quarta-feira, 14 de maio de 2014

Enquanto você cresce


Minha querida pequena,

Ontem estive extremamente frustrada com alguns de seus atos e por isso escrevi essa carta. Gostaria que, quando grande, pudesse ler essas linhas e perceber que, além de amar sem medidas, ser mãe também significa cansaço e resignação.

Você tem tido comportamentos dignos da realeza. Manda e desmanda, briga e emburra como uma princesinha nervosa. Nesses últimos dias sua petulância extrema me fez ter vontade de chorar. Até nas coisas mais bobas você tem feito questão de causar rebuliço: se eu demoro a lhe entregar um copo de água, se eu lhe pergunto sobre a tarefa de casa, se eu escolho um par de meias em vez de outro.

Lembro vagamente de quando minha mãe dizia que a vida se encarregaria de me ensinar certas coisas e nunca senti tanta vontade de lhe profetizar o mesmo. Tentei elencar justificativas para seu modo de agir e acabei com uma folha apinhada de possíveis coisas que estejam acionando seu lado elizabethico*. Após ler e reler cada um deles (não mentiria, também investiguei com outras pessoas, para ver se minha lista fazia sentido), percebi, contudo, uma coisa importante que me tinha passado batido até aquele momento e foi ali que a realidade me atingiu como uma flecha que atravessa o alvo. Havia um erro epistêmico em minha lista, que se repetia a cada item e que eu não dera a devida importância até então. E o erro era a resposta.
Lia-se assim:

“Motivos para que Alice esteja apresentando tantos comportamentos de revolta:
  • Eu estou passando pouco tempo com ela;
  • Eu estou tentando fazer com que ela durma em sua cama, em vez de dormir na minha;
  • Eu estou lhe obrigando a tomar suco de laranja todas as manhãs;
  • Eu tenho um namorado e isso a ameaça;
  • Eu tenho sido muito rígida com ela quando faz bagunça ou grita;
  • Eu devo estar entendendo errado alguns de seus sinais.”

Eu, eu, eu, eu. Sem notar, já estava lhe transferindo a dívida do egoísmo, desde tenra idade, quando deveria me concentrar melhor em observar suas respostas e ver como você está montando seu próprio repertório de comportamentos e saídas para as adversidades que lhe acompanharão vida afora.

Ora, se estou passando pouco tempo com você, paciência: o tempo que temos juntas é o tempo que temos juntas. O resto é tempo de trabalho _ uma necessidade não-negociável em nosso atual momento de vida. Se estou fazendo com que durma em sua cama, é porque isso é necessário para o seu desenvolvimento e para nossa individualidade.

Quanto ao suco de laranja, querida, isso só lhe trará benefícios a longo prazo _ pena que você não pode ver isso agora!

Em relação ao namorado, sei que, em algum tempo, compreenderá perfeitamente a necessidade de se ter por perto alguém que lhe queira bem e a quem você quererá bem também. O afeto é um sentimento leve, delicado e que deve ser cultivado e incentivado, sempre que nos sentirmos preparadas para ele. Compreenderá também que o lugar que você ocupa em meu coração e em minha vida é tão diferente de qualquer outro posto ocupado por qualquer outra pessoa, que não há perigo algum de perder minha dedicação, nem minha vigília inexorável.

Se eu tenho sido muito rígida com seus comportamentos de gritar ou bagunçar, meu bem, isso é facilmente compreensível: ou você acha que é fácil domar um filhote barulhento, ao mesmo tempo em que se tenta ensinar autocrítica e liberdade a esse mesmo filhote?

Em última instância, pode ser que eu não tenha o domínio sobre a interpretação de todos os seus sinais, mas, em sã consciência, que mãe o tem?

Entre trancos e barrancos, nós, mães, aprendemos todos os dias a lidar com situações que nos desafiam e nos tiram de nosso equilíbrio tão frágil. Entre trancos e barrancos, acampamos no quarto dos filhos, na esperança de que, uma noite, eles dormirão sem precisar de nossa presença. Fazemos refeições balanceadas e vemos metade do prato desperdiçado, porque vocês têm nojo de experimentar um simples tomate ou um pedaço de couve-flor (ah, se você soubesse quantas crianças passam fome!). Dormimos extremamente tarde, porque, após o início do seu sono, ainda temos de esfregar a camisa do uniforme que será usado amanhã. Declinamos convites para festas noturnas que não comportam crianças. Paramos de tomar aquele único drink que curtíamos tanto, porque precisamos estar sempre a postos e à disposição de vocês. Convertemos o dinheiro que usaríamos para comprar aquela bolsa em uma boneca cara, aparentemente boba, e que será deixada de lado após uma semana de uso (quando muito). Entre trancos e barrancos, nós, mães, trabalhamos, estudamos, fazemos almoço, passamos pano no chão e ainda arrumamos tempo de fazer colagens com as filhas no chão da sala (sujando de cola e purpurina o lugar que acabamos de limpar). E temos muita sorte quando arrumamos um namorado que compreenda nossa luta e que, mesmo assim, escolha permanecer nessa rotina tão previsível (inclusive curtindo participar dela), sabendo que também as noites dele serão readequadas para ambientes com balões coloridos e músicas do Palavra Cantada.

Dito tudo isso, querida, reafirmo: seus comportamentos desses últimos tempos foram mesmo frustrantes e potencialmente destrutivos. Mas é assim que você está ensaiando sua própria forma de reagir ao que está em seu redor nesta vida. Nada pessoal contra a mamãe (já percebi): essa é você, dando as primeiras mostras de que a possibilidade de ser uma adulta voluntariosa se descortina a olhos vistos. Faço votos de que consiga tirar o melhor desse traço de personalidade. E pode ter certeza: conte comigo para continuar treinando, porque você ainda vai tomar muito suco de laranja até crescer...

Amo você.



Nenhum comentário:

Postar um comentário