Lembro-me do seu primeiro resfriado. A primeira vez que vi seu narizinho escorrendo e seus olhos ficarem abatidos pelo cansaço de não conseguir dormir. Eu também não consegui dormir. Foram dias apertados, você não estava acostumada às sensações estranhas advindas dum resfriado.
Hoje, um ano e alguns resfriados depois, estamos às voltas com o mesmo dito: cada espirro (tão fofos!) traz um chorinho de mal estar e prováveis dores. Neste momento, você dorme a meu lado e eu lhe velo o sono, virando seu corpo de vez em quando, para revezar as narinas entupidas entre si. Quando crescer, não vai se lembrar disso, mas o movimento de mudar de lado virá quase como que instintivo...
Observar a sua fragilidade me dá um medo danado. Medo de que sofra, sinta dores, fique irremediavelmente triste. Uma vez minha mãe me disse que, quando eu era pequena, ela tinha medo de morrer, porque temia pelo meu cuidado nas mãos de eventuais outras pessoas. Eu não sinto como minha mãe sentia. Definitivamente não tenho medo de morrer e deixar você aqui. Há tanta gente que ama você! Você ficaria bem se eu fosse. O contrário é que seria devastador. A grande sacada de ser mãe é quando se percebe que a gente precisa mais do filho do que ele precisa da gente. Esse é um sentimento aterrador, sem retorno e sem remédio. Eu preciso de você. Preciso de ver você. De saber que está bem. Toda a definição de propagação da espécie deve se definir nisso: eu preciso e amo tão imensamente, que cuido do seu bem estar à frente do meu. Quando saio nas ruas e vejo vitrines, penso em você. No mercado, ao fazer compras, as suas vem primeiro. Assim também quando eu faço o almoço. E quando minhas amigas me chamam para sair, a condição é que você esteja bem, banho tomado, mamadeira pronta, fralda limpa e tranquila.
Na noite passada, por exemplo, fui a um aniversário. Seu pai me chama, altas horas, para me avisar que você acordou vomitando, por causa do resfriado. Cobri uma distância de quatro km em três minutos, contando as curvas, sinais de trânsito e outros carros. Contando até a demora do elevador do nosso prédio. Pensei que fora má ideia ter saído quando seu narizinho estava escorrendo. Culpei-me por uns minutos, pela ausência, mas depois eu mesma me reprimi a paranóia: crianças ficam resfriadas. Ficam gripadas. Crianças tem catapora e diarréia também e não há nada que mude isso. Estamos apenas no começo da sua viagem...
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