Minha querida e genial filha,
você tem sérias dificuldades em fazer cocô na privada. Até hoje, na beira dos quatro anos, sua resistência ao sanitário é impressionantemente aterradora. Já me desesperei, já chorei, já passei meses frustrada com a sua incapacidade de trafegar da fralda para o penico, quiçá para a privada. As aulas na escola já irão começar em alguns dias e eu temo pelo pior _ você ser ridicularizada pelos coleguinhas (que já usam o vaso), quando der a primeira dor de barriga. Tomara que não aconteça.
Lembro-me, na minha época de educação infantil, que tínhamos um colega que fazia o número dois na calça. O apelidamos de Jair Cagão. Pobrezinho. Deve ter passado um aperto enorme por um bom tempo... quase trinta anos depois, da mesma forma como essa história é viva na minha memória, pode ser que esteja na de outros coleguinhas da época também. Ora, pode ser que esteja até na memória dele. E eu não queria isso para você.
Cada um tem seu tempo, ao longo do desenvolvimento, é fato. Momentos que não se equiparam necessariamente à idade. A psicologia americana é bastante fã do modelo "aos x anos, tirar a chupeta; aos y anos, tirar a fralda; aos w anos, dormir sozinho". Mas as coisas nem sempre são assim. Há que se levar em conta a maturidade emocional, os significados por trás dos atos, além da história pregressa de cada membro da família e do próprio sujeito em questão. Por isso, compreendi que não havia motivo de frustração ou desespero. Saí do título de "mãe incapaz" para o de "mãe consciente". E, é claro, somando a isso tudo, também inventei um método para que a sua transição fralda-vaso sanitário seja a menos dolorosa possível: a fralda mágica.
Então, vamos à explicação. A fralda mágica consiste no seguinte: peguei uma fralda descartável sua e recortei um vão bem onde o cocô deve ficar armazenado. Fiz isso, é claro, sem a sua consciência ou permissão. Quatro dias depois de forçar-lhe a usar o penico (e, não coincidentemente, quatro dias em que você se recusou a ir ao banheiro), ofereci a você a fralda mágica, com a condição de que a usasse sentada no penico. Você aceitou.
Coloquei a fralda em você, cuidando para que não prestasse atenção ao rombo _ parecia mesmo uma fralda íntegra, pelo menos na parte da frente. Um minuto depois, você já tinha depositado todo o material acumulado no fundo do penico, e nem notou o barulho da queda a cada forçada bem sucedida.
Quando terminou, mostrei a você a surpresa, com muito cuidado para que não se sentisse traída. Você viu todo aquele cocô no penico, olhou para a fralda e soltou uma baita gargalhada. A fralda era mesmo mágica!
Dois dias depois, a fralda mágica voltou à cena, desta vez, no vaso sanitário. E funcionou também. O melhor do funcionamento foi presenciar as suas gargalhadas após o ocorrido: você parecia ter sido liberta da maldição do cocô e, finalmente, podia jogá-lo no sanitário, sem mediadores. Ou quase sem mediadores.
Hoje, dois dias depois da fralda mágica ter operado sua magia no sanitário, deve ser ora de fazer o número dois novamente. Estou pensando agora num cinturão de fralda. Depois, em alguns dias, quem sabe, uma fralda invisível?
É, filha... criar uma criança não é tão fácil quanto parece... <3 Amo você.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Ano novo, vida nova
No dia primeiro de janeiro, você acordou ao meio dia!
Fiquei estupefata, já que o seu ciclo de sono sempre teimou em terminar antes das sete (quando, no máximo, em algumas exceções, ia até às oito eu pulava de alegria). Com certeza tudo isso foi efeito do descompasso entre Natal e Ano Novo, época de festas e rebuliços familiares: ficávamos até tão tarde recebendo tios e tias que já não sabíamos mais a que horas dormir. Hoje, do alto do dia 04, seu mecanismo parece estar voltando ao normal lentamente, e você ainda deu algumas pequenas dormidas durante as tardes (coisa que não fazia há meses).
O ano de 2013 marca uma etapa importante da sua vida: a entrada no colégio. Estamos deixando para trás a creche Grão de Areia e adentrando pela porta da frente do Colégio Marista. Hoje percebo o quanto o tempo passou rápido...
Escrevi uma cartinha de agradecimento à Grão, por todos os serviços prestados e por toda a dedicação no intuito de ajudar você em sua transformação e crescimento. Deixo ela aqui, na íntegra, para que, um dia, quem sabe, você a possa ler (será que se lembrará de alguma coisa de lá?).
"Dez meses de idade. Foi quando Alice entrou na escolinha.
Fiquei estupefata, já que o seu ciclo de sono sempre teimou em terminar antes das sete (quando, no máximo, em algumas exceções, ia até às oito eu pulava de alegria). Com certeza tudo isso foi efeito do descompasso entre Natal e Ano Novo, época de festas e rebuliços familiares: ficávamos até tão tarde recebendo tios e tias que já não sabíamos mais a que horas dormir. Hoje, do alto do dia 04, seu mecanismo parece estar voltando ao normal lentamente, e você ainda deu algumas pequenas dormidas durante as tardes (coisa que não fazia há meses).
O ano de 2013 marca uma etapa importante da sua vida: a entrada no colégio. Estamos deixando para trás a creche Grão de Areia e adentrando pela porta da frente do Colégio Marista. Hoje percebo o quanto o tempo passou rápido...
Escrevi uma cartinha de agradecimento à Grão, por todos os serviços prestados e por toda a dedicação no intuito de ajudar você em sua transformação e crescimento. Deixo ela aqui, na íntegra, para que, um dia, quem sabe, você a possa ler (será que se lembrará de alguma coisa de lá?).
"Dez meses de idade. Foi quando Alice entrou na escolinha.
Escolhi a Grão de Areia por
múltiplas indicações de pessoas, tanto queridas quanto desconhecidas. O lugar parecia acolhedor, a fala da
proprietária (que, não por acaso, era psicóloga) condizia com tudo que eu
acreditava em termos de educação infantil.
Desde os primeiros dias, quando
minha pequena estava em adaptação, estive tranquila em relação à escolha do
local: nunca houve arrependimento, nunca houve medo.
Alice cresceu a olhos vistos.
Falava mais, cantava mais, aprendeu o que era se relacionar com os pequeninos
iguais a ela. Descobriu que o mundo era maior que as paredes de nossa casa.
Foi na Grão de Areia que minha
filha ensaiou a escrita das primeiras letras, arriscou a hipótese de rabiscar
seu nome, de rabiscar meu nome. Definiu sua lateralidade. Aprendeu a agradecer
a Deus pelas refeições. Praticou ritmos novos, com instrumentos musicais que
jamais sonhara. Percebeu que havia línguas diferentes daquela primordial que
conhecia. E foi na Grão de Areia que Alice reuniu tantos dos conhecimentos que
sempre fez questão de compartilhar como se fossem ouro (mal sabe ela que
conhecimento é mesmo ouro).
Em termos relacionais, a Grão foi
seu primeiro celeiro de amizades. Antes,
mamãe, papai, tios e avós eram seu contato principal. Suas construções sociais
eram limitadas a gigantes aparentemente bem articulados, sólidos e sóbrios, que
entravam e saiam pelas grandes portas quando lhes convinham. Após sua inserção
no convívio da escolinha, Alice aprendeu que havia também outras possibilidades
de interação. Outros gigantes e outros pequenos; os segundos pareciam mais
verdadeiros, mais condizentes com sua própria condição de pequena. E ela os
amou a todos. Ainda os ama.
Cada membro da escola passou a
fazer parte do repertório inicial de Alice. Cada um agora representa um peça
importante no quebra-cabeças de uma vida que começou há tão pouco.
Hoje é um dia triste, de
despedida. Mas, ao mesmo tempo, é um dia feliz, de agradecimento, e, especialmente,
de reconhecimento por um serviço tão bem feito e por um acolhimento de perfeita
sintonia entre minha família e a família Grão de Areia.
A oportunidade de fazer a
diferença na vida de uma criança é única. Havia só uma chance para acertar sua
primeira escola. Havia só uma chance para escolher um local que fosse também
responsável por ajudar a definir a personalidade de Alice, seus valores morais
e éticos, seus comportamentos em relação a desafios e barreiras. E nós
acertamos. Acertamos em tudo. Alice é hoje fruto de ótimas escolhas e
interações, que sorveram dela o melhor de sua alma e temperamento.
Waleska, Cláudia, Jessica, Wilson
e demais professoras e cuidadoras da Grão: a vocês, nosso agradecimento.
Obrigada por fazerem parte de nossas vidas. Jamais nos separaremos, pois vocês
são os alicerces da nossa história.
Estarão para sempre em nossos
corações e pensamentos. Amamos vocês."
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