quinta-feira, 19 de novembro de 2015

a pintora subiu no telhado

Seis anos e tanto. Você já se parece com uma mocinha, do alto da sainha rodada e do arco de contas no cabelão.
Quer ficar de cabelo solto o dia inteiro. Quer deixar a franja crescer. Quer jogar Minecraft e AnimalJam o dia inteirinho no computador, enquanto me chama à companhia, colocando o controle da televisão do seu lado e me pedindo pra assistir MasterChef do seu lado.
Ontem passamos a tarde inteira juntas. Fiz seu almoço. Fiz seus lanches. Vi você brincando e percebi o quanto sua coordenação motora fina está afiada nos teclados do computador.
Você se diverte tanto nesse meio eletrônico, que até sinto saudades de nós duas deitadas no chão, fazendo desenhos de giz de cera... (você não gosta mais de giz de cera...).

No último final de semana, você foi presenteada com alguns baldes de tinta (mérito do vovô Hortensio) e passamos o domingo colorindo sua casinha no quintal da casa dos seus avós. Foi uma diversão e tanto: você sentada no telhado, com um pincelzinho tão pequeno, pincelando calmamente telha a telha. Ao final do exercício, você estava tão colorida, tão respingada que parecia uma tela de arte! Que linda!

Amo ver você pintar... <3

sábado, 9 de maio de 2015

Carta para minha filha, no dia das mães

Foto de Carol Junqueira.


O que eu quero de presente


Querida filha,
Você me perguntou qual era o presente perfeito para me dar neste dia das mães. Após considerar cuidadosamente o assunto, gostaria de lhe responder o seguinte:
O melhor presente para mim, uma coisa que faria qualquer mãe feliz, é que você não sofra mais do que consiga suportar. Que não atraia para si problemas maiores do que consiga gerenciar. Que não sinta vergonha em ser você mesma: que não pense duas vezes antes de agir autenticamente, sem se importar com quem está olhando, contanto que não fira o respeito alheio (o respeito deve ser sempre compartilhado).
Como presente, quero que me dê a honra de poder levar você à escola, de mãos dadas, sem que sinta vergonha da minha presença. Que continue achando tão bacana as nossas conversas, nossos banhos, nossas refeições.
Que me peça para lhe contar histórias de dormir, indefinidamente. E que, quando for a hora, que possa contar comigo para contar histórias de dormir aos seus pequenos também.
Que continue me convidando para os eventos que julga importantes. Que peça minha ajuda para fazer a tarefa de casa, para preparar seu prato e para comprar o presente de aniversário do coleguinha. Dizem que as pessoas podem ser medidas pela necessidade que despertam nos outros _ nesse cenário, espero lhe despertar por muito tempo essas necessidades saudáveis (e necessárias, especialmente, para alguém da sua idade).
O melhor presente é escutar sua gargalhada, sem grilhões, sem subterfúgios. É olhar em seus olhos e perceber que você me olha de volta, sem desviá-los dos meus (uma criança segura de sua mãe não precisa desviar os olhos). É saber que você não mentirá para mim, enquanto nossa casa for repleta de amor, confiança e apoio mútuos. É ter a certeza de que você escolheu nascer de mim porque precisávamos nos encontrar nessa vida, para que aprendêssemos uma com a outra.
Que tenha segurança para construir sua vida, para me enfrentar sempre que nossas opiniões sejam divergentes, para me ajudar sempre que meu olhar estiver míope e para dar o braço a torcer, quando perceber que eu tenho razão.
Por fim, o melhor presente será poder compartilhar a Terra contigo até meu último dia. Por favor, minha querida, esse presente é muito importante: que cuide de si com carinho e atenção, para que possamos desfrutar início e fim dessa vida juntas, da maneira como a natureza deseja que assim o seja: que primeiro se vão os pais e só depois, os filhos.
E quando chegar esse tempo, tão longínquo, que possamos nos reencontrar no infinito, e dançar, juntas, infinitamente, por entre as estrelas...

domingo, 5 de abril de 2015

As deliciosas festas de quintal



(para Alice, em ocasião de seus seis anos)

“Mãe”, chamou-me para o canto, “quando a gente ficar ricas, pode me dar uma festa num buffet?”, me perguntou uma Alice ainda antes de fazer quatro anos. Uma festa num buffet, repeti, para mim mesma, pesando prós e contras dessa prática que tem conquistado tantos adeptos num Brasil contemporaneamente tão estranho. Por um lado, preciso dar o braço a torcer que é muito mais cômodo ter um séquito que lhe monte e apresente uma festa com tudo o que há de direito: comidas, decoração, divertimento. Deve mesmo ser maravilhoso chegar ao final da festa e ir embora para casa, sem preocupar com toda a sujeira residual, sem nem sequer querer saber o destino das latas e descartáveis e, melhor ainda, sem ter de varrer o chão com todos aqueles restinhos de brigadeiro pregando nas cerdas da vassoura.
Uma festa num buffet pode ser como aquelas festas de revista: balões em degradê, bonecas princesas espalhadas para tudo que é lado, brinquedos-tobogã, piscina de bolinha, mágico e animadores que dançam com seus filhos enquanto você pode ficar sentado na mesa, comendo e papeando, se preocupando (no máximo) com onde guardará todas as balinhas e jujubas que virão depois do “parabéns”, em caixinhas, latinhas, garrafinhas e origamis de papel colorido.
Mas há um lado tristemente escuro que vem com as terceirizadas festas de buffet. A mãe não é necessária. A tia, que gosta de enrolar os brigadeiros, não é necessária. A amiga, que faz uma torta salgada deliciosa, não é necessária. Tampouco é necessária aquela avó que adora fazer pães de queijo caseiros e bolo gelado, carregado de recheio. O máximo que se faz é escolher o tema, as cores dos balões, o bolo (que vai ser reutilizado por mais um monte de outras pessoas), as lembrancinhas. E só. Assinado o contrato, as partes só precisam se encontrar no dia da festa, para realizar o acerto financeiro e um eventual adicional de quebra de copos ou adição de cervejas. O planejamento acaba ficando tão simples que, a meu ver, perde o sentido da celebração verdadeira.
Ora, não sei como isso funciona para outras pessoas, sequer tenho a pretensão de chancelar apenas minha bandeira, mas o prazer que sinto em realmente celebrar a vida da minha filha, planejando e executando as coisas de sua festa de aniversário é ímpar.
Cada brigadeiro enrolado, cada abrir de forminha, me dá a sensação de que uma festa não é apenas a festa em si: é um ritual de amor que dura por muitos dias. É como preparar os tapetes de serragem colorida e flor para as procissões católicas.  O evento per se, aquelas quatro ou cinco horas, são apenas um último estágio; a ponta do iceberg.
Penso que, para Alice, especialmente por ter avós com uma casa que tem um quintal gramado, a festa tradicional é um convite para o retorno ao natural. Um reencontro entre as crianças e a infância, sem a necessidade de um mediador que não elas mesmas. Podem ficar descalças. Podem subir nas árvores e nas pedras. Podem cutucar a terra, afofar a grama com os dedos, correr atrás dos passarinhos ou tentar o cachorro (entediadamente relegado ao canil, mas que observa as crianças abanando-lhes o rabo, vez ou outra). Podem ser elas mesmas, sem um mágico, sem uma equipe de entretenimento. Crianças entretêm-se sozinhas! São autobrincantes! E tem uma imaginação absurdamente linda e fantástica! Não precisam de uma sala lotada de videogames para as entreter durante um aniversário. Não precisam de um profissional lhes dizendo como dançar ou o que fazer o tempo todo (isso elas têm de sobra na escola).  E, especialmente, não precisam de festas que acabem às 23h.
Passado algum tempo do pedido para uma festa num buffet, começamos os preparativos para a festa no quintal. Fizemos, juntas, os convites. Juntas (e com muita ajuda do Vinicius), o painel nas costas do bolo. Juntas, o docinho de coco (e ela nem gosta de docinho de coco). Alice ficou imersa no universo de seu próprio aniversário por aproximadamente três semanas. Viveu tudo. Participou ativamente de tudo. E ficou muito orgulhosa de poder receber seus colegas em casa (porque o quintal da vovó é também nossa casa).
(Esse movimento, aliás, de receber os amigos em casa, é, a meu ver, uma construção de memórias emocionais que a farão compreender o conceito de “casa” como acolhida.)
A festa foi muito tranquila e simples. Sem frescuras. Sem garçons (às vezes me pergunto se já saímos de fato da época da servidão). Isopor com as bebidas no chão e panela de macarrão na mesa. E quase todas as crianças saíram descalças. E todas as crianças saíram com os cabelos pregando na testa, de tanto suor. Estouraram balões como moleques sem lei. Gritaram e correram ao redor da casa por horas a fio, sem serem reguladas. Deixaram pelo gramado um pouco de sua natureza selvagem e foram crianças, sem censura, numa tarde fresca dum sábado qualquer.
Quando a festa estava em vias de terminar, foi a vez dos balões de água (nem os pais escaparam). Os últimos convidados a sair foram embora ensopados mesmo. E felizes. Tanto, que a pequena Greta me confidenciou um segredo, cheia de empolgação: “Tia Carol, este ano meu aniversário vai ser aqui, na casa da vovó da Alice!!”.
Foi o melhor feedback que já ouvi dum convidado.
Alice ficou nas nuvens. E eu, meus pais, Dida e Daniel, após catarmos todos os restinhos de festa, pudemos dormir felizes com a felicidade dela.
Os buffets que me desculpem, mas no ano que vem, tem mais quintal!







terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Filhos ou cachorros?

Sim, querida. Há quem assemelhe uma experiência a outra.

Decerto, penso eu, quem o faz não deve ter tido filhos...

Não, filhos e cães não são experiências parecidas sob qualquer ponto de vista. Ambos têm fome, sede, frio. Ambos fazem suas necessidades (até em lugares errados, no começo). Ambos choram por carinho, atenção, dor, medo. Só se assemelham pelo fato de serem seres vivos.
Os filhos, diferentemente dos cães, desenvolvem opiniões tão próprias e tão ímpares que, quando chega a hora, decidem ir embora. Às vezes, emocionalmente, para nunca mais voltar. Às vezes, fisicamente. Eles nos abraçam e vão formar novas famílias. Eles escolhem morar no exílio, em prol de uma ideologia. Eles tomam nas mãos as rédeas de seu destino e se empenham em escrever a própria história. Os cães não.Não decidem ir embora, abraçando e justificando quem fica. Não escolhem fazer uma tatuagem no rosto, só para desafiar um dono. Não gritam um "eu não pedi pra nascer", num daqueles momentos de imbecilidade suprema, quando podados. Não carregam nossas fotos na carteira. Não fazem um jantar em agradecimento ou garatujas afetuosas representando nossas figuras.

Filhos não são cães. Cães não são filhos (e isso não diminui a importância nem dos primeiros, nem dos segundos).

Tenho uma amiga que diz preferir cães a filhos. Jamais a julgaria negativamente. Primeiro porque quem assume que não quer ter filhos já está fadado ao mau olhado social. As potenciais avós cobram. A vizinha religiosa cobra. A indústria do marketing infantil cobra. Eu, por minha vez, dizia, aos quatorze anos, que queria ter uns quatro filhos. Sempre imaginei uma casa cheia, um quintal farto de gentes! Das duas uma: ou você veio com a energia de quatro, ou eu subestimei o que significa criar uma criança. Acho que foi a segunda...

Eu não poderia ficar jogando bolinha para você buscar. Se tivesse escolhido um cachorro, passaria dez, doze anos jogando bolinha. Não seria preciso evoluir na brincadeira, nem no diálogo. Para um cachorro, o osso de estimação basta. Para um filho, no entanto, mesmo que lhe mostre o máximo do mundo, não será ainda o suficiente.

Eu queria ser um binóculo. Um monóculo. Um periscópio, um telescópio, um microscópio e um caleidoscópio. Queria ser tudo isso para ocupar seus olhos com as paisagens do mundo. Sinto que o papel de uma mãe é o de colo, sim. Dar comida, óbvio. Levar e trazer da escola, oh, claro! Mas há mais! Tanto mais! Quero levar você a cada observatório do mundo. A cada parque marinho. A cada praia e a cada vulcão. Quero gastar a grana que puder para que você tenha experiências fantásticas em lugares fantásticos, ao mesmo tempo que quero depositar meu sono em troca da sua companhia para os desenhos noturnos, antes da hora de dormir.

Você não tem ainda noção do quanto não suporto Backyardigans ou Doki. Não conhece a dor de escutar as vozinhas dubladas da Doutora Brinquedos, da Peppa e as músicas da Galinha Pintadinha (e não vou nem entrar no terreno Disney, com aquele punhado de princesas incautas). Eu não passaria por isso por um cachorro. Jamais.
Mas, com você, eu assisto a tudo sem medo. Sem reclamar. Dublo as vozes dos personagens, se me pedir. Visto-me do que for, se assim o for. Porque, se for para você, valerá a pena. Você vale a pena.

Por essas e outras, por conhecer as maravilhas da maternidade, sempre que escuto algum casal debatendo sobre "filhos ou cães", aponto: tenham ambos. Com os cães, vocês provavelmente aprenderão a ser mais organizados. Com os filhos, aprenderão que crianças e cães são melhores amigos.

E, finalmente, depois de muitos anos, vocês entenderão que não há equivalência, pois ambas as escolhas levarão a vivências completamente diferentes...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ano Novo


Você teve um 2014 exepcional.

Cresceu. Aprendeu a ler e a escrever. Contar. Somar.
Aprendeu que ser voluntariosa pode ser desastroso, mas continua tão voluntariosa quanto uma princesinha de cinco anos. Quanto eu, aos cinco anos. Quanto eu, aos trinta e quatro.
Desde o meio do ano, você estava entre os poucos alfabetizados da turma e eu senti muito orgulho de seus feitos.
Aprendeu a rezar. Fez orações públicas (em eventos como reuniões do laboratório, festa de encerramento do ano na escola, na minha empresa e festa de natal da família).
Explodiu em alicismos, como nunca. Já me esqueci de muitos: se eu tivesse a disciplina de escrever cada pérola, hoje teria um livro enorme.
Estamos caminhando para os seus seis anos e essa caminhada já não me assusta: vejo você debater pelo que é seu, teatralizar por aí como se o mundo fosse expectador do Monólogo de Alice. Como é bonito acompanhar o crescimento de outro ser!

Hoje, no segundo dia do ano, enquanto você dorme espalhada na cama, gostaria de lhe desejar o melhor 2015 que possa ter. Que continue aprendendo tanto. Que me permita ajudar. Que coma mais legumes e verduras (seu ponto fraco). Que fale mais baixo. Que tenha mais compaixão e menos urgência.Que continue sendo amor.

Amo você.
mamãe.