terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Filhos ou cachorros?

Sim, querida. Há quem assemelhe uma experiência a outra.

Decerto, penso eu, quem o faz não deve ter tido filhos...

Não, filhos e cães não são experiências parecidas sob qualquer ponto de vista. Ambos têm fome, sede, frio. Ambos fazem suas necessidades (até em lugares errados, no começo). Ambos choram por carinho, atenção, dor, medo. Só se assemelham pelo fato de serem seres vivos.
Os filhos, diferentemente dos cães, desenvolvem opiniões tão próprias e tão ímpares que, quando chega a hora, decidem ir embora. Às vezes, emocionalmente, para nunca mais voltar. Às vezes, fisicamente. Eles nos abraçam e vão formar novas famílias. Eles escolhem morar no exílio, em prol de uma ideologia. Eles tomam nas mãos as rédeas de seu destino e se empenham em escrever a própria história. Os cães não.Não decidem ir embora, abraçando e justificando quem fica. Não escolhem fazer uma tatuagem no rosto, só para desafiar um dono. Não gritam um "eu não pedi pra nascer", num daqueles momentos de imbecilidade suprema, quando podados. Não carregam nossas fotos na carteira. Não fazem um jantar em agradecimento ou garatujas afetuosas representando nossas figuras.

Filhos não são cães. Cães não são filhos (e isso não diminui a importância nem dos primeiros, nem dos segundos).

Tenho uma amiga que diz preferir cães a filhos. Jamais a julgaria negativamente. Primeiro porque quem assume que não quer ter filhos já está fadado ao mau olhado social. As potenciais avós cobram. A vizinha religiosa cobra. A indústria do marketing infantil cobra. Eu, por minha vez, dizia, aos quatorze anos, que queria ter uns quatro filhos. Sempre imaginei uma casa cheia, um quintal farto de gentes! Das duas uma: ou você veio com a energia de quatro, ou eu subestimei o que significa criar uma criança. Acho que foi a segunda...

Eu não poderia ficar jogando bolinha para você buscar. Se tivesse escolhido um cachorro, passaria dez, doze anos jogando bolinha. Não seria preciso evoluir na brincadeira, nem no diálogo. Para um cachorro, o osso de estimação basta. Para um filho, no entanto, mesmo que lhe mostre o máximo do mundo, não será ainda o suficiente.

Eu queria ser um binóculo. Um monóculo. Um periscópio, um telescópio, um microscópio e um caleidoscópio. Queria ser tudo isso para ocupar seus olhos com as paisagens do mundo. Sinto que o papel de uma mãe é o de colo, sim. Dar comida, óbvio. Levar e trazer da escola, oh, claro! Mas há mais! Tanto mais! Quero levar você a cada observatório do mundo. A cada parque marinho. A cada praia e a cada vulcão. Quero gastar a grana que puder para que você tenha experiências fantásticas em lugares fantásticos, ao mesmo tempo que quero depositar meu sono em troca da sua companhia para os desenhos noturnos, antes da hora de dormir.

Você não tem ainda noção do quanto não suporto Backyardigans ou Doki. Não conhece a dor de escutar as vozinhas dubladas da Doutora Brinquedos, da Peppa e as músicas da Galinha Pintadinha (e não vou nem entrar no terreno Disney, com aquele punhado de princesas incautas). Eu não passaria por isso por um cachorro. Jamais.
Mas, com você, eu assisto a tudo sem medo. Sem reclamar. Dublo as vozes dos personagens, se me pedir. Visto-me do que for, se assim o for. Porque, se for para você, valerá a pena. Você vale a pena.

Por essas e outras, por conhecer as maravilhas da maternidade, sempre que escuto algum casal debatendo sobre "filhos ou cães", aponto: tenham ambos. Com os cães, vocês provavelmente aprenderão a ser mais organizados. Com os filhos, aprenderão que crianças e cães são melhores amigos.

E, finalmente, depois de muitos anos, vocês entenderão que não há equivalência, pois ambas as escolhas levarão a vivências completamente diferentes...

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