sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Wild horses

Enquanto vejo você dormir, percebo a herança emocional que cada mãe passa a cada filha, atravessando gerações, desde o início dos tempos.

Você pode tudo. Você é tudo. E, especialmente, pode ser tudo o que não consegui me tornar. Penso nas coisinhas bonitas que você faz, no jeito como me olha de lado quando quer alguma coisa, na gargalhada que dá a cada vez que consegue o que deseja, no vozeirão encorpado e ríspido quando diz um não.
Você é um gigante. É a mãe das feministas e das fundamentalistas patriarcais. É a mais bonita, a mais elegante e, decerto, a mais educada e culta de todas as mulheres. Sei que escreverá livros, conquistará cadeiras e pessoas, fará permanecer sua palavra, como a última. Enlouquecerá os fracos, fazendo-os dobrar os joelhos para você passar. Pintará telas, comporá músicas, escreverá romances, adorará romances, ganhará medalhas, dormirá pouco e dificilmente parará em casa para me contar como foi seu dia, pois terá tantos compromissos importantes que a trivialidade não lhe será o suficiente. Nada lhe será o suficiente.
Imagino você, de mochilas, fazendo as viagens que eu não fiz. Refazendo as que já fiz. Aconselhando-me a ir para este ou aquele lugar. Escuto você falando um inglês perfeito, um francês indefectível, um alemão fantástico e um mandarim extraordinário. Comprará muitos livros e os lerá, senão todos, grande parte deles. Escreverá cartões de Natal de onde estiver, e não terá muito tempo para enviá-los; os encontrarei anos depois, dentro de um caderno ou outro, que você trouxe de volta para casa.

 Daqui a uns anos, que passarão como minutos quer eu tenha cuidado ou não, o mundo lhe clamará de volta e eu vou ter de descobrir o que minha mãe reluta em entender: os filhos são do mundo e deles mesmos.
Enquanto você dorme e eu lhe vigio o sono, temo que, quando chegar a hora e você for diferente disso que lhe desejo, eu lhe cobre indevidamente tornar-se todas essas coisas, repetindo esse ciclo eterno das pobres transferências maternas...

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