quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Reunião de pais

Você está contando: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze. E pára no onze. Por que cargas dágua você não parou no dez, como todo mundo, eu não sei. Mas também nunca vi muitas crianças de um ano e meio contando até lá, sem errar. E tem mais: você introjetou conceitos matemáticos. Você sabe que um é diferente de dois e que eles não são meramente uma sequência de lógica oculta. Quer a prova? Pois bem. Essa noite você cuspiu a chupeta para um buraco negro em sua cama. Choramingava, procurava, procurava e nada. A chupeta devia estar no meio dos lençóis, debaixo dalgum travesseiro, sei lá. Tive de levantar e lhe levar outra chupeta. Daí, de manhã, quando acordou, olhou para mim e disse: mamãe, duas chupetas. E tinha as duas nas mãos. Fiquei estarrecida...
Acho que os pais sempre ficam estarrecidos com as coisas que seus filhos fazem, principalmente nesse comecinho de vida, onde toda informação é nova e diferente dos pequenos repertórios que vocês tem. Achei muito fantástico você saber o que significa duas chupetas. Você entendeu! Você realmente aprendeu o número dois.
Isso me pegou de surpresa...

Hoje é a primeira reunião de pais da minha vida. Depois eu lhe conto como foi...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fazendinha

Hoje você ficou na escolinha até mais tarde para ver a apresentação do minizoológico. Não sei bem o que diabos é um minizoológico, mas suspeito que haja um pônei e algumas galinhas sapateiras pras crianças brincarem...
Sua risada está cada dia mais contagiante... E a forma como você come, ah, Alice... Quem lhe ensinou a fazer isso? Um barulhinho tão bonito de nhamnhamnhamnham... E quanto mais você gosta da comida, mais alto faz seu nhamnhamnham... Você pode passar longos minutos ruminando a refeição, só para se escutar. É uma delícia de ouvir!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Abraços

Hoje você pediu o vidro de catchup para explorá-lo. Olhou um lado, virou, olhou a tampa. Por fim, convencida de que era um amigão de longa data, abraçou-o!
Abraço (ok, você disse abásso), cantava, enquanto apertava o catchup e sacudia de um lado para o outro, como se ninasse uma de suas bonecas. Achei tão bonitinho! Você gosta de dar abraços. Gosta de ser carinhosa e de fazer carinho e dar beijos nas coisas. É a coisa mais fofa ver você se despedindo das gangorras em forma de bichinhos em sua nova escolinha (já a freqüenta há duas semanas): vai de uma a uma, preferencialmente iniciando pelo peixinho, e as beija delicadamente. Faz o mesmo com o desenho de caranguejo que fica na parede de sua sala. E, novamente, o mesmo com os cavalinhos de balanço e a professora Kellen.
Outro dia, morremos de rir com sua nova marca registrada: adóio cadeia. Deixa eu explicar: sua avó lhe comprou duas cadeirinhas pequenas, que ficam, uma em nossa casa, outra na casa dela. Na hora do almoço, na casa dos avós, seu avô pegou você no colo e, lhe apertando num abraço, disse "adoro a Alice!". Você não teve dúvidas, pediu para ir pro chão, correu para a cadeirinha que ganhou e retrucou "adóio cadeia!".
Rimos a tarde inteira...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Escrevendo no ar

Você anda fazendo arte pela casa. Paredes, chão, portas de vidro: tudo é suporte para seus desenhos de lápis de cera. E não adianta eu chamar sua atenção; você franze a testa, faz bico e aperta os olhos, como se fosse chorar, mas, em segundos, lá está novamente, praticando o proibido.
Começo a perceber o quanto ser mãe é dedicar-se exclusivamente às pequenas coisas. Não teria graça deixar você fazer de tudo (e, especialmente, não seria certo). Não teria graça lhe privar de tudo que é potencialmente perigoso ou desordeiro. O segredo é o meio. Dou-lhe giz de cera para que brinque no papel e espero paciente quando o giz pula do papel para o chão, tomando preferência pelo chão. É claro que chamo sua atenção. Ora, os limites só existem quando são ensinados. E desde pequena você precisa entender que há regras maiores no mundo que os seus gritinhos fofos pela chupeta...

domingo, 3 de outubro de 2010

Quando nascem as doenças

Lembro-me do seu primeiro resfriado. A primeira vez que vi seu narizinho  escorrendo e seus olhos ficarem abatidos pelo cansaço de não conseguir dormir. Eu também não consegui dormir. Foram dias apertados, você não estava acostumada às sensações estranhas advindas dum resfriado.
Hoje, um ano e alguns resfriados depois, estamos às voltas com o mesmo dito: cada espirro (tão fofos!) traz um chorinho de mal estar e prováveis dores. Neste momento, você dorme a meu lado e eu lhe  velo o sono, virando seu corpo de  vez em quando, para revezar as narinas entupidas entre si. Quando crescer, não vai se lembrar disso, mas o movimento de mudar de lado virá quase como que instintivo...

Observar a sua fragilidade me dá um medo danado. Medo de que sofra, sinta dores, fique irremediavelmente triste. Uma vez minha mãe me disse que, quando eu era pequena, ela tinha medo de morrer, porque temia pelo meu cuidado nas mãos de eventuais outras pessoas. Eu não sinto como minha mãe sentia. Definitivamente não tenho medo de morrer e deixar você aqui. Há tanta gente que ama você! Você ficaria bem se eu fosse. O contrário é que seria devastador. A grande sacada de ser mãe é quando se percebe que a gente precisa mais do filho do que ele precisa da gente. Esse é um sentimento aterrador, sem retorno e sem remédio. Eu preciso de você. Preciso de ver você. De saber que está bem. Toda a definição de propagação da espécie deve se definir nisso: eu preciso e amo tão imensamente, que cuido do seu bem estar à frente do meu. Quando saio nas ruas e vejo vitrines, penso em você. No mercado, ao fazer compras, as suas vem primeiro. Assim também quando eu faço o almoço. E quando minhas amigas me chamam para sair, a condição é que você esteja bem, banho tomado, mamadeira pronta, fralda limpa e tranquila.

Na noite passada, por exemplo, fui a um aniversário. Seu pai me chama, altas horas, para me avisar que você acordou vomitando, por causa do resfriado. Cobri uma distância de quatro km em três minutos, contando as curvas, sinais de trânsito e outros carros. Contando até a demora do elevador do nosso prédio. Pensei que fora má ideia ter saído quando seu narizinho estava escorrendo. Culpei-me por uns minutos, pela ausência, mas depois eu mesma me reprimi a paranóia: crianças ficam resfriadas. Ficam gripadas. Crianças tem catapora e diarréia também e não há nada que mude isso. Estamos apenas no começo da sua viagem...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Wild horses

Enquanto vejo você dormir, percebo a herança emocional que cada mãe passa a cada filha, atravessando gerações, desde o início dos tempos.

Você pode tudo. Você é tudo. E, especialmente, pode ser tudo o que não consegui me tornar. Penso nas coisinhas bonitas que você faz, no jeito como me olha de lado quando quer alguma coisa, na gargalhada que dá a cada vez que consegue o que deseja, no vozeirão encorpado e ríspido quando diz um não.
Você é um gigante. É a mãe das feministas e das fundamentalistas patriarcais. É a mais bonita, a mais elegante e, decerto, a mais educada e culta de todas as mulheres. Sei que escreverá livros, conquistará cadeiras e pessoas, fará permanecer sua palavra, como a última. Enlouquecerá os fracos, fazendo-os dobrar os joelhos para você passar. Pintará telas, comporá músicas, escreverá romances, adorará romances, ganhará medalhas, dormirá pouco e dificilmente parará em casa para me contar como foi seu dia, pois terá tantos compromissos importantes que a trivialidade não lhe será o suficiente. Nada lhe será o suficiente.
Imagino você, de mochilas, fazendo as viagens que eu não fiz. Refazendo as que já fiz. Aconselhando-me a ir para este ou aquele lugar. Escuto você falando um inglês perfeito, um francês indefectível, um alemão fantástico e um mandarim extraordinário. Comprará muitos livros e os lerá, senão todos, grande parte deles. Escreverá cartões de Natal de onde estiver, e não terá muito tempo para enviá-los; os encontrarei anos depois, dentro de um caderno ou outro, que você trouxe de volta para casa.

 Daqui a uns anos, que passarão como minutos quer eu tenha cuidado ou não, o mundo lhe clamará de volta e eu vou ter de descobrir o que minha mãe reluta em entender: os filhos são do mundo e deles mesmos.
Enquanto você dorme e eu lhe vigio o sono, temo que, quando chegar a hora e você for diferente disso que lhe desejo, eu lhe cobre indevidamente tornar-se todas essas coisas, repetindo esse ciclo eterno das pobres transferências maternas...