quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Chega de Pepeta

#TBT - porque o Throw Back Thursday virou moda no ano de 2017 e eu queria contar um fato do seu passado hoje, pra reavivar o blog:

(isso aconteceu em junho de 2013 e foi um presentão de aniversário para mim)

Estávamos no carro da vovó Zizi, com a tia Cláudia (vovó da Manuzinha). Ela comentou _ e confesso que foi o comentário mais bacana dos últimos tempos _ que sua sobrinha neta tinha comprado uma linda boneca usando as próprias chupetas como unidade monetária. Que ótima ideia tiveram! E para você, que queria tanto o castelo dos pôneis, a possibilidade de compra-los com chupetas foi, no mínimo, recebida com curiosidade.

Mas antes de entrar no mérito da história, deixa eu contextualizar a remoção da chupeta, para você entender exatamente os motivos que nos levaram até seu ato definitivo.

Chupetas representam mais que chupetas. São uma fonte de ligação ritualística com a segurança, com o aconchego e com a rotina. E você era bem ligada com suas chupetas...
Acontece que, como toda boa ligação com qualquer coisa, a chupeta é uma muleta malvada: primeiro porque estraga os dentes (e os seus já estavam ficando bem tortinhos) e depois, porque acaba se tornando uma condição para que você durma tranquila (o que não pode ser nada bom, especialmente quando a gente esquece a chupeta em casa e você e quer dormir em outro lugar).

Pois bem, chupetas como unidade monetária. E funcionou. Certo anoitecer, você decidiu que queria comprar o castelo dos pôneis com chupetas. "E quantas chupetas será que custa?", questionou, ao que lhe respondi: "não sei, querida. Na dúvida, vamos levar todas na sua bolsinha". E você as reuniu e guardou numa bolsinha, correndo para a porta: "vamos, mãe!".

Chegamos no shopping e fomos à loja de brinquedos. Enquanto você se maravilhava com o castelo dos pôneis na prateleira, busquei uma vendedora e lhe expliquei toda a situação. Ela entendeu de pronto e se aproximou de você. Você perguntou: "moça, quanto custa esse brinquedo?". Ela, conforme combinamos, lhe respondeu: "puxa, esse é caro... ele custa... três chupetas!". Mais que depressa, você avançou sobre a bolsinha, tirando as chupetas para contá-las e tamanha foi sua surpresa ao perceber que ali havia exatamente as três chupetas de que precisava para comprar o castelo! "Mãe! Olha! Eu tenho três pepetas! Eu tenho três pepetas!!", exclamou, num frisson engraçadíssimo! Tentou pagar a vendedora ali mesmo, mas ela havia encarnado a personagem direitinho: lhe direcionou ao caixa, para que a coisa fosse bem verdadeira.

No caixa, você entregou as chupetas e foi buscar seu prêmio (quer dizer, sua primeira compra importante). A vendedora havia embalado o castelo para presente. E você amou!

Em casa, brincou por muito tempo! Pôneis para cima e para baixo: enfeitou o quarto inteiro tendo o castelo como tema. Lá pelas tantas, porém, já na hora de dormir, a coisa começou a ficar feia.

Você não queria se deitar. Ficou rodando na cama, virando de um lado para o outro, repetidamente. Pediu a chupeta, ao que retruquei: "lembra que compramos o castelo dos pôneis com suas chupetas?". Você me perguntou se poderíamos comprar novas chupetas no outro dia. Com o coração partido e abafado, lhe respondi que isso não seria possível. Que você já estava crescida e que seus dentinhos estavam pelas tampas de tortos por causa do uso da chupeta.

Você chorou. Foram uns quatro ou cinco dias de sonos picados e muito choro.
Depois passou.

Você dormiu. Sem pepeta.

E seus dentinhos voltaram ao normal... aquele arco que havia na sua boca desapareceu por completo em quatro meses. Que sorriso lindo... <3

Minha querida, isso serviu para lhe ensinar uma coisa valiosa (mesmo que não tivesse ainda idade para aprender): tudo passa. O que é ruim passa. O que é bom passa. Tudo. Tudo anda no fio do tempo, silenciosamente.

Um dia você vai entender o valor dessa lição. Um dia vai dar todo o crédito pra tia Cró, para os meus ricos duzentos reais que foram convertidos em "pepetas", para o tempo.

Amo você.

mamãe

Você, aos oito anos


Querida filha,

eu, aos trinta e sete anos, lhe saúdo aos oito.
Você faz piano e toca Für Elise lindamente. Fazemos Muay thay juntas. Dormimos ainda na mesma cama _ o que me traz sérias dificuldades de sono e bastante dor na coluna.
Nos apoiamos mutuamente, como pedacinhos de um mesmo todo.
Ano passado você viu seu pai por sete dias apenas. Ele não participou do Natal da família, do seu aniversário, do dia das crianças. Mas o Carnaval foi dele: você voou pra Manaus com a Tia Carol e fizeram daquela semana algo diferente do que está acostumada.
Você voltou com saudades. Chorou pra dormir.
Ele me contou que você também chorou pra dormir lá, com saudades de mim.
Ter um pai tão longe pode ser bastante dolorido, especialmente um com quem você conversa tão pouco. Mas um dia isso vai mudar: essa distância não vai doer tanto. Pode ser que vocês fiquem mais tempo juntos, pode ser que até venham a dividir um teto em algum momento dessa vida: se for para seu bem e a favor da sua vontade, eu assino embaixo.
Sabe, querida, estou atravessando uma fase bem triste. Estou me sentindo pra baixo, desiludida, sem planos. Vejo em você a única coisa que me faz continuar e não desistir. Com sua alegria espalhada pela casa eu não posso chorar. Com seu contentamento em me contar histórias e mostrar seus desenhos, não tenho razão para ser triste.
Faz muito tempo que escrevi sua última carta aqui. Um ano e meio. Creio que, à medida em que os anos vão passando, as conversas entre pais e filhos ficam cada vez mais automáticas, instantâneas e o tempo das cartas vai sendo deixado para trás. Mesmo assim, se a minha displicência lhe escrever ao menos uma carta por ano, durante todos os anos da sua vida, espero que tenha uma centena de cartas para ler quando estiver se sentindo com vontade de reconectar seu passado e entender que tipo de mãe eu fui pra você ao longo de todo esse tempo.
Cartas são abraços no tempo, já diria o Rubem Alves. Já escrevi isso aqui, nalgum tempo passado. E são mesmo.
Abraço, beijo, amo você através de cada palavra que escrevo. Cada sentimento evocado por cada vez que sento por trás desse computador e tento externar meu amor por você.
Vamos falar sobre os pontos altos dos seus 7-8 anos até hoje:

  • Terceiro ano do fundamental, estudando de manhã, sem integral (oba!)
  • Carnaval em Manaus com seu pai
  • Comendo alface
  • Aniversário na casa de festas
  • Aulas de piano
  • Muay Thay
  • Ótimas notas na escola
  • Aprendeu o que é sexo (me perguntando sobre menstruação...rs)
  • Ganhou um celular e começou a usar o whatsapp (fez tantos grupos com ele!)
  • Ainda não toma nenhum suco, nem água de côco, nem iogurte líquido (só gosta dos de potinho, mas não pode ser danoninho ou grego)
  • Dorme comigo (tá difícil tirar você...)
  • Renovou passaporte (vamos tentar viajar?)
Até dezembro, muitas novidades poderão surgir, meu amor... Com você, tudo é novidade!

Amo você!

mamãe