Esse ano lhe trouxe um Natal aprazível. Na verdade, penso que você é que estava aprazível para o Natal, dada sua idade tão fantástica de começar a descobrir as coisas.
Depois de um longo e tenebroso vácuo de vinte e dois anos, você foi a primeira criança a voltar a povoar os natais da família Maia Junqueira e posso lhe garantir que abrimos as portas para toda uma nova geração de junqueirinhas que, agora, sairão do ovo. Tia Maria, que você tanto gosta, será vovó duas vezes em menos de um ano (exatamente como fizemos com sua avó Dayse). Isso é bem bacana: no próximo Natal, já serão três crianças, para dizer o mínimo (porque sempre há a possibilidade de alguém correr atrás do prejuízo e aparecer cultivando uma sementinha até meados de março).
Quem sabe, com a família encriançada, as pessoas não passem a praticar um pouco mais de carinho, paciência e perdão. Ninguém sairia perdendo com isso, garanto.
E por falar em família, deixa eu lhe colocar umas questões interessantes, antes que sua adolescência teime em lhe arrancar do seio familiar.
Na casa dos seus avós maternos (e só vou dar o exemplo dos avós maternos porque foi desse ninho que eu saí e são as lembranças das experiências que me fizeram o indivíduo que sou hoje) o Natal é comemorado com rodas de abraço, mesuras, comidas e vinho. Nunca vi um povo que gosta tanto de beber comendo, enquanto deixa a nostalgia tomar conta das conversas que se dão na sala de estar, junto à árvore. Posso dizer, por vivência, que um abraço apertado em minha família, vale mais que um presente, e é item obrigatório na chegada, na saída, e nos intervalos de meia hora. Gostamos de abraçar, de massagens, de falar alto, de dar beijinho nas nossas crianças. Gostamos, minto, amamos comer afetivamente também. Devoramos grandes bocados de tudo que está no pratinho com patê de gorgonzola, só pelo prazer de usar a boca (é um blá blá blá, mnhamnham, blá blá, mnhamnham interminável). Cresci achando que Natal era isso: reunir a família, comer até cansar, falar até cansar e trocar presentes. Do ponto de vista médio-burguês, continuo achando, apesar de, nesse Natal, essa imagem ter se desgastado um pouco quando percebi que não são todas as famílias que fazem essa mesma celebração dos sentidos.
Olhando em retrospectiva, penso que seja especialmente importante entender o lugar de onde saímos para conseguir definir com que apetrechos vamos para onde escolhemos ir. Compreendo que sua pouca idade hoje seja empecilho para discussão de questões dessa natureza (você ainda está na fase de discutir se suja suas fraldas escondidinha atrás do sofá ou dentro do armário), mas chegará o tempo em que tudo isso brotará na sua frente e, por via das dúvidas, caso isso lhe chegue sem minha presença, já deixo aqui um pouco do que acredito ser uma medida razoável de convivência pró crescimento: família é importante. Muito importante. Fundamental.
São as únicas pessoas com grandes chances de lhe acompanhar ao longo de sua vida e, se você tiver sorte, são aquelas que carregarão você para dentro da vida delas, dando-lhe a oportunidade de fazer a diferença lá também. Aproveite. Conheça seus avós. Conheça seus tios e tias, primos, tio-avós. Dê a eles a chance de saber quem você é em troca da chance que eles lhe darão de parar para conhecer você. Sei que, muitas vezes, é mais fácil (ou mais prazeroso) se entender com colegas de sala ou vizinhos, mas o laço familiar é algo que conecta as pessoas como uma linha invisível, um cordão umbilical universal que lhe garante abrigo e lhe cobra abrigo em casos especiais ou corriqueiros e abraçar essa prática definitivamente faz pessoas melhores.
É claro que há gente em nossa família com quem não nos identificamos. Há gente assim em todo lugar. Desses, só digo uma coisa: não há necessidade de abraçá-los ou forçar a convivência, mas aprenda com eles como você não gostaria de ser, para não se deixar tornar um deles. Cada um têm uma informação valiosa para lhe oferecer, até para o lado contrário...
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ResponderExcluirGostoso ficar lendo tuas cartas, antes da Alice, me sinto uma intrusa, como se roubasse dela o prazer de ser a primeira a ler, mas o engraçado é que leio, pensando o quanto ela vai ficar emocionada e orgulhosa de ler estes textos quando for grande, e ao mesmo tempo fico vendo você, Carol, que é uma mãe, uma mulher, e escreve com maestria, e tem um estilo e uma poesia incomisurável
ResponderExcluirGostoso ficar lendo tuas cartas, antes da Alice, me sinto uma intrusa, como se roubasse dela o prazer de ser a primeira a ler, mas o engraçado é que leio, pensando o quanto ela vai ficar emocionada e orgulhosa de ler estes textos quando for grande, e ao mesmo tempo fico vendo você, Carol, que é uma mãe, uma mulher, e escreve com maestria, e tem um estilo e uma poesia incomisuravel
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