(para Alice, em ocasião de seus seis anos)
“Mãe”, chamou-me para o canto, “quando a gente ficar ricas,
pode me dar uma festa num buffet?”, me perguntou uma Alice ainda antes de fazer
quatro anos. Uma festa num buffet, repeti, para mim mesma, pesando prós e contras
dessa prática que tem conquistado tantos adeptos num Brasil contemporaneamente
tão estranho. Por um lado, preciso dar o braço a torcer que é muito mais cômodo
ter um séquito que lhe monte e apresente uma festa com tudo o que há de
direito: comidas, decoração, divertimento. Deve mesmo ser maravilhoso chegar ao
final da festa e ir embora para casa, sem preocupar com toda a sujeira
residual, sem nem sequer querer saber o destino das latas e descartáveis e,
melhor ainda, sem ter de varrer o chão com todos aqueles restinhos de
brigadeiro pregando nas cerdas da vassoura.
Uma festa num buffet pode ser como aquelas festas de
revista: balões em degradê, bonecas princesas espalhadas para tudo que é lado,
brinquedos-tobogã, piscina de bolinha, mágico e animadores que dançam com seus
filhos enquanto você pode ficar sentado na mesa, comendo e papeando, se preocupando
(no máximo) com onde guardará todas as balinhas e jujubas que virão depois do “parabéns”,
em caixinhas, latinhas, garrafinhas e origamis de papel colorido.
Mas há um lado tristemente escuro que vem com as
terceirizadas festas de buffet. A mãe não é necessária. A tia, que gosta de
enrolar os brigadeiros, não é necessária. A amiga, que faz uma torta salgada
deliciosa, não é necessária. Tampouco é necessária aquela avó que adora fazer
pães de queijo caseiros e bolo gelado, carregado de recheio. O máximo que se
faz é escolher o tema, as cores dos balões, o bolo (que vai ser reutilizado por
mais um monte de outras pessoas), as lembrancinhas. E só. Assinado o contrato,
as partes só precisam se encontrar no dia da festa, para realizar o acerto
financeiro e um eventual adicional de quebra de copos ou adição de cervejas. O
planejamento acaba ficando tão simples que, a meu ver, perde o sentido da
celebração verdadeira.
Ora, não sei como isso funciona para outras pessoas, sequer
tenho a pretensão de chancelar apenas minha bandeira, mas o prazer que sinto em
realmente celebrar a vida da minha filha, planejando e executando as coisas de
sua festa de aniversário é ímpar.
Cada brigadeiro enrolado, cada abrir de forminha, me dá a
sensação de que uma festa não é apenas a festa em si: é um ritual de amor que
dura por muitos dias. É como preparar os tapetes de serragem colorida e flor
para as procissões católicas. O evento
per se, aquelas quatro ou cinco horas, são apenas um último estágio; a ponta do
iceberg.
Penso que, para Alice, especialmente por ter avós com uma
casa que tem um quintal gramado, a festa tradicional é um convite para o
retorno ao natural. Um reencontro entre as crianças e a infância, sem a
necessidade de um mediador que não elas mesmas. Podem ficar descalças. Podem
subir nas árvores e nas pedras. Podem cutucar a terra, afofar a grama com os
dedos, correr atrás dos passarinhos ou tentar o cachorro (entediadamente
relegado ao canil, mas que observa as crianças abanando-lhes o rabo, vez ou
outra). Podem ser elas mesmas, sem um mágico, sem uma equipe de entretenimento.
Crianças entretêm-se sozinhas! São autobrincantes! E tem uma imaginação
absurdamente linda e fantástica! Não precisam de uma sala lotada de videogames para
as entreter durante um aniversário. Não precisam de um profissional lhes
dizendo como dançar ou o que fazer o tempo todo (isso elas têm de sobra na
escola). E, especialmente, não precisam
de festas que acabem às 23h.
Passado algum tempo do pedido para uma festa num buffet,
começamos os preparativos para a festa no quintal. Fizemos, juntas, os
convites. Juntas (e com muita ajuda do Vinicius), o painel nas costas do bolo.
Juntas, o docinho de coco (e ela nem gosta de docinho de coco). Alice ficou
imersa no universo de seu próprio aniversário por aproximadamente três semanas.
Viveu tudo. Participou ativamente de tudo. E ficou muito orgulhosa de poder
receber seus colegas em casa (porque o quintal da vovó é também nossa casa).
(Esse movimento, aliás, de receber os amigos em casa, é, a
meu ver, uma construção de memórias emocionais que a farão compreender o
conceito de “casa” como acolhida.)
A festa foi muito tranquila e simples. Sem frescuras. Sem
garçons (às vezes me pergunto se já saímos de fato da época da servidão). Isopor
com as bebidas no chão e panela de macarrão na mesa. E quase todas as crianças
saíram descalças. E todas as crianças saíram com os cabelos pregando na testa,
de tanto suor. Estouraram balões como moleques sem lei. Gritaram e correram ao
redor da casa por horas a fio, sem serem reguladas. Deixaram pelo gramado um
pouco de sua natureza selvagem e foram crianças, sem censura, numa tarde fresca
dum sábado qualquer.
Quando a festa estava em vias de terminar, foi a vez dos
balões de água (nem os pais escaparam). Os últimos convidados a sair foram
embora ensopados mesmo. E felizes. Tanto, que a pequena Greta me confidenciou
um segredo, cheia de empolgação: “Tia Carol, este ano meu aniversário vai ser
aqui, na casa da vovó da Alice!!”.
Foi o melhor feedback que já ouvi dum convidado.
Alice ficou nas nuvens. E eu, meus pais, Dida e Daniel, após
catarmos todos os restinhos de festa, pudemos dormir felizes com a felicidade
dela.
Os buffets que me desculpem, mas no ano que vem, tem mais
quintal!
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