Filhota,
Essa já é a segunda estomatite. E você está bem irritada _ o que é compreensível, já que seu pediatra disse que viu aftas dando oi até o fundo da goela!
Você dorme enquanto escrevo, após uma noite de grunhidos de incômodo, mas já são oito e meia da manhã. Espero que hoje consiga comer alguma coisa, porque, desde ontem, você está comendo tão pouco que dá dó.
Amanhã temos outra Aula de Amor e você mal pode esperar para ir.
Explicando: aula de amor foi do que você chamou a evangelização infantil na UEC (União Espírita Cristã), quando fomos ao nosso primeiro encontro. Você ficou na sala das crianças e eu fiquei na sala dos adultos. Foi tão bacana e tão enriquecedor para mim! Tal a surpresa quando você relatou o quanto foi lindo também para você! Fiquei feliz que estamos nos encontrando espiritualmente e nossos corações, buscando conforto e sabedoria na fé e no infinito que não compreendemos.
Amo você! <3
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
O futuro que não nos pertence
Meu amor,
ontem você chorou duramente. Foi um choro de dor. Um choro repleto da mais profunda angústia, fruto da maior certeza da vida: a morte.
Amaldiçoei ter lhe comprado O Menino Maluquinho em tão tenra idade (você queria tanto o tal livro, que não resisti), ao escutar, após o final do livro, sua pergunta certeira: "mãe, por que a gente não consegue segurar o tempo?". E o que eu responderia? Puxa, minha filha, eu mal saí das próprias fraldas e já tenho de lhe responder tamanha filosofia?
"Ah, Alice", tentei, "a gente não consegue segurar o tempo, porque ele não foi feito para ser segurado, meu bem. Ele precisa passar, pra gente crescer, pra gente mudar, pra gente se ver diferente e ver tudo diferente. Você, olhe bem, já está maior que ontem. E amanhã vai ser ainda maior. Um dia vai ser mocinha e vai ser diferente de hoje, não é mesmo? Por isso o tempo passa". E você continuou a filosofar: "É. Eu vou crescer. E ter um filho. E meu filho vai crescer. E eu vou ficar velhinha..." E foi então que você parou. Refletiu. Fez uma careta fatalista e completou: "Mas, mãe... E você? Você vai ficar velhinha também... Você vai morrer?".
Ah, quanto quisera dizer que não morreria jamais, que estaria sempre a seu lado, não importa o que viesse! Mas eu não podia, meu amor. Não podia lhe dizer que eu não morreria. E então, respondi que sim; que um dia eu morreria. E que eu viraria uma estrela e conversaria com você toda a noite, em seus sonhos, e que você me contaria do seu dia e eu lhe contaria do quanto é linda a via láctea vista lá mesmo de cima!
Você ficou calada. Aninhou-se em mim e chorou. Chorou tão tristemente que eu quis tomar-lhe aquela dor e injetar-lhe risadas de alegria... Mas as risadas de alegria não cabem na cabeça de quem sabe que sua mamãe um dia irá morrer. "Mas, mãe. Você não pode morrer. NÃO PODE!", e caiu em meus braços, aos prantos.
Nem toda a psicologia que estudara poderia me preparar para aquela cena. Então, contrariando tudo que há de certo na lei da vida, prometi-lhe uma mentira. Uma mentira que eu talvez nunca chegue a cumprir: "minha filha, ainda vai demorar muito tempo para a mamãe ficar velhinha e morrer... quem sabe mais uns cem anos? Cem é um número grande, não é? E demora muuuuito para chegar lá!". Você abriu um sorriso: "cem?" e ria-se da grandeza da idade que a mamãe teria um dia. Enxugamos suas lágrimas e você ficou tranquila novamente. Cem anos... é tempo suficiente, quem sabe, para ver os tataranetos. Ou mais.
Dormimos abraçadas, como fazemos todas as noites. O seu cheirinho me embala o sono e eu viajo em terras oníricas distantes, só para encontrá-la novamente, horas mais tarde, no mesmo travesseiro.
Agora ouça, meu bem, para encerrar essa história de morte: morrer, desencarnar, mudar de estado. A morte é só uma porta de passagem. É um processo que pode ser dolorido, porque há a falta para quem fica. Mas, por mais complicado que possa parecer, é essa a certeza que temos: tudo é passageiro. E precisamos dar espaço para que o novo venha e tome o lugar do que já perdeu a função. Então, apesar de ter prometido que viveria cem anos, quero lhe reprometer agora: mamãe morrerá, sim, um dia. Não sei que dia será esse, nem sequer se demorará uma hora, um decênio ou quanto for. Só sei que, quando esse dia chegar (e espero que chegue antes do seu, para seguir a ordem natural das coisas), pode ter certeza de que minha função terá sido cumprida com muito amor e muito zelo. Pode escrever em seu caderninho de memórias que eu vivi minha vida como uma mulher realizada e extremamente grata de ter tido você como minha filha: a coisa mais importante que já vi, vivi e toquei. Meu amor por você atravessa paredes, atravessa quilômetros, atravessa o tempo. Quando você toca, conscientemente, meu coração, Alice, eu sei que toco o infinito com a alma.
Boa noite, meu amor. E boa vida, sempre.
Amo você.
mamãe
ontem você chorou duramente. Foi um choro de dor. Um choro repleto da mais profunda angústia, fruto da maior certeza da vida: a morte.
Amaldiçoei ter lhe comprado O Menino Maluquinho em tão tenra idade (você queria tanto o tal livro, que não resisti), ao escutar, após o final do livro, sua pergunta certeira: "mãe, por que a gente não consegue segurar o tempo?". E o que eu responderia? Puxa, minha filha, eu mal saí das próprias fraldas e já tenho de lhe responder tamanha filosofia?
"Ah, Alice", tentei, "a gente não consegue segurar o tempo, porque ele não foi feito para ser segurado, meu bem. Ele precisa passar, pra gente crescer, pra gente mudar, pra gente se ver diferente e ver tudo diferente. Você, olhe bem, já está maior que ontem. E amanhã vai ser ainda maior. Um dia vai ser mocinha e vai ser diferente de hoje, não é mesmo? Por isso o tempo passa". E você continuou a filosofar: "É. Eu vou crescer. E ter um filho. E meu filho vai crescer. E eu vou ficar velhinha..." E foi então que você parou. Refletiu. Fez uma careta fatalista e completou: "Mas, mãe... E você? Você vai ficar velhinha também... Você vai morrer?".
Ah, quanto quisera dizer que não morreria jamais, que estaria sempre a seu lado, não importa o que viesse! Mas eu não podia, meu amor. Não podia lhe dizer que eu não morreria. E então, respondi que sim; que um dia eu morreria. E que eu viraria uma estrela e conversaria com você toda a noite, em seus sonhos, e que você me contaria do seu dia e eu lhe contaria do quanto é linda a via láctea vista lá mesmo de cima!
Você ficou calada. Aninhou-se em mim e chorou. Chorou tão tristemente que eu quis tomar-lhe aquela dor e injetar-lhe risadas de alegria... Mas as risadas de alegria não cabem na cabeça de quem sabe que sua mamãe um dia irá morrer. "Mas, mãe. Você não pode morrer. NÃO PODE!", e caiu em meus braços, aos prantos.
Nem toda a psicologia que estudara poderia me preparar para aquela cena. Então, contrariando tudo que há de certo na lei da vida, prometi-lhe uma mentira. Uma mentira que eu talvez nunca chegue a cumprir: "minha filha, ainda vai demorar muito tempo para a mamãe ficar velhinha e morrer... quem sabe mais uns cem anos? Cem é um número grande, não é? E demora muuuuito para chegar lá!". Você abriu um sorriso: "cem?" e ria-se da grandeza da idade que a mamãe teria um dia. Enxugamos suas lágrimas e você ficou tranquila novamente. Cem anos... é tempo suficiente, quem sabe, para ver os tataranetos. Ou mais.
Dormimos abraçadas, como fazemos todas as noites. O seu cheirinho me embala o sono e eu viajo em terras oníricas distantes, só para encontrá-la novamente, horas mais tarde, no mesmo travesseiro.
Agora ouça, meu bem, para encerrar essa história de morte: morrer, desencarnar, mudar de estado. A morte é só uma porta de passagem. É um processo que pode ser dolorido, porque há a falta para quem fica. Mas, por mais complicado que possa parecer, é essa a certeza que temos: tudo é passageiro. E precisamos dar espaço para que o novo venha e tome o lugar do que já perdeu a função. Então, apesar de ter prometido que viveria cem anos, quero lhe reprometer agora: mamãe morrerá, sim, um dia. Não sei que dia será esse, nem sequer se demorará uma hora, um decênio ou quanto for. Só sei que, quando esse dia chegar (e espero que chegue antes do seu, para seguir a ordem natural das coisas), pode ter certeza de que minha função terá sido cumprida com muito amor e muito zelo. Pode escrever em seu caderninho de memórias que eu vivi minha vida como uma mulher realizada e extremamente grata de ter tido você como minha filha: a coisa mais importante que já vi, vivi e toquei. Meu amor por você atravessa paredes, atravessa quilômetros, atravessa o tempo. Quando você toca, conscientemente, meu coração, Alice, eu sei que toco o infinito com a alma.
Boa noite, meu amor. E boa vida, sempre.
Amo você.
mamãe
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Uma compilação (zinha) de alicismos
Meu amor... tenho certeza de que nossas almas já eram juntas antes de lhe reconhecer nesta encarnação. O que sinto por você vai tão além da razão, tão além das palavras! Eu transbordo você... e isso me faz muito feliz... muito, muito feliz...
sábado, 11 de maio de 2013
Véspera de dia das mães
Neste dia das mães meu presente se chama Alice. É um presente que não escolhi a dedo, mas que escolheu-me a dedo, enquanto me observava lá de cima. Posso até imaginar a cena, à la Pássaro Azul, com os bebês anjinhos morando nas nuvens e esperando a nave que os traria à Terra. Para ser fiel ao relato dela (e guarda que contou-me a história já diversas vezes), divulgo o que Alice explicou: "eu escolhi você, mãe, quando eu era anjo lá no céu. E quando eu morrer, é para lá que eu vou voltar. E você também".
Alice me fez crer em Deus. Me fez redefinir os sentimentos que brotam do meu coração e do meu desejo. Me ajudou a compreender que cada ação precisa ter um sentido e que cada escolha deve ser transparente. Se faço um curso no final de semana, é por ela que faço _ não para cobrar-lhe que cresça e se especialize como eu fiz, mas para ser interessante e competente o suficiente para prover-lhe das coisas que precisa. Se compro um sabão em pó especial, é para alegrar nossos abraços mais cheirosos. Se abandono um plano que não inclui sua presença é porque ele era absolutamente desnecessário.
Querida filha, obrigada pelo presente que é você. Pelas cartinhas, pelos desenhos, pelos beijinhos. Obrigada por aprender tanto e por mostrar tanta delicadeza em seu caminho. Nada mais me falta, desde que você chegou. <3
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Festa de Aniversário!
Parabéns, meu amor, pelos seus quatro anos! Não me canso de expressar o óbvio, que é o amor enorme que sinto por você e o interminável orgulho que tenho em ser sua mãe (isso já está ficando piegas, não é mesmo?).
Então... quatro anos... e eu queria fazer uma cartinha diferente hoje. Uma cartinha de mãe... para mãe. Posso?
É claro que seu aniversário é uma data só sua. Ora, eu não teria a pretensão de lhe ofuscar o brilho. Em justificativa, tento expandir um pouco o horizonte dos aniversários, como definiu uma campanha publicitária há um tempo atrás: quando nasce uma criança, nasce uma mãe. E eu, meu bem, nasci há quatro anos, tanto quanto você. Essa afirmativa me assusta, tanto quanto me alegra; nunca pensei que seria possível mudar tanto assim...
Há quatro anos eu não pensava em perder noites de sono com uma criança doente a meu lado. Não pensava que teria de sacrificar o meu imediatismo para ficar à mercê do imediatismo de outra pessoa. De maneira alguma imaginei que teria de fazer tantas dublagens de personagens diferentes (às vezes em público) para ver feliz uma pessoinha pequena, que praticamente dita meus passos em quase tudo que faço. Quanta ironia!
Há quatro anos eu não precisava defender ideias de educação infantil com tanta veemência, ou mesmo separar o lanche da escola pensando na equação "mais fruta, menos farinha branca". Tampouco precisava abrir mão do salto alto ou do horário de voltar para casa, de beber refrigerante no bico da garrafa, de tomar banhos longos, de ver filmes violentos na tevê, de tomar um goró eventual, de deixar a sala arrumadíssima, sem uma almofada fora do lugar. Há quatro anos, eu era uma mulher jovem, com muitos planos e poucos projetos; com muito tempo para pensar à frente e nada que me forçasse a exercitar esse pensamento. Hoje, contudo, quanta diferença...
Ainda bem que você surgiu para dar apontar o rumo da minha vida... <3
Então... quatro anos... e eu queria fazer uma cartinha diferente hoje. Uma cartinha de mãe... para mãe. Posso?
É claro que seu aniversário é uma data só sua. Ora, eu não teria a pretensão de lhe ofuscar o brilho. Em justificativa, tento expandir um pouco o horizonte dos aniversários, como definiu uma campanha publicitária há um tempo atrás: quando nasce uma criança, nasce uma mãe. E eu, meu bem, nasci há quatro anos, tanto quanto você. Essa afirmativa me assusta, tanto quanto me alegra; nunca pensei que seria possível mudar tanto assim...
Há quatro anos eu não pensava em perder noites de sono com uma criança doente a meu lado. Não pensava que teria de sacrificar o meu imediatismo para ficar à mercê do imediatismo de outra pessoa. De maneira alguma imaginei que teria de fazer tantas dublagens de personagens diferentes (às vezes em público) para ver feliz uma pessoinha pequena, que praticamente dita meus passos em quase tudo que faço. Quanta ironia!
Há quatro anos eu não precisava defender ideias de educação infantil com tanta veemência, ou mesmo separar o lanche da escola pensando na equação "mais fruta, menos farinha branca". Tampouco precisava abrir mão do salto alto ou do horário de voltar para casa, de beber refrigerante no bico da garrafa, de tomar banhos longos, de ver filmes violentos na tevê, de tomar um goró eventual, de deixar a sala arrumadíssima, sem uma almofada fora do lugar. Há quatro anos, eu era uma mulher jovem, com muitos planos e poucos projetos; com muito tempo para pensar à frente e nada que me forçasse a exercitar esse pensamento. Hoje, contudo, quanta diferença...
Ainda bem que você surgiu para dar apontar o rumo da minha vida... <3
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Postagem pré-aniversário
Minha querida.
Ainda não são seis da manhã e já estou perdida em pensamentos sobre você. A meu lado na cama, seu corpo pequeno se aninha delicadamente. Você está crescendo. Seus dedos do pé já tocam minhas canelas quando dormimos juntas e percebo você tentando "roubar" meu travesseiro, para garantir sua testa encostada na minha.
É uma honra ser sua mãe...
Seu aniversário de quatro anos está se aproximando. Faltam apenas quatro dias para assoprar suas velinhas. Quatro anos! Puxa, como a vida da gente passa rápido! Há quatro anos, lembro-me bem, minha única preocupação era a de que tivéssemos pão de queijo o suficiente para todos os convidados do chá de bebê. Quer saber? Creio que esta continua sendo a minha única preocupação, quatro anos depois...
Quero que haja pão de queijo o suficiente para todos os seus convidados. E para os papais e mamães deles. Quero que haja balões em número suficiente para você brincar satisfeita. Quero água gelada no copo limpinho, porque água é a única bebida que você toma (à parte do leite puro). É só isso que quero e que me importa agora, porque, tirando essas coisas pequenas, não tenho mesmo razão para me preocupar: você desanuvia todas as minhas preocupações, rotineira e sistematicamente.
Enquanto converso com as outras mães, percebo o quanto você é especial. A mãe do Diego, por exemplo, telefonou para contar sua resposta ao filho dela, quando perguntada sobre o que queria ganhar de aniversário. "Não precisa me dar presente, Diego. É só você ir na minha festa que já tá bom", foi o que você disse. Antes dos quatro anos! Eu mal pude acreditar... Fosse essa uma história contada por mim aos outros, não acreditariam também. Mas foi ela quem disse. E foi ele quem relatou. Todos são testemunhas da sua delicadeza e peculiaridade; não só eu: os seus atos são compartilhados pelo boca a boca coletivo!
Há alguns dias, você me disse que, antes de nascer, era um anjinho no céu e que me escolhera para me ajudar (para me ajudar!). Disse ainda que, quando morresse, voltaria para o céu. Voltaríamos. Quer saber? Eu acreditei. Ainda acredito. Só espero que isso demore um tempo inimaginavelmente longo... E que eu já possa estar lhe esperando lá, quando tiver de acontecer... Amo você.
Mamãe
Ainda não são seis da manhã e já estou perdida em pensamentos sobre você. A meu lado na cama, seu corpo pequeno se aninha delicadamente. Você está crescendo. Seus dedos do pé já tocam minhas canelas quando dormimos juntas e percebo você tentando "roubar" meu travesseiro, para garantir sua testa encostada na minha.
É uma honra ser sua mãe...
Seu aniversário de quatro anos está se aproximando. Faltam apenas quatro dias para assoprar suas velinhas. Quatro anos! Puxa, como a vida da gente passa rápido! Há quatro anos, lembro-me bem, minha única preocupação era a de que tivéssemos pão de queijo o suficiente para todos os convidados do chá de bebê. Quer saber? Creio que esta continua sendo a minha única preocupação, quatro anos depois...
Quero que haja pão de queijo o suficiente para todos os seus convidados. E para os papais e mamães deles. Quero que haja balões em número suficiente para você brincar satisfeita. Quero água gelada no copo limpinho, porque água é a única bebida que você toma (à parte do leite puro). É só isso que quero e que me importa agora, porque, tirando essas coisas pequenas, não tenho mesmo razão para me preocupar: você desanuvia todas as minhas preocupações, rotineira e sistematicamente.
Enquanto converso com as outras mães, percebo o quanto você é especial. A mãe do Diego, por exemplo, telefonou para contar sua resposta ao filho dela, quando perguntada sobre o que queria ganhar de aniversário. "Não precisa me dar presente, Diego. É só você ir na minha festa que já tá bom", foi o que você disse. Antes dos quatro anos! Eu mal pude acreditar... Fosse essa uma história contada por mim aos outros, não acreditariam também. Mas foi ela quem disse. E foi ele quem relatou. Todos são testemunhas da sua delicadeza e peculiaridade; não só eu: os seus atos são compartilhados pelo boca a boca coletivo!
Há alguns dias, você me disse que, antes de nascer, era um anjinho no céu e que me escolhera para me ajudar (para me ajudar!). Disse ainda que, quando morresse, voltaria para o céu. Voltaríamos. Quer saber? Eu acreditei. Ainda acredito. Só espero que isso demore um tempo inimaginavelmente longo... E que eu já possa estar lhe esperando lá, quando tiver de acontecer... Amo você.
Mamãe
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Alice à água
Estávamos na piscina da casa que o vovô comprou no Parque. Você, de boias nos braços, agarrada no meu pescoço inexoravelmente, nem pensava em aprender a nadar.
Confesso que meu movimento foi instintivo e, ademais, você já tem idade para saber nadar (e o saberia se eu a tivesse colocado numa aula de natação): não resisti. Levei você para o meio da piscina, instruí para que tivesse calma e que confiasse em mim, pois eu estava ali a seu lado, pronta para segurar você. Soltei. Em milissegundos, vi o desespero em seus olhos, enquanto debatia-se, batendo os braços. Permaneci firme, à sua frente, sem tocar-lhe, sorrindo e afirmando "você conseguiu, você está nadando". Como num transe, você escutou minha fala e um sorriso maravilhoso inundou sua face. Você estava nadando! Sim, com boias nos braços, mas, pela primeira vez, nadava sem segurar em nada ou ninguém. E surpreendeu-se tanto com sua própria capacidade que ficou no mais pleno estado de excitação: "gente, eu to nadado, GENTEEE, eu to nadandooooo", gritava para que todos ouvissem. Meu primo Alexandre, o seu tio Lelê, pegou você pelas costas e direcionou para mim, instruindo que nadasse até a mamãe. Eu, devagarzinho, dava passos para trás, para que você pudesse nadar mais. "Pára de andar pra trás, mãe", você exclamava, enquanto percebia minha tática. E pulava para o meu colo. Depois, do meu colo para o tio Lelê. Depois, para a borda da piscina. Depois, de uma borda à outra. E a magia se fez. E você, ao final da tarde, já era o mais novo peixinho da família...
Confesso que meu movimento foi instintivo e, ademais, você já tem idade para saber nadar (e o saberia se eu a tivesse colocado numa aula de natação): não resisti. Levei você para o meio da piscina, instruí para que tivesse calma e que confiasse em mim, pois eu estava ali a seu lado, pronta para segurar você. Soltei. Em milissegundos, vi o desespero em seus olhos, enquanto debatia-se, batendo os braços. Permaneci firme, à sua frente, sem tocar-lhe, sorrindo e afirmando "você conseguiu, você está nadando". Como num transe, você escutou minha fala e um sorriso maravilhoso inundou sua face. Você estava nadando! Sim, com boias nos braços, mas, pela primeira vez, nadava sem segurar em nada ou ninguém. E surpreendeu-se tanto com sua própria capacidade que ficou no mais pleno estado de excitação: "gente, eu to nadado, GENTEEE, eu to nadandooooo", gritava para que todos ouvissem. Meu primo Alexandre, o seu tio Lelê, pegou você pelas costas e direcionou para mim, instruindo que nadasse até a mamãe. Eu, devagarzinho, dava passos para trás, para que você pudesse nadar mais. "Pára de andar pra trás, mãe", você exclamava, enquanto percebia minha tática. E pulava para o meu colo. Depois, do meu colo para o tio Lelê. Depois, para a borda da piscina. Depois, de uma borda à outra. E a magia se fez. E você, ao final da tarde, já era o mais novo peixinho da família...
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Enquanto você crescia
Confesso que quase sucumbi à frustração de ver você lutar contra a retirada da fralda. Confesso ainda que, enquanto você tratava a fralda mágica como sua nova melhor amiga nas horas de evacuação, temi que tivesse criado uma nova dependência para o seu rol de rituais. Mas até que ela estava funcionando: durante uma longa semana, você aprendeu a sentar no vaso sanitário, só para ver a fralda mágica em ação. E digo mais: você parecia se divertir com o fato de que seu cocô agora ia para o fundo do vaso, "mergulhando" num espaço que antes era abismático e impensável. Cada evacuação parecia mais fácil e mais frequente. E você já pedia para que eu esperasse do lado de fora do banheiro e só voltasse quando fosse chamada para limpar seu bumbum.
Enquanto os dias passavam, fui aumentando o tamanho do buraco da fralda mágica, até que, ao final dos sete dias, você já estava usando a fralda cortada ao meio; o que muito se assemelhava a uma tanga de índio. Em alguns dias, diminuí o tamanho das abas penduradas, fazendo o que chamamos de "cinto mágico". Finalmente o que era fralda transformou-se em uma fina cinta, presa apenas pelas laterais de ajuste _ e o que era melhor: paramos de gastar com fraldas. A mesma cinta funcionaria até o final de sua transição, já que não se aproximava da evacuação em nenhum ponto. Durante esses dias, quando você queria fazer suas necessidades, eu lhe colocava no assento sanitário e saía para buscar a cinta mágica (demorando, às vezes, até um minuto, para que se acostumasse com a condição, mas sem ter tempo suficiente para entrar em estado de pânico). Passadas duas semanas, a cinta mágica foi envelhecendo e, durante uma determinada evacuação, a cola das abas laterais perdeu-se. Você ficou só com a parte da frente, enquanto a peça traseira estava em minhas mãos. Mostrei a você que ela tinha ficado velha e que, talvez, você pudesse usar só a parte da frente. Para minha alegria, você, ao término do cocô, me pediu a parte que estava comigo, embolou-a junto da frente e exclamou: "ah, acho que agora eu não preciso mais disso". E jogou ambas as partes no lixo.
Eu quis chorar de alegria, mas, recordando todas as vezes que você foi e voltou nas decisões relativas ao seu método de evacuar, segurei minhas expectativas e esperei. Será que tinha dado certo? Ou será que você pediria um novo cinto mágico mais tarde?
No outro dia, veio a confirmação: você fez o xixi matinal e, enquanto eu escovava os dentes a seu lado, disse que iria fazer um cocô sem cinto mágico. Sorri para você, tentando não transparecer a importância do momento. Em segundos, você conseguiu. Fizemos uma festa no banheiro! Chegando à casa de sua avó materna, fez questão de contar a novidade a todos. Depois ligamos para a casa da sua avó paterna e contamos a seu pai e aos outros. Foi uma alegria.
Desde então, sua evacuação tem seguido um relógio diário, sem horário muito definido. Na última sexta-feira, fez cocô no colégio pela primeira vez! E sempre que tem vontade, não se prende a mim para levar-lhe ao banheiro: já fez com a vovó, com o papai e até com a tia Luiza.
Ao lembrar da sua luta interna contra essa adaptação, ao mesmo tempo em que sabia que você queria se libertar da masmorra da evacuação, fico emocionada. Você relutou. Tentou encontrar justificativas variadas para não mudar o método antigo (que era o uso da fralda). Tentou não crescer. Me disse que não queria mais fazer quatro anos e que preferia ser bebê para sempre.
Chorei por tantas noites e desabafei em poucos ouvidos, buscando um alento para a minha impotente condição de mãe que observa a filha a começar seu desbravamento do mundo. Houve momentos em que imaginei que eu fosse uma mãe incompetente, burra, tão despreparada que não conseguia passar de uma transição que, para muitos, era tão simples, tão elementar.
Mas para você, não estava sendo simples. Você precisava de um empurrãozinho. E precisava de apoio integral.
Parabéns, meu amor, por ter conseguido ultrapassar essa fase. E obrigada por me fazer acreditar na maternidade.
Amo você demais.
Enquanto os dias passavam, fui aumentando o tamanho do buraco da fralda mágica, até que, ao final dos sete dias, você já estava usando a fralda cortada ao meio; o que muito se assemelhava a uma tanga de índio. Em alguns dias, diminuí o tamanho das abas penduradas, fazendo o que chamamos de "cinto mágico". Finalmente o que era fralda transformou-se em uma fina cinta, presa apenas pelas laterais de ajuste _ e o que era melhor: paramos de gastar com fraldas. A mesma cinta funcionaria até o final de sua transição, já que não se aproximava da evacuação em nenhum ponto. Durante esses dias, quando você queria fazer suas necessidades, eu lhe colocava no assento sanitário e saía para buscar a cinta mágica (demorando, às vezes, até um minuto, para que se acostumasse com a condição, mas sem ter tempo suficiente para entrar em estado de pânico). Passadas duas semanas, a cinta mágica foi envelhecendo e, durante uma determinada evacuação, a cola das abas laterais perdeu-se. Você ficou só com a parte da frente, enquanto a peça traseira estava em minhas mãos. Mostrei a você que ela tinha ficado velha e que, talvez, você pudesse usar só a parte da frente. Para minha alegria, você, ao término do cocô, me pediu a parte que estava comigo, embolou-a junto da frente e exclamou: "ah, acho que agora eu não preciso mais disso". E jogou ambas as partes no lixo.
Eu quis chorar de alegria, mas, recordando todas as vezes que você foi e voltou nas decisões relativas ao seu método de evacuar, segurei minhas expectativas e esperei. Será que tinha dado certo? Ou será que você pediria um novo cinto mágico mais tarde?
No outro dia, veio a confirmação: você fez o xixi matinal e, enquanto eu escovava os dentes a seu lado, disse que iria fazer um cocô sem cinto mágico. Sorri para você, tentando não transparecer a importância do momento. Em segundos, você conseguiu. Fizemos uma festa no banheiro! Chegando à casa de sua avó materna, fez questão de contar a novidade a todos. Depois ligamos para a casa da sua avó paterna e contamos a seu pai e aos outros. Foi uma alegria.
Desde então, sua evacuação tem seguido um relógio diário, sem horário muito definido. Na última sexta-feira, fez cocô no colégio pela primeira vez! E sempre que tem vontade, não se prende a mim para levar-lhe ao banheiro: já fez com a vovó, com o papai e até com a tia Luiza.
Ao lembrar da sua luta interna contra essa adaptação, ao mesmo tempo em que sabia que você queria se libertar da masmorra da evacuação, fico emocionada. Você relutou. Tentou encontrar justificativas variadas para não mudar o método antigo (que era o uso da fralda). Tentou não crescer. Me disse que não queria mais fazer quatro anos e que preferia ser bebê para sempre.
Chorei por tantas noites e desabafei em poucos ouvidos, buscando um alento para a minha impotente condição de mãe que observa a filha a começar seu desbravamento do mundo. Houve momentos em que imaginei que eu fosse uma mãe incompetente, burra, tão despreparada que não conseguia passar de uma transição que, para muitos, era tão simples, tão elementar.
Mas para você, não estava sendo simples. Você precisava de um empurrãozinho. E precisava de apoio integral.
Parabéns, meu amor, por ter conseguido ultrapassar essa fase. E obrigada por me fazer acreditar na maternidade.
Amo você demais.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
A fralda mágica
Minha querida e genial filha,
você tem sérias dificuldades em fazer cocô na privada. Até hoje, na beira dos quatro anos, sua resistência ao sanitário é impressionantemente aterradora. Já me desesperei, já chorei, já passei meses frustrada com a sua incapacidade de trafegar da fralda para o penico, quiçá para a privada. As aulas na escola já irão começar em alguns dias e eu temo pelo pior _ você ser ridicularizada pelos coleguinhas (que já usam o vaso), quando der a primeira dor de barriga. Tomara que não aconteça.
Lembro-me, na minha época de educação infantil, que tínhamos um colega que fazia o número dois na calça. O apelidamos de Jair Cagão. Pobrezinho. Deve ter passado um aperto enorme por um bom tempo... quase trinta anos depois, da mesma forma como essa história é viva na minha memória, pode ser que esteja na de outros coleguinhas da época também. Ora, pode ser que esteja até na memória dele. E eu não queria isso para você.
Cada um tem seu tempo, ao longo do desenvolvimento, é fato. Momentos que não se equiparam necessariamente à idade. A psicologia americana é bastante fã do modelo "aos x anos, tirar a chupeta; aos y anos, tirar a fralda; aos w anos, dormir sozinho". Mas as coisas nem sempre são assim. Há que se levar em conta a maturidade emocional, os significados por trás dos atos, além da história pregressa de cada membro da família e do próprio sujeito em questão. Por isso, compreendi que não havia motivo de frustração ou desespero. Saí do título de "mãe incapaz" para o de "mãe consciente". E, é claro, somando a isso tudo, também inventei um método para que a sua transição fralda-vaso sanitário seja a menos dolorosa possível: a fralda mágica.
Então, vamos à explicação. A fralda mágica consiste no seguinte: peguei uma fralda descartável sua e recortei um vão bem onde o cocô deve ficar armazenado. Fiz isso, é claro, sem a sua consciência ou permissão. Quatro dias depois de forçar-lhe a usar o penico (e, não coincidentemente, quatro dias em que você se recusou a ir ao banheiro), ofereci a você a fralda mágica, com a condição de que a usasse sentada no penico. Você aceitou.
Coloquei a fralda em você, cuidando para que não prestasse atenção ao rombo _ parecia mesmo uma fralda íntegra, pelo menos na parte da frente. Um minuto depois, você já tinha depositado todo o material acumulado no fundo do penico, e nem notou o barulho da queda a cada forçada bem sucedida.
Quando terminou, mostrei a você a surpresa, com muito cuidado para que não se sentisse traída. Você viu todo aquele cocô no penico, olhou para a fralda e soltou uma baita gargalhada. A fralda era mesmo mágica!
Dois dias depois, a fralda mágica voltou à cena, desta vez, no vaso sanitário. E funcionou também. O melhor do funcionamento foi presenciar as suas gargalhadas após o ocorrido: você parecia ter sido liberta da maldição do cocô e, finalmente, podia jogá-lo no sanitário, sem mediadores. Ou quase sem mediadores.
Hoje, dois dias depois da fralda mágica ter operado sua magia no sanitário, deve ser ora de fazer o número dois novamente. Estou pensando agora num cinturão de fralda. Depois, em alguns dias, quem sabe, uma fralda invisível?
É, filha... criar uma criança não é tão fácil quanto parece... <3 Amo você.
você tem sérias dificuldades em fazer cocô na privada. Até hoje, na beira dos quatro anos, sua resistência ao sanitário é impressionantemente aterradora. Já me desesperei, já chorei, já passei meses frustrada com a sua incapacidade de trafegar da fralda para o penico, quiçá para a privada. As aulas na escola já irão começar em alguns dias e eu temo pelo pior _ você ser ridicularizada pelos coleguinhas (que já usam o vaso), quando der a primeira dor de barriga. Tomara que não aconteça.
Lembro-me, na minha época de educação infantil, que tínhamos um colega que fazia o número dois na calça. O apelidamos de Jair Cagão. Pobrezinho. Deve ter passado um aperto enorme por um bom tempo... quase trinta anos depois, da mesma forma como essa história é viva na minha memória, pode ser que esteja na de outros coleguinhas da época também. Ora, pode ser que esteja até na memória dele. E eu não queria isso para você.
Cada um tem seu tempo, ao longo do desenvolvimento, é fato. Momentos que não se equiparam necessariamente à idade. A psicologia americana é bastante fã do modelo "aos x anos, tirar a chupeta; aos y anos, tirar a fralda; aos w anos, dormir sozinho". Mas as coisas nem sempre são assim. Há que se levar em conta a maturidade emocional, os significados por trás dos atos, além da história pregressa de cada membro da família e do próprio sujeito em questão. Por isso, compreendi que não havia motivo de frustração ou desespero. Saí do título de "mãe incapaz" para o de "mãe consciente". E, é claro, somando a isso tudo, também inventei um método para que a sua transição fralda-vaso sanitário seja a menos dolorosa possível: a fralda mágica.
Então, vamos à explicação. A fralda mágica consiste no seguinte: peguei uma fralda descartável sua e recortei um vão bem onde o cocô deve ficar armazenado. Fiz isso, é claro, sem a sua consciência ou permissão. Quatro dias depois de forçar-lhe a usar o penico (e, não coincidentemente, quatro dias em que você se recusou a ir ao banheiro), ofereci a você a fralda mágica, com a condição de que a usasse sentada no penico. Você aceitou.
Coloquei a fralda em você, cuidando para que não prestasse atenção ao rombo _ parecia mesmo uma fralda íntegra, pelo menos na parte da frente. Um minuto depois, você já tinha depositado todo o material acumulado no fundo do penico, e nem notou o barulho da queda a cada forçada bem sucedida.
Quando terminou, mostrei a você a surpresa, com muito cuidado para que não se sentisse traída. Você viu todo aquele cocô no penico, olhou para a fralda e soltou uma baita gargalhada. A fralda era mesmo mágica!
Dois dias depois, a fralda mágica voltou à cena, desta vez, no vaso sanitário. E funcionou também. O melhor do funcionamento foi presenciar as suas gargalhadas após o ocorrido: você parecia ter sido liberta da maldição do cocô e, finalmente, podia jogá-lo no sanitário, sem mediadores. Ou quase sem mediadores.
Hoje, dois dias depois da fralda mágica ter operado sua magia no sanitário, deve ser ora de fazer o número dois novamente. Estou pensando agora num cinturão de fralda. Depois, em alguns dias, quem sabe, uma fralda invisível?
É, filha... criar uma criança não é tão fácil quanto parece... <3 Amo você.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Ano novo, vida nova
No dia primeiro de janeiro, você acordou ao meio dia!
Fiquei estupefata, já que o seu ciclo de sono sempre teimou em terminar antes das sete (quando, no máximo, em algumas exceções, ia até às oito eu pulava de alegria). Com certeza tudo isso foi efeito do descompasso entre Natal e Ano Novo, época de festas e rebuliços familiares: ficávamos até tão tarde recebendo tios e tias que já não sabíamos mais a que horas dormir. Hoje, do alto do dia 04, seu mecanismo parece estar voltando ao normal lentamente, e você ainda deu algumas pequenas dormidas durante as tardes (coisa que não fazia há meses).
O ano de 2013 marca uma etapa importante da sua vida: a entrada no colégio. Estamos deixando para trás a creche Grão de Areia e adentrando pela porta da frente do Colégio Marista. Hoje percebo o quanto o tempo passou rápido...
Escrevi uma cartinha de agradecimento à Grão, por todos os serviços prestados e por toda a dedicação no intuito de ajudar você em sua transformação e crescimento. Deixo ela aqui, na íntegra, para que, um dia, quem sabe, você a possa ler (será que se lembrará de alguma coisa de lá?).
"Dez meses de idade. Foi quando Alice entrou na escolinha.
Fiquei estupefata, já que o seu ciclo de sono sempre teimou em terminar antes das sete (quando, no máximo, em algumas exceções, ia até às oito eu pulava de alegria). Com certeza tudo isso foi efeito do descompasso entre Natal e Ano Novo, época de festas e rebuliços familiares: ficávamos até tão tarde recebendo tios e tias que já não sabíamos mais a que horas dormir. Hoje, do alto do dia 04, seu mecanismo parece estar voltando ao normal lentamente, e você ainda deu algumas pequenas dormidas durante as tardes (coisa que não fazia há meses).
O ano de 2013 marca uma etapa importante da sua vida: a entrada no colégio. Estamos deixando para trás a creche Grão de Areia e adentrando pela porta da frente do Colégio Marista. Hoje percebo o quanto o tempo passou rápido...
Escrevi uma cartinha de agradecimento à Grão, por todos os serviços prestados e por toda a dedicação no intuito de ajudar você em sua transformação e crescimento. Deixo ela aqui, na íntegra, para que, um dia, quem sabe, você a possa ler (será que se lembrará de alguma coisa de lá?).
"Dez meses de idade. Foi quando Alice entrou na escolinha.
Escolhi a Grão de Areia por
múltiplas indicações de pessoas, tanto queridas quanto desconhecidas. O lugar parecia acolhedor, a fala da
proprietária (que, não por acaso, era psicóloga) condizia com tudo que eu
acreditava em termos de educação infantil.
Desde os primeiros dias, quando
minha pequena estava em adaptação, estive tranquila em relação à escolha do
local: nunca houve arrependimento, nunca houve medo.
Alice cresceu a olhos vistos.
Falava mais, cantava mais, aprendeu o que era se relacionar com os pequeninos
iguais a ela. Descobriu que o mundo era maior que as paredes de nossa casa.
Foi na Grão de Areia que minha
filha ensaiou a escrita das primeiras letras, arriscou a hipótese de rabiscar
seu nome, de rabiscar meu nome. Definiu sua lateralidade. Aprendeu a agradecer
a Deus pelas refeições. Praticou ritmos novos, com instrumentos musicais que
jamais sonhara. Percebeu que havia línguas diferentes daquela primordial que
conhecia. E foi na Grão de Areia que Alice reuniu tantos dos conhecimentos que
sempre fez questão de compartilhar como se fossem ouro (mal sabe ela que
conhecimento é mesmo ouro).
Em termos relacionais, a Grão foi
seu primeiro celeiro de amizades. Antes,
mamãe, papai, tios e avós eram seu contato principal. Suas construções sociais
eram limitadas a gigantes aparentemente bem articulados, sólidos e sóbrios, que
entravam e saiam pelas grandes portas quando lhes convinham. Após sua inserção
no convívio da escolinha, Alice aprendeu que havia também outras possibilidades
de interação. Outros gigantes e outros pequenos; os segundos pareciam mais
verdadeiros, mais condizentes com sua própria condição de pequena. E ela os
amou a todos. Ainda os ama.
Cada membro da escola passou a
fazer parte do repertório inicial de Alice. Cada um agora representa um peça
importante no quebra-cabeças de uma vida que começou há tão pouco.
Hoje é um dia triste, de
despedida. Mas, ao mesmo tempo, é um dia feliz, de agradecimento, e, especialmente,
de reconhecimento por um serviço tão bem feito e por um acolhimento de perfeita
sintonia entre minha família e a família Grão de Areia.
A oportunidade de fazer a
diferença na vida de uma criança é única. Havia só uma chance para acertar sua
primeira escola. Havia só uma chance para escolher um local que fosse também
responsável por ajudar a definir a personalidade de Alice, seus valores morais
e éticos, seus comportamentos em relação a desafios e barreiras. E nós
acertamos. Acertamos em tudo. Alice é hoje fruto de ótimas escolhas e
interações, que sorveram dela o melhor de sua alma e temperamento.
Waleska, Cláudia, Jessica, Wilson
e demais professoras e cuidadoras da Grão: a vocês, nosso agradecimento.
Obrigada por fazerem parte de nossas vidas. Jamais nos separaremos, pois vocês
são os alicerces da nossa história.
Estarão para sempre em nossos
corações e pensamentos. Amamos vocês."
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