quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Você, aos oito anos


Querida filha,

eu, aos trinta e sete anos, lhe saúdo aos oito.
Você faz piano e toca Für Elise lindamente. Fazemos Muay thay juntas. Dormimos ainda na mesma cama _ o que me traz sérias dificuldades de sono e bastante dor na coluna.
Nos apoiamos mutuamente, como pedacinhos de um mesmo todo.
Ano passado você viu seu pai por sete dias apenas. Ele não participou do Natal da família, do seu aniversário, do dia das crianças. Mas o Carnaval foi dele: você voou pra Manaus com a Tia Carol e fizeram daquela semana algo diferente do que está acostumada.
Você voltou com saudades. Chorou pra dormir.
Ele me contou que você também chorou pra dormir lá, com saudades de mim.
Ter um pai tão longe pode ser bastante dolorido, especialmente um com quem você conversa tão pouco. Mas um dia isso vai mudar: essa distância não vai doer tanto. Pode ser que vocês fiquem mais tempo juntos, pode ser que até venham a dividir um teto em algum momento dessa vida: se for para seu bem e a favor da sua vontade, eu assino embaixo.
Sabe, querida, estou atravessando uma fase bem triste. Estou me sentindo pra baixo, desiludida, sem planos. Vejo em você a única coisa que me faz continuar e não desistir. Com sua alegria espalhada pela casa eu não posso chorar. Com seu contentamento em me contar histórias e mostrar seus desenhos, não tenho razão para ser triste.
Faz muito tempo que escrevi sua última carta aqui. Um ano e meio. Creio que, à medida em que os anos vão passando, as conversas entre pais e filhos ficam cada vez mais automáticas, instantâneas e o tempo das cartas vai sendo deixado para trás. Mesmo assim, se a minha displicência lhe escrever ao menos uma carta por ano, durante todos os anos da sua vida, espero que tenha uma centena de cartas para ler quando estiver se sentindo com vontade de reconectar seu passado e entender que tipo de mãe eu fui pra você ao longo de todo esse tempo.
Cartas são abraços no tempo, já diria o Rubem Alves. Já escrevi isso aqui, nalgum tempo passado. E são mesmo.
Abraço, beijo, amo você através de cada palavra que escrevo. Cada sentimento evocado por cada vez que sento por trás desse computador e tento externar meu amor por você.
Vamos falar sobre os pontos altos dos seus 7-8 anos até hoje:

  • Terceiro ano do fundamental, estudando de manhã, sem integral (oba!)
  • Carnaval em Manaus com seu pai
  • Comendo alface
  • Aniversário na casa de festas
  • Aulas de piano
  • Muay Thay
  • Ótimas notas na escola
  • Aprendeu o que é sexo (me perguntando sobre menstruação...rs)
  • Ganhou um celular e começou a usar o whatsapp (fez tantos grupos com ele!)
  • Ainda não toma nenhum suco, nem água de côco, nem iogurte líquido (só gosta dos de potinho, mas não pode ser danoninho ou grego)
  • Dorme comigo (tá difícil tirar você...)
  • Renovou passaporte (vamos tentar viajar?)
Até dezembro, muitas novidades poderão surgir, meu amor... Com você, tudo é novidade!

Amo você!

mamãe

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