segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Com as garças

Ontem fomos à Anchieta.
Chegando na praia da frente, lá pelos cantos do terreno do Geraldinho (depois você precisa me lembrar de lhe contar essa história), vimos centenas de garças andando pela água, a maré estava bem baixa, de modo que havia menos de um palmo dágua entrando da margem até um duzentos metros para dentro do mar. Elas passeavam despreocupadas, caçando peixinhos e conversando umas com as outras, com barulhos engraçados e altos. O sol estava a pino e o vento soprava agradavelmente.
Você, de vestido branco, não queria descer do meu colo, por medo da proximidade  com os bichos (algumas chegavam a um metro e pouquinho de altura). Entrei na água e fui caminhando para o meio delas, com você no  colo. Vimos que elas comiam peixinhos e futucavam o fundo dágua à procura de mexilhões. Contei-lhe histórias de garças e aos poucos, você foi se acostumando em estar ali, quase que absorvendo o cenário. Seu avô tentava tirar fotos da margem, mas estávamos muito longe...
Coloquei você no chão, pezinhos nágua. Gostou. Largou lentamente minha mão e passou a se apoiar em meio vestido. Falava com as garças, brincava com elas, ria. "Bonito, mamãe, bonito", apontou para uma garça com uma cabeça de peixe no  bico, em pleno vôo. Eu também achei bonito. Qualquer um acharia bonito estar ilhado por garças e água, num cenário paradisíaco daqueles. Queria guardar tudo em fotos, filmes, livros. Queria mudar com você para a beira das garças, para você nunca perder esse contato com a natureza. Queria que você conseguisse guardar na mente essa tarde tão deliciosamente morna e feliz...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma carta pra você

Outro dia mesmo eu estava prestando atenção no quanto é importante conversar com você.
Quando eu digo conversar, não estou querendo dizer repetir palavras fáceis ou rir simplesmente do que você diz, mas conversar mesmo, no mais amplo sentido da palavra: lhe conto coisas e lhe escuto as coisas, como se tivéssemos, ambas, pleno entendimento do que a outra diz.
Sei que não entendo metade do que fala, mesmo porque você está agora numa fase engraçadinha demais, que repete sílabas a esmo, esperando que aquele amontoado de sons faça tanto sentido quanto os amontoados de som que os adultos dizem. Mas penso que, nesse momento, entender a importância da sua fala já é o suficiente na grande maioria dos casos. E isso vale reciprocamente. Você está aprendendo a escutar; o que é definitivamente importante e definidor para a sua vida. Lembre-se disso: duas das nossas grandes armas são os ouvidos e a memória.
Estou achando muito bacana ter tido a oportunidade de ser sua mãe. Se pudesse escolher uma filha a dedo, não teria chegado perto da perfeição que é você. Engraçado como toda mãe provavelmente diz isso, mas, de algum modo, acho que sou a única que realmente pode dizer, porque, certamente, você é mais especial que qualquer filha dos outros.
Ser mãe tem lá seus traços perversos, especialmente porque quando endeusamos demais os filhos, estamos fazendo um cumprimento indireto a nós mesmas: veja só como sou especial; olhem a  filha perfeita que fiz!
Mas, não se preocupe: isso só é perigoso quando a gente não sabe que é perverso e, como entendo esse lado da maternidade, não deixarei que isso afete nossa relação de maneira destrutiva (prometo que vou tentar!).
Enfim, enquanto você dorme (e eu só escrevo enquanto você dorme _ ora, haveria alguma outra hora para eu escrever?), reflito sobre  seu papel na minha vida e, consequentemente, sobre o meu na sua e penso que, apesar dos inevitáveis (e por que não, saudáveis) embates, nos entenderemos sempre muito bem...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Parece baleia

Falo de  carteirinha: não se sabe o que esperar de uma criança de um ano e meio, em matéria de  coisas engraçadas. Você, que é meu parâmetro para "crianças de um ano e meio", é a prova viva da engraçadisse da infância. Olhe bem, nunca tinha escutado um caso desses, mas vou adiantando que não deve ser muito comum para a sua idade.
Estávamos no calçadão da Praia da Costa, seus avós paternos, seu pai, você e eu. Você, toda serelepe, olhava para o mar e, de súbito, parou os olhos na água. Fitava as pedras enormes da curva da praia. Apontando para elas, gritou "mamãe, baleia!", enquanto olhava extasiada a pedra com formato de baleia cachalote, que despontava à sua frente. Eu e  sua avó rimos, enquanto você dava uma segunda fitava na pedra. Com a cabeça de lado, corrigiu-se "parece baleia..." e saiu andando, à cata de pedrinhas no chão.
Tentei imaginar de onde você conheceria uma baleia de fato, para fazer tal correlação. Televisão? Livros? Poderia ser. Ou então eram as baleias de desenho animado, que se pareciam com a pedra, quem sabe? Seu episódio preferido do Pocoyo é intitulado "O aniversário da baleia". Seria essa baleia? Penso que nunca saberei ao certo. Fato é que foi divertido demais ver sua carinha tentando entender aquela baleia esquisita. E eu que pensei que você fosse tão novinha, já vejo mostras dos seus mundos fantásticos...