quarta-feira, 6 de abril de 2016

A festa do Céu na Terra




(ou "Feliz Aniversário, minha filha")
Era uma época em que catava estrelas. Ou, pelo menos, achava que o que catava eram estrelas.
Passara anos recolhendo aqueles cacos brilhantes que se espalhavam pelo chão noite após noite, interminavelmente. Pela manhã, o que era brilho já estava morto e os pedaços duros perdiam seu sentido: os jogava fora tristemente, na esperança de que a próxima colheita fosse melhor. Quem sabe, fosse a definitiva.
Mas nunca era.
Ao final de cada cata, os blocos iridescentes amanheciam mortos.
Ela não queria desistir. Sentia, dum lugar que não sabia de onde vinha, que haveria uma estrela para ela. Tinha essa certeza tão certa quanto lhe pareciam estrelas os cacos que recolhia.
Certa noite, havia nada. Nublado. Sequer a Lua alumiava qualcoisa.
Sentiu-se tão só que chorou doídamente. Doía-lhe a solidão.
Por detrás de si, uma estrela faiscava e tocou-lhe o ombro. Era ela. Aquela. A definitiva.
“Mandaram-me que escolhesse uma casa”, disse a estrela, “uma que eu pudesse reconhecer como minha e que garantisse que me traria felicidade”.
“É mesmo?”, respondeu a moça. “E o que você fez?”
“Escolhi. Escolhi você. Você precisa de mim, como preciso de você. Você pode me mostrar o caminho para a felicidade, decerto. Pode, não pode?”, a estrela fitava a moça com os olhos desejantes de abraço e amor.
Fitaram-se por um longo tempo. Acariciaram-se uma à outra, delicadamente. Reconheceram-se. Aquela era a sua estrela, sabia a moça. Aquela era a sua humana, sabia a estrela.
Abraçaram-se. Fundiram-se. A estrela adentrou a moça por debaixo dos poros de sua pele e percorreu seu corpo até encontrar colo, bem ali no baixo do umbigo.
Quedou-se lá por uns meses, até que estivesse pronta. Enquanto habitava sua humana hospedeira, foram se conhecendo e se gostando. A anfitriã lhe cantando canções de ninar, só para fazer graça. A estrela crescendo, crescendo, só para fazer bonito.
(hoje se completa sete anos, desde isso:)
Foi num seis de abril que a estrela metamorfoseou-se em menina e seu nome foi dado Alice, porque não havia nenhum nome que parecesse misturar tão bem doçura e sonho.
Foi num seis de abril que renovaram seus votos de amor e compromisso entre a Terra e o Sagrado.
Foi num seis de abril quando a porta entre os mundos finalmente completou sua abertura e tocaram-se externamente pela primeira vez.
E que nunca haja uma última...
Amo você!
Emoticon heart

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