, você se machuque apenas o suficiente para conseguir se curar sem sentir dores crônicas. Espero que tudo dê certo e que você viva os melhores anos da sua vida. Que você saiba organizar sua casa, suas roupas, sua comida e seu tempo.

A vida ensina tantas coisas que eu não posso ensinar, por não ter a competência!

Lembra de um detalhe: eu estarei aqui, pra ajudar de vez em quando. Pra te ouvir desabafar. Pra dar alguma dica de qualquer coisa, se eu souber. Pra lavar uma trouxa de roupas ou pregar um botão frouxo.

Como toda mãe, vou quase desejar que você precise de mim, mesmo sabendo que, pedagogicamente, eu deveria não desejar, nem demonstrar isso. 

Seja livre para ir. 

Seja livre para voltar. 

Seja tudo que quiser, sem pisar em ninguém e respeitando seus próprios limites. 

Você é tudo pra mim.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Uma semana para os dezesseis anos

Seus ombros, brancos como a pérola
se escondiam sob a cabeleira escura
mais curta, mais bela


(dezesseis anos faz ela

e ensaia sair de casa)


a vida tomou novo rumo

depois do seis de abril

despedi-me de mim

e veio outra

maior, mais madura, no prumo


minha criança primeira

juntada de pó de estrela

e se eu soubesse o que sei agora

e se pudesse voltar naquele dia

em que você quis colo e eu tive pressa

ou que a praia pareceu curta demais

ou naquele outro, em que eu fiquei pouco

ou queimei o feijão

ou daquela vez que eu deixei seus pés tocarem o chão

e você voltou cada vez menos para o meu colo

e passou a não temer a solidão

(até que seus dedinhos pararam de caber na minha mão)


minha pequena companhia


éramos nós, eu e você

e tudo lá fora parecia tão grande e tão raro

e nossa ilusão era a de ninguém mais


te amo, ah, como te amo

e te amar demais me faz assim

querer viver você, pra não doer

o tanto que sua ausência dói em mim


te amo, ah, como te amo

e também me amo porque você me habita

e porque há você, há música

e porque há você, a vida é mais bonita

e porque há você, uma parte de mim despertou

quando essa outra parte morreu

e o meu mundo ficou maior que eu


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Horizonte na faculdade

 Você diz que quer cursar Farmácia e bioquímica. E na UFMG ou na UFOP. 

Ah, meu bem. Você, minha pequenina, minha filhotinha, já escolhendo ir embora. Que dor. Que medo. Que sorte. 

Uma profusão de sentimentos me assola sempre que penso em seu futuro e nessas escolhas que te levam para longe de mim. Imagino se você vai ficar bem. Se vai sentir fome. Se o pão com queijo vai estar na geladeira no outro dia, caso você more com amigas que lhe surrupiarão as coisas da geladeira.

Imagino se vai estar frio de noite. Se seu nariz vai estar entupido. Se as roupas estarão bem lavadas, com cheirinho de sabão e amaciante, como você gosta. Se alguém vai lhe tratar com desdém. Se algum garoto vai tentar te enrolar. Se gente má vai te seguir para tentar adulterar sua bebida em alguma festa, calourada ou coisa e tal. Se você vai se lembrar de trancar a porta. Se vai se lembrar de entregar a tarefa. Se vai me contar quando estiver sentindo dor, tristeza, saudade. 

Imagino se não seria melhor você ficar do meu ladinho, para sempre, do meu ladinho. Fazendo faculdade aqui pertinho. Vendo o Murdoc envelhecer todos os dias. Vendo a Maia crescer. Deitando no meu colo para falar da vida. 

Será que é assim que toda mãe sente? Será que foi isso que a minha sentiu quando eu fui embora? Será que foi assim que a mãe dela sentiu quando ela foi embora? E a bisa, em relação à vovó? E a trisa, em relação à bisa? 

Será que ir embora é necessário e chorar em silêncio é o preço que a gente paga para ver uma filha se libertar do casulo-mãe? 

Amo você, meu bem. Amo você infinitamente. E as suas escolhas serão as minhas escolhas. Estou aqui. Estarei sempre. E se as montanhas de minas cantam para você do mesmo jeito que cantaram para mim, é porque elas sabem cantar... e a gente soube escutar... Libertas, minha amada filha, libertas quae sera tamem. 

terça-feira, 28 de maio de 2024

Amar e ser amado

 Minha querida, 

Existem muitas dores na vida. A dor de amar, não correspondida. A dor de não poder se ter aquilo que se quer.

Schopenhauer uma vez escreveu que "a vida é uma oscilação constante entre a ânsia do ter e o tédio do possuir". Vamos por aqui.

Você quer muitos algos. Seguranças, por assim dizer, em primeiro lugar: a financeira, a alimentar...ter um teto, um abrigo emocional para onde voltar. E daí, quer outras coisas maiores, não tão elementares, mas ainda extremamente mundanas: a afeição de um garoto, algumas roupas bacanas, creminhos e chocolates, uma casa bonita para chamar de sua, meios para viajar, uma internet boa, roupas limpas...

Todos queremos algumas coisas. Muitas coisas. Queremos, inclusive, não ter de lutar por essas coisas; mas tê-las de bandeja, de graça, sem juros e sem correção. Seria ótimo se assim sempre o fosse.

Quando o filósofo alemão deu de dizer que estamos pendulando entre desejo e tédio, eu bem entendi que vivemos no processo, no meio do caminho entre uma coisa e outra coisa. Somos esses seres que buscam, esses seres confusos que não sabem muito bem o que buscam, às vezes, mas que tem essa ânsia do buscar, como se fosse algo escrito em nosso DNA: "busca enquanto pode achar". Não importa o quê.

Pois é. 

Você é assim também, embora seus objetos de busca sejam diferentes dos meus. Diferentes dos outros. Cada um busca coisas distintas e talvez essa seja a beleza humana: a diversidade de coisas buscadas (coisas essas que criamos, de fato, para buscarmos e perdermos e rebuscarmos).

Uma dica eu lhe dou: busca. Busca sempre. Encontrará coisas ótimas em suas buscas. Saiba apreciá-las. Saiba que elas caberão em lugares especiais da sua vida. Jogue fora aquelas que estiverem virando entulho: ninguém precisa acumular mais do que o coração consegue organizar e não é vergonha descobrir que buscou coisas que não cabem mais lá. Faz parte do processo do amadurecimento, pode ter certeza.

Seja.

Seja tudo que quiser. Que puder. Que for.

Seja amor.

Você já é, para mim.

Amo você.


Mamãe

quarta-feira, 22 de maio de 2024

A saga da vida

 Você está lendo Kafka, meu amor. Aos quinze anos.

Mal posso acreditar (tanto na sua idade, quanto no fato de estar lendo Kafka), mas confesso: Carta ao Pai foi um dos textos mais difíceis de lidar, para mim, na época em que o li. Muitos pais se encaixam ali. Inclusive o meu. Enfim.

A vida pode não parecer prazerosa, às vezes. Pode até não parecer justa ou fácil. E não é. Nem justa, nem fácil, nem prazerosa todo o tempo. Somos nós, querida, que a fazemos prazerosa, quando temos disposição para tal. Nós que lutamos por justiça e interpretamos essa palavra tão abstrata nuns formatos que decidimos que ela pode ter.

Não existe justiça inata. Não existe facilidade inata. Na vida, somos os únicos animais que sabem que estão trabalhando, mas somos só mais um dos animais que trabalham. Escreva isso para nunca esquecer.

Você vai ter dias ruins, sim. Talvez, muito choro. Muita revolta. Coração partido. Coração remendado. Coração arrebentado de novo. Paciência. O coração é um órgão de muitas facetas e resiliência ímpar. Acredite.

Muita gente vai tentar te fazer comprar discursos. De esquerda, de direita, de minorias, de privilégios. Enfim. Da mesma maneira que não há imparcialidade no mundo, não há Estado sem corrupção ainda e, portanto, cuidado na hora de escolher as coisas que você defende: as ideias podem ser boas, mas as pessoas geralmente têm seus caminhos tortos e ética duvidosa.

Você não precisa escolher isso ou aquilo, se isso e aquilo não lhe apetecem. Muita gente vai tentar te confundir com "dilemas de bonde" para testar sua moral. Saiba quando estiver sendo forçada a escolher coercitivamente e pule fora. Você só precisa escolher depois de ter todas as informações necessárias e possíveis para a escolha. E também, só depois que quiser. 

Lembre-se, contudo: não escolher nada também é uma escolha e, às vezes, a gente acaba pecando por omissão. Cuide daquilo que faz sentido na sua vida e empregue ali sua energia. Para as outras coisas, aprenda a jogar fora o que não te serve, o que te apavora, te incomoda ou te atrasa.

Você deve ser livre para moldar seu amanhã de acordo com o jeito como você vive seu hoje.

Vai chegar um momento em que você vai olhar para trás e pensar "puxa, eu até que era bem bonita na minha juventude". Sim. Você é. Não compita consigo mesma no passado, nem com mulher nenhuma no presente. Seja o que é, aprenda a respirar profundamente e a gozar da vida que tem, das amizades que cultivou, das coisas que conquistou e dos caminhos que abriu com seus próprios passos. Não há nada mais que isso para passar seu tempo, depois de uma certa idade (eu ainda não cheguei lá).

Seja feliz. Mas saiba que felicidade não significa ter tudo que você quer na hora que você quer. Felicidade é um olhar carinhoso e grato para o mundo, para sua história e para si mesma. A gratidão é a melhor expressão da felicidade. 

Saiba, por último, que estou aqui para você. Estarei sempre e para sempre. 

Você é meu primeiro amor. Meu legado. Minha vida. 

Amo você.

mamãe

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Ensino Médio, aprendizado máximo

Alice, minha filha tão amada,

Você me mandou fotos da sala de aula hoje. Miguel, Japa, Lucas e Batata já fazem parte das minhas manhãs e eu me divirto com o tanto que a amizade de vocês é leve e ajuda o tempo na escola a passar sem que vocês pirem nas contas, nos  cálculos de fuso horário ou nas funções afins.

É um prazer imenso ver você crescer.

Às vezes, quando estamos em casa, eu fico tentando imaginar como anda sua cabeça, para onde viajam seus pensamentos... se você está triste ou feliz... se poderia estar melhor caso eu fizesse algo diferente.

Eu sinto saudades de quando éramos nós duas na frente da televisão, assistindo RuPaul ou Nailed It, rindo das besteiras dos estadunidenses bobos e passando o tempo assim, uma com a outra. Acho que podemos fazer isso mais vezes. Vou montar o quarto de televisão novamente, pra gente poder voltar a ter nosso tempo de fazer nada, com toda a qualidade que só a sua presença ao meu lado pode proporcionar.

Ontem você almoçou do lado de três crianças e resistiu bravamente à mesa. Parabéns. Eu sei o quanto você queria dar uns petelecos nos pequenos e curtir o som do silêncio no seu canto, sem incômodos externos: vez ou outra precisamos abrir mão de alguma coisa pelo bem de outra coisa e ontem fizemos o bem pra Maia levando a coleguinha dela pra passar o dia conosco. Eu queria trazer as suas colegas também, como a gente fazia antigamente, mas você ainda não me deu esse aval e tudo que eu posso fazer é esperar um dia você ter essa vontade.

E eu espero. 

Acho que ia ser divertido em demasia (estou falando em demasia em sua homenagem) se você convidasse uns colegas lá pro Ulé, num fim de semana, pra gente fazer um luau ao pôr do Sol! As mães poderiam ficar no restaurante  do Jahjah enquanto vocês se divertiam na praia...e depois todo mundo ia embora pra sua própria casa e fim. Pelo menos as fotos ficariam iradíssimas. 

Agora, enquanto espero a hora de buscar você na escola, estou vendo umas fotos de você e Maia na praia e com vontade de comprar umas tintas pra gente pintar o quarto da tevê e começar logo a deixar aquele quarto com cara de quarto de tevê mesmo, em vez de ter cara de depósito de brinquedos e pernilongos.

Me ajuda?

Amo você.


mamãe