Você está lendo Kafka, meu amor. Aos quinze anos.
Mal posso acreditar (tanto na sua idade, quanto no fato de estar lendo Kafka), mas confesso: Carta ao Pai foi um dos textos mais difíceis de lidar, para mim, na época em que o li. Muitos pais se encaixam ali. Inclusive o meu. Enfim.
A vida pode não parecer prazerosa, às vezes. Pode até não parecer justa ou fácil. E não é. Nem justa, nem fácil, nem prazerosa todo o tempo. Somos nós, querida, que a fazemos prazerosa, quando temos disposição para tal. Nós que lutamos por justiça e interpretamos essa palavra tão abstrata nuns formatos que decidimos que ela pode ter.
Não existe justiça inata. Não existe facilidade inata. Na vida, somos os únicos animais que sabem que estão trabalhando, mas somos só mais um dos animais que trabalham. Escreva isso para nunca esquecer.
Você vai ter dias ruins, sim. Talvez, muito choro. Muita revolta. Coração partido. Coração remendado. Coração arrebentado de novo. Paciência. O coração é um órgão de muitas facetas e resiliência ímpar. Acredite.
Muita gente vai tentar te fazer comprar discursos. De esquerda, de direita, de minorias, de privilégios. Enfim. Da mesma maneira que não há imparcialidade no mundo, não há Estado sem corrupção ainda e, portanto, cuidado na hora de escolher as coisas que você defende: as ideias podem ser boas, mas as pessoas geralmente têm seus caminhos tortos e ética duvidosa.
Você não precisa escolher isso ou aquilo, se isso e aquilo não lhe apetecem. Muita gente vai tentar te confundir com "dilemas de bonde" para testar sua moral. Saiba quando estiver sendo forçada a escolher coercitivamente e pule fora. Você só precisa escolher depois de ter todas as informações necessárias e possíveis para a escolha. E também, só depois que quiser.
Lembre-se, contudo: não escolher nada também é uma escolha e, às vezes, a gente acaba pecando por omissão. Cuide daquilo que faz sentido na sua vida e empregue ali sua energia. Para as outras coisas, aprenda a jogar fora o que não te serve, o que te apavora, te incomoda ou te atrasa.
Você deve ser livre para moldar seu amanhã de acordo com o jeito como você vive seu hoje.
Vai chegar um momento em que você vai olhar para trás e pensar "puxa, eu até que era bem bonita na minha juventude". Sim. Você é. Não compita consigo mesma no passado, nem com mulher nenhuma no presente. Seja o que é, aprenda a respirar profundamente e a gozar da vida que tem, das amizades que cultivou, das coisas que conquistou e dos caminhos que abriu com seus próprios passos. Não há nada mais que isso para passar seu tempo, depois de uma certa idade (eu ainda não cheguei lá).
Seja feliz. Mas saiba que felicidade não significa ter tudo que você quer na hora que você quer. Felicidade é um olhar carinhoso e grato para o mundo, para sua história e para si mesma. A gratidão é a melhor expressão da felicidade.
Saiba, por último, que estou aqui para você. Estarei sempre e para sempre.
Você é meu primeiro amor. Meu legado. Minha vida.
Amo você.
mamãe
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