terça-feira, 28 de maio de 2024

Amar e ser amado

 Minha querida, 

Existem muitas dores na vida. A dor de amar, não correspondida. A dor de não poder se ter aquilo que se quer.

Schopenhauer uma vez escreveu que "a vida é uma oscilação constante entre a ânsia do ter e o tédio do possuir". Vamos por aqui.

Você quer muitos algos. Seguranças, por assim dizer, em primeiro lugar: a financeira, a alimentar...ter um teto, um abrigo emocional para onde voltar. E daí, quer outras coisas maiores, não tão elementares, mas ainda extremamente mundanas: a afeição de um garoto, algumas roupas bacanas, creminhos e chocolates, uma casa bonita para chamar de sua, meios para viajar, uma internet boa, roupas limpas...

Todos queremos algumas coisas. Muitas coisas. Queremos, inclusive, não ter de lutar por essas coisas; mas tê-las de bandeja, de graça, sem juros e sem correção. Seria ótimo se assim sempre o fosse.

Quando o filósofo alemão deu de dizer que estamos pendulando entre desejo e tédio, eu bem entendi que vivemos no processo, no meio do caminho entre uma coisa e outra coisa. Somos esses seres que buscam, esses seres confusos que não sabem muito bem o que buscam, às vezes, mas que tem essa ânsia do buscar, como se fosse algo escrito em nosso DNA: "busca enquanto pode achar". Não importa o quê.

Pois é. 

Você é assim também, embora seus objetos de busca sejam diferentes dos meus. Diferentes dos outros. Cada um busca coisas distintas e talvez essa seja a beleza humana: a diversidade de coisas buscadas (coisas essas que criamos, de fato, para buscarmos e perdermos e rebuscarmos).

Uma dica eu lhe dou: busca. Busca sempre. Encontrará coisas ótimas em suas buscas. Saiba apreciá-las. Saiba que elas caberão em lugares especiais da sua vida. Jogue fora aquelas que estiverem virando entulho: ninguém precisa acumular mais do que o coração consegue organizar e não é vergonha descobrir que buscou coisas que não cabem mais lá. Faz parte do processo do amadurecimento, pode ter certeza.

Seja.

Seja tudo que quiser. Que puder. Que for.

Seja amor.

Você já é, para mim.

Amo você.


Mamãe

quarta-feira, 22 de maio de 2024

A saga da vida

 Você está lendo Kafka, meu amor. Aos quinze anos.

Mal posso acreditar (tanto na sua idade, quanto no fato de estar lendo Kafka), mas confesso: Carta ao Pai foi um dos textos mais difíceis de lidar, para mim, na época em que o li. Muitos pais se encaixam ali. Inclusive o meu. Enfim.

A vida pode não parecer prazerosa, às vezes. Pode até não parecer justa ou fácil. E não é. Nem justa, nem fácil, nem prazerosa todo o tempo. Somos nós, querida, que a fazemos prazerosa, quando temos disposição para tal. Nós que lutamos por justiça e interpretamos essa palavra tão abstrata nuns formatos que decidimos que ela pode ter.

Não existe justiça inata. Não existe facilidade inata. Na vida, somos os únicos animais que sabem que estão trabalhando, mas somos só mais um dos animais que trabalham. Escreva isso para nunca esquecer.

Você vai ter dias ruins, sim. Talvez, muito choro. Muita revolta. Coração partido. Coração remendado. Coração arrebentado de novo. Paciência. O coração é um órgão de muitas facetas e resiliência ímpar. Acredite.

Muita gente vai tentar te fazer comprar discursos. De esquerda, de direita, de minorias, de privilégios. Enfim. Da mesma maneira que não há imparcialidade no mundo, não há Estado sem corrupção ainda e, portanto, cuidado na hora de escolher as coisas que você defende: as ideias podem ser boas, mas as pessoas geralmente têm seus caminhos tortos e ética duvidosa.

Você não precisa escolher isso ou aquilo, se isso e aquilo não lhe apetecem. Muita gente vai tentar te confundir com "dilemas de bonde" para testar sua moral. Saiba quando estiver sendo forçada a escolher coercitivamente e pule fora. Você só precisa escolher depois de ter todas as informações necessárias e possíveis para a escolha. E também, só depois que quiser. 

Lembre-se, contudo: não escolher nada também é uma escolha e, às vezes, a gente acaba pecando por omissão. Cuide daquilo que faz sentido na sua vida e empregue ali sua energia. Para as outras coisas, aprenda a jogar fora o que não te serve, o que te apavora, te incomoda ou te atrasa.

Você deve ser livre para moldar seu amanhã de acordo com o jeito como você vive seu hoje.

Vai chegar um momento em que você vai olhar para trás e pensar "puxa, eu até que era bem bonita na minha juventude". Sim. Você é. Não compita consigo mesma no passado, nem com mulher nenhuma no presente. Seja o que é, aprenda a respirar profundamente e a gozar da vida que tem, das amizades que cultivou, das coisas que conquistou e dos caminhos que abriu com seus próprios passos. Não há nada mais que isso para passar seu tempo, depois de uma certa idade (eu ainda não cheguei lá).

Seja feliz. Mas saiba que felicidade não significa ter tudo que você quer na hora que você quer. Felicidade é um olhar carinhoso e grato para o mundo, para sua história e para si mesma. A gratidão é a melhor expressão da felicidade. 

Saiba, por último, que estou aqui para você. Estarei sempre e para sempre. 

Você é meu primeiro amor. Meu legado. Minha vida. 

Amo você.

mamãe

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Ensino Médio, aprendizado máximo

Alice, minha filha tão amada,

Você me mandou fotos da sala de aula hoje. Miguel, Japa, Lucas e Batata já fazem parte das minhas manhãs e eu me divirto com o tanto que a amizade de vocês é leve e ajuda o tempo na escola a passar sem que vocês pirem nas contas, nos  cálculos de fuso horário ou nas funções afins.

É um prazer imenso ver você crescer.

Às vezes, quando estamos em casa, eu fico tentando imaginar como anda sua cabeça, para onde viajam seus pensamentos... se você está triste ou feliz... se poderia estar melhor caso eu fizesse algo diferente.

Eu sinto saudades de quando éramos nós duas na frente da televisão, assistindo RuPaul ou Nailed It, rindo das besteiras dos estadunidenses bobos e passando o tempo assim, uma com a outra. Acho que podemos fazer isso mais vezes. Vou montar o quarto de televisão novamente, pra gente poder voltar a ter nosso tempo de fazer nada, com toda a qualidade que só a sua presença ao meu lado pode proporcionar.

Ontem você almoçou do lado de três crianças e resistiu bravamente à mesa. Parabéns. Eu sei o quanto você queria dar uns petelecos nos pequenos e curtir o som do silêncio no seu canto, sem incômodos externos: vez ou outra precisamos abrir mão de alguma coisa pelo bem de outra coisa e ontem fizemos o bem pra Maia levando a coleguinha dela pra passar o dia conosco. Eu queria trazer as suas colegas também, como a gente fazia antigamente, mas você ainda não me deu esse aval e tudo que eu posso fazer é esperar um dia você ter essa vontade.

E eu espero. 

Acho que ia ser divertido em demasia (estou falando em demasia em sua homenagem) se você convidasse uns colegas lá pro Ulé, num fim de semana, pra gente fazer um luau ao pôr do Sol! As mães poderiam ficar no restaurante  do Jahjah enquanto vocês se divertiam na praia...e depois todo mundo ia embora pra sua própria casa e fim. Pelo menos as fotos ficariam iradíssimas. 

Agora, enquanto espero a hora de buscar você na escola, estou vendo umas fotos de você e Maia na praia e com vontade de comprar umas tintas pra gente pintar o quarto da tevê e começar logo a deixar aquele quarto com cara de quarto de tevê mesmo, em vez de ter cara de depósito de brinquedos e pernilongos.

Me ajuda?

Amo você.


mamãe

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Seu aniversário



 A manhã daquela segunda-feira dava mostras de que seria fresca, tranquila. Faltava ainda mês e pouco para lhe receber, mas você calhou de vir antes. 

A casa não estava arrumada. As roupas não estavam prontas. As malas, vazias, ainda esperavam no armário.

Mas você veio assim mesmo, ao cair da tarde, quando os carros já se enfileiravam pela cidade, buzinando ofensas e carregando o tráfego. 

Eu estava feliz: iria conhecer minha hóspede, finalmente, depois de tantas carícias trocadas sob a pele. Sob o manto da alma. 

Você veio delicada. Com mãozinhas de porcelana, um narizinho perfeito e os lábios vermelhos. Silenciosa. Tranquila. Tão pequena que dava para lhe esconder num abraço leve. 

Aos quatro anos você me contou que já tinha morado nas nuvens, "com os gigantes" e que eles tinham lhe dado a escolha de vir e que, por achar que eu precisava ser feliz, você me escolhera para vir através de mim. Quanta honra. 

Você, ainda bem pequenininha, chorou quando percebeu que eu envelheceria e me pediu para não ter os cabelos brancos e para não morrer. Perguntou-me, caso morressemos separadas, como me reconheceria lá "do outro lado". Eu chorei. Nós choramos. Eu já sabia que lhe reconheceria mesmo depois de mil vidas, mas seus olhos de súplica me fizeram temer por um segundo. E se?

Vi você sofrer por tantas vezes; suas dores profundas, imaginárias e não. Doí-me também e ainda hoje há muito em você que me dói, porque seu olhar poético e derradeiro me rasga o peito num canto irremediavelmente frágil. Não há cura. Eu não quereria qualquer cura.

Sessenta estações. Duzentos e quarenta luas. Parece tão pouco, tão breve, um sopro. Na linha do tempo das estrelas, meu amor, sua existência é um grão de areia. Mas na minha linha do tempo, ah, na minha linha do tempo, sua existência é um universo inteiro: tudo que é conhecido e desconhecido. Matéria escura, magia, quebranto, promessa; você mora na cura, na utopia e nos meus sonhos. Depois de tantos anos caminhando por esta Terra, eu entendi meu propósito...

Feliz 15 anos ❤️