segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Mãe, é por sua causa que eu preciso sair dessa casa!

 

A frase do título foi saída de uma dedução sua, por conta de uma observação minha. Eu, enquanto catava as roupas do varal, lhe dizia que você gastava roupas demais (você nunca repete uma roupa, Alice. Nem pijama. Assim fica difícil de não uma pilha de roupas pra lavar. Quero ver quando for morar sozinha.). 

E você ameaçou que ia, por minha causa. Por causa da minha chatice. Porque eu falo coisas como as que eu falei.

É. Eu falo.

Eu não sei que tipo de mãe não falaria coisas assim. Talvez as que têm um séquito de domésticas. Talvez as que lavam roupas na lavanderia. Talvez as que não se importam com o fato de os filhos se arvorarem para cima delas, como se fosse obrigação da mãe obedecer a todo tipo de mando e ordem vinda dos filhos. 

Eu amo você e você sabe disso. Eu amo ser sua mãe e amo fazer parte da sua vida. Ouvir umas frases assim faz parte, dirão todas as outras mães que vieram antes de mim; as sábias, as avós, as bisas velhas. Elas também ouviram isso e muito mais. Eu também ouvirei muito mais. 

É que a gente tem um bichinho chamado expectativa, que, de vez em quando, se irrita de ouvir. E queria que tudo saísse conforme o script dele. A expectativa queria que ninguém nos desafiasse. Que ninguém nos incomodasse. Que tudo que estivesse fora da gente contribuísse para manter a gente na bolha. Ah, que fantasia engraçada, ficar na bolha! Mas seria confortável...

É como imaginar que se está ganhando na loteria, pois bem. Só de imaginar, a gente já sonha com tudo aquilo que vai fazer com o dinheiro. A gente sabe que sonhar é ineficaz, que é até errado, porque nos empurra para a a  beiradinha de um abismo do qual a gente sabe que não tem muita chance de sair vivos. Mas a gente se deixa sonhar. A gente gosta da sensação do "e se". E a gente vai pra beira, voluntariamente. 

A gente espera que os filhos nos reconheçam. Que nos endeusem, quase. Que sejam gratos e que tenham apenas palavras de construção, carinho e calma. 

O abismo, quem o colocou ali, não foram os filhos. Não foi a gente. Ele simplesmente existe, como um lembrete. Como o bilhete premiado da loteria. Só um, em milhões. Não é saudável esperar. Não é razoável. 

Mas o paraíso da recompensa é tão idílico,  tão sedutor, que a gente se deixa escapulir para o outro lado. para o lado em que nossos filhos serão sempre amor e braços abertos, mesmo quando não têm de ser. Mesmo quando estamos erradas.

Ah, minha querida. É por minha causa que você precisa sair dessa casa. É porque eu te cobro. É porque eu faço comentários que não constroem ou te faço sentir culpada por ser você mesma. 

Eu espero que, ao sair, você se machuque apenas o suficiente para conseguir se curar sem sentir dores crônicas. Espero que tudo dê certo e que você viva os melhores anos da sua vida. Que você saiba organizar sua casa, suas roupas, sua comida e seu tempo.

A vida ensina tantas coisas que eu não posso ensinar, por não ter a competência!

Lembra de um detalhe: eu estarei aqui, pra ajudar de vez em quando. Pra te ouvir desabafar. Pra dar alguma dica de qualquer coisa, se eu souber. Pra lavar uma trouxa de roupas ou pregar um botão frouxo.

Como toda mãe, vou quase desejar que você precise de mim, mesmo sabendo que, pedagogicamente, eu deveria não desejar, nem demonstrar isso. 

Seja livre para ir. 

Seja livre para voltar. 

Seja tudo que quiser, sem pisar em ninguém e respeitando seus próprios limites. 

Você é tudo pra mim.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Uma semana para os dezesseis anos

Seus ombros, brancos como a pérola
se escondiam sob a cabeleira escura
mais curta, mais bela


(dezesseis anos faz ela

e ensaia sair de casa)


a vida tomou novo rumo

depois do seis de abril

despedi-me de mim

e veio outra

maior, mais madura, no prumo


minha criança primeira

juntada de pó de estrela

e se eu soubesse o que sei agora

e se pudesse voltar naquele dia

em que você quis colo e eu tive pressa

ou que a praia pareceu curta demais

ou naquele outro, em que eu fiquei pouco

ou queimei o feijão

ou daquela vez que eu deixei seus pés tocarem o chão

e você voltou cada vez menos para o meu colo

e passou a não temer a solidão

(até que seus dedinhos pararam de caber na minha mão)


minha pequena companhia


éramos nós, eu e você

e tudo lá fora parecia tão grande e tão raro

e nossa ilusão era a de ninguém mais


te amo, ah, como te amo

e te amar demais me faz assim

querer viver você, pra não doer

o tanto que sua ausência dói em mim


te amo, ah, como te amo

e também me amo porque você me habita

e porque há você, há música

e porque há você, a vida é mais bonita

e porque há você, uma parte de mim despertou

quando essa outra parte morreu

e o meu mundo ficou maior que eu


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Horizonte na faculdade

 Você diz que quer cursar Farmácia e bioquímica. E na UFMG ou na UFOP. 

Ah, meu bem. Você, minha pequenina, minha filhotinha, já escolhendo ir embora. Que dor. Que medo. Que sorte. 

Uma profusão de sentimentos me assola sempre que penso em seu futuro e nessas escolhas que te levam para longe de mim. Imagino se você vai ficar bem. Se vai sentir fome. Se o pão com queijo vai estar na geladeira no outro dia, caso você more com amigas que lhe surrupiarão as coisas da geladeira.

Imagino se vai estar frio de noite. Se seu nariz vai estar entupido. Se as roupas estarão bem lavadas, com cheirinho de sabão e amaciante, como você gosta. Se alguém vai lhe tratar com desdém. Se algum garoto vai tentar te enrolar. Se gente má vai te seguir para tentar adulterar sua bebida em alguma festa, calourada ou coisa e tal. Se você vai se lembrar de trancar a porta. Se vai se lembrar de entregar a tarefa. Se vai me contar quando estiver sentindo dor, tristeza, saudade. 

Imagino se não seria melhor você ficar do meu ladinho, para sempre, do meu ladinho. Fazendo faculdade aqui pertinho. Vendo o Murdoc envelhecer todos os dias. Vendo a Maia crescer. Deitando no meu colo para falar da vida. 

Será que é assim que toda mãe sente? Será que foi isso que a minha sentiu quando eu fui embora? Será que foi assim que a mãe dela sentiu quando ela foi embora? E a bisa, em relação à vovó? E a trisa, em relação à bisa? 

Será que ir embora é necessário e chorar em silêncio é o preço que a gente paga para ver uma filha se libertar do casulo-mãe? 

Amo você, meu bem. Amo você infinitamente. E as suas escolhas serão as minhas escolhas. Estou aqui. Estarei sempre. E se as montanhas de minas cantam para você do mesmo jeito que cantaram para mim, é porque elas sabem cantar... e a gente soube escutar... Libertas, minha amada filha, libertas quae sera tamem.