Minha querida pequena,
Ontem estive extremamente
frustrada com alguns de seus atos e por isso escrevi essa carta. Gostaria que,
quando grande, pudesse ler essas linhas e perceber que, além de amar sem
medidas, ser mãe também significa cansaço e resignação.
Você tem tido comportamentos
dignos da realeza. Manda e desmanda, briga e emburra como uma princesinha
nervosa. Nesses últimos dias sua petulância extrema me fez ter vontade de
chorar. Até nas coisas mais bobas você tem feito questão de causar rebuliço: se
eu demoro a lhe entregar um copo de água, se eu lhe pergunto sobre a tarefa de
casa, se eu escolho um par de meias em vez de outro.
Lembro vagamente de quando minha
mãe dizia que a vida se encarregaria de me ensinar certas coisas e nunca senti
tanta vontade de lhe profetizar o mesmo. Tentei elencar justificativas para seu
modo de agir e acabei com uma folha apinhada de possíveis coisas que estejam
acionando seu lado elizabethico*. Após ler e reler cada um deles (não mentiria,
também investiguei com outras pessoas, para ver se minha lista fazia sentido),
percebi, contudo, uma coisa importante que me tinha passado batido até aquele
momento e foi ali que a realidade me atingiu como uma flecha que atravessa o
alvo. Havia um erro epistêmico em minha lista, que se repetia a cada item e que
eu não dera a devida importância até então. E o erro era a resposta.
Lia-se assim:
“Motivos para que Alice esteja
apresentando tantos comportamentos de revolta:
- Eu estou passando pouco tempo com ela;
- Eu estou tentando fazer com que ela durma em sua cama, em vez de dormir na minha;
- Eu estou lhe obrigando a tomar suco de laranja todas as manhãs;
- Eu tenho um namorado e isso a ameaça;
- Eu tenho sido muito rígida com ela quando faz bagunça ou grita;
- Eu devo estar entendendo errado alguns de seus sinais.”
Eu, eu, eu, eu. Sem notar, já
estava lhe transferindo a dívida do egoísmo, desde tenra idade, quando deveria
me concentrar melhor em observar suas respostas e ver como você está montando
seu próprio repertório de comportamentos e saídas para as adversidades que lhe
acompanharão vida afora.
Ora, se estou passando pouco
tempo com você, paciência: o tempo que temos juntas é o tempo que temos juntas.
O resto é tempo de trabalho _ uma necessidade não-negociável em nosso atual
momento de vida. Se estou fazendo com que durma em sua cama, é porque isso é
necessário para o seu desenvolvimento e para nossa individualidade.
Quanto ao suco de laranja,
querida, isso só lhe trará benefícios a longo prazo _ pena que você não pode
ver isso agora!
Em relação ao namorado, sei que,
em algum tempo, compreenderá perfeitamente a necessidade de se ter por perto
alguém que lhe queira bem e a quem você quererá bem também. O afeto é um
sentimento leve, delicado e que deve ser cultivado e incentivado, sempre que
nos sentirmos preparadas para ele. Compreenderá também que o lugar que você
ocupa em meu coração e em minha vida é tão diferente de qualquer outro posto
ocupado por qualquer outra pessoa, que não há perigo algum de perder minha
dedicação, nem minha vigília inexorável.
Se eu tenho sido muito rígida com
seus comportamentos de gritar ou bagunçar, meu bem, isso é facilmente
compreensível: ou você acha que é fácil domar um filhote barulhento, ao mesmo
tempo em que se tenta ensinar autocrítica e liberdade a esse mesmo filhote?
Em última instância, pode ser que
eu não tenha o domínio sobre a interpretação de todos os seus sinais, mas, em
sã consciência, que mãe o tem?
Entre trancos e barrancos, nós,
mães, aprendemos todos os dias a lidar com situações que nos desafiam e nos
tiram de nosso equilíbrio tão frágil. Entre trancos e barrancos, acampamos no
quarto dos filhos, na esperança de que, uma noite, eles dormirão sem precisar
de nossa presença. Fazemos refeições balanceadas e vemos metade do prato desperdiçado,
porque vocês têm nojo de experimentar um simples tomate ou um pedaço de
couve-flor (ah, se você soubesse quantas crianças passam fome!). Dormimos
extremamente tarde, porque, após o início do seu sono, ainda temos de esfregar
a camisa do uniforme que será usado amanhã. Declinamos convites para festas
noturnas que não comportam crianças. Paramos de tomar aquele único drink que
curtíamos tanto, porque precisamos estar sempre a postos e à disposição de
vocês. Convertemos o dinheiro que usaríamos para comprar aquela bolsa em uma
boneca cara, aparentemente boba, e que será deixada de lado após uma semana de
uso (quando muito). Entre trancos e barrancos, nós, mães, trabalhamos, estudamos,
fazemos almoço, passamos pano no chão e ainda arrumamos tempo de fazer colagens
com as filhas no chão da sala (sujando de cola e purpurina o lugar que acabamos
de limpar). E temos muita sorte quando arrumamos um namorado que compreenda
nossa luta e que, mesmo assim, escolha permanecer nessa rotina tão previsível
(inclusive curtindo participar dela), sabendo que também as noites dele serão
readequadas para ambientes com balões coloridos e músicas do Palavra Cantada.
Dito tudo isso, querida,
reafirmo: seus comportamentos desses últimos tempos foram mesmo frustrantes e
potencialmente destrutivos. Mas é assim que você está ensaiando sua própria
forma de reagir ao que está em seu redor nesta vida. Nada pessoal contra a
mamãe (já percebi): essa é você, dando as primeiras mostras de que a
possibilidade de ser uma adulta voluntariosa se descortina a olhos vistos. Faço
votos de que consiga tirar o melhor desse traço de personalidade. E pode ter
certeza: conte comigo para continuar treinando, porque você ainda vai tomar
muito suco de laranja até crescer...
Amo você.