A frase do título foi saída de uma dedução sua, por conta de uma observação minha. Eu, enquanto catava as roupas do varal, lhe dizia que você gastava roupas demais (você nunca repete uma roupa, Alice. Nem pijama. Assim fica difícil de não uma pilha de roupas pra lavar. Quero ver quando for morar sozinha.).
E você ameaçou que ia, por minha causa. Por causa da minha chatice. Porque eu falo coisas como as que eu falei.
É. Eu falo.
Eu não sei que tipo de mãe não falaria coisas assim. Talvez as que têm um séquito de domésticas. Talvez as que lavam roupas na lavanderia. Talvez as que não se importam com o fato de os filhos se arvorarem para cima delas, como se fosse obrigação da mãe obedecer a todo tipo de mando e ordem vinda dos filhos.
Eu amo você e você sabe disso. Eu amo ser sua mãe e amo fazer parte da sua vida. Ouvir umas frases assim faz parte, dirão todas as outras mães que vieram antes de mim; as sábias, as avós, as bisas velhas. Elas também ouviram isso e muito mais. Eu também ouvirei muito mais.
É que a gente tem um bichinho chamado expectativa, que, de vez em quando, se irrita de ouvir. E queria que tudo saísse conforme o script dele. A expectativa queria que ninguém nos desafiasse. Que ninguém nos incomodasse. Que tudo que estivesse fora da gente contribuísse para manter a gente na bolha. Ah, que fantasia engraçada, ficar na bolha! Mas seria confortável...
É como imaginar que se está ganhando na loteria, pois bem. Só de imaginar, a gente já sonha com tudo aquilo que vai fazer com o dinheiro. A gente sabe que sonhar é ineficaz, que é até errado, porque nos empurra para a a beiradinha de um abismo do qual a gente sabe que não tem muita chance de sair vivos. Mas a gente se deixa sonhar. A gente gosta da sensação do "e se". E a gente vai pra beira, voluntariamente.
A gente espera que os filhos nos reconheçam. Que nos endeusem, quase. Que sejam gratos e que tenham apenas palavras de construção, carinho e calma.
O abismo, quem o colocou ali, não foram os filhos. Não foi a gente. Ele simplesmente existe, como um lembrete. Como o bilhete premiado da loteria. Só um, em milhões. Não é saudável esperar. Não é razoável.
Mas o paraíso da recompensa é tão idílico, tão sedutor, que a gente se deixa escapulir para o outro lado. para o lado em que nossos filhos serão sempre amor e braços abertos, mesmo quando não têm de ser. Mesmo quando estamos erradas.
Ah, minha querida. É por minha causa que você precisa sair dessa casa. É porque eu te cobro. É porque eu faço comentários que não constroem ou te faço sentir culpada por ser você mesma.
Eu espero que, ao sair, você se machuque apenas o suficiente para conseguir se curar sem sentir dores crônicas. Espero que tudo dê certo e que você viva os melhores anos da sua vida. Que você saiba organizar sua casa, suas roupas, sua comida e seu tempo.
A vida ensina tantas coisas que eu não posso ensinar, por não ter a competência!
Lembra de um detalhe: eu estarei aqui, pra ajudar de vez em quando. Pra te ouvir desabafar. Pra dar alguma dica de qualquer coisa, se eu souber. Pra lavar uma trouxa de roupas ou pregar um botão frouxo.
Como toda mãe, vou quase desejar que você precise de mim, mesmo sabendo que, pedagogicamente, eu deveria não desejar, nem demonstrar isso.
Seja livre para ir.
Seja livre para voltar.
Seja tudo que quiser, sem pisar em ninguém e respeitando seus próprios limites.
Você é tudo pra mim.
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