Quando decidimos espalhar a notícia da gravidez (o que aconteceu dois dias depois de sabermos de você em minha barriga), uma onda de frisson parecia ter tomado conta da família. Ora, já eram vinte e três anos sem um bebê na família de minha mãe e olha que somos muitos netos! Cada um dos vinte e tantos primos respondeu à sua forma, desde as ditas invejinhas boas até os "aimeudeusdocéu, que coragem". Todos ligavam a toda hora, as tias (irmãs de mamãe) viraram tietes e alisavam você quando ainda era menor que meu umbigo.
Pelo lado do seu pai, o susto veio maior que a festa, de princípio: seu tio Gustavo já estava grávido e todos ainda faziam as farras para eles, que já eram uma família estabelecida de fato e direito. Nós éramos amadores e malucões, mal saídos das faculdades.
Numa quinta-feira, fomos à feirinha da Savassi, contar pros amigos sobre a sua existência e todo mundo ficou doido. Era tudo muito novo, poucos dos nossos já eram pais e, se não me engano, da turma do seu pai, ele foi, sarcasticamente, o primeiro. Cheguei primeiro e o encontrei lá. Ele tinha um presente nas mãos _ seu primeiro presente! Era uma toalha de sapo, forrada de algodão, muito linda. Acho que achávamos que você seria um menino, não sei porquê. Mas isso foi só um palpite chutado pra bem fora do gol.
Combinamos que, se fosse menino, seu pai escolheria seu time de futebol. Se fosse menina, essa tarefa caberia a mim. Desde esse dia, eu já sentia que você era menina...
Pra falar a verdade, meu palpite sobre ser menina veio de um pensamento exclusivo: aqui se faz, aqui se paga. Eu sabia que minha mãe rezava bastante e provavelmente ela teve alguma parcela de influência na hora do Cara decidir quem ele iria mandar descer pra povoar o conjunto de células que crescia na minha barriga. Não que eu desse muito trabalho, mas também não dava pouco. Vamos ver como vai ser com você...
Anyway, deixa eu te contar como foi que disse a seu pai que ele seria papai.
Estávamos no carro, eu dirigindo, saindo da agência de viagens onde compraríamos nossas passagens para ir pro Canadá (nossa viagem já estava toda acertada, tínhamos gastado às tampas com o programa, o visto, etc e etc. Só faltavam as passagens.) e íamos em direção à casa dele.
No carro, destilei a notícia em uma série de perguntas:
Lucas, você me ama?
- Aham, ele respondeu
Mas, ama mesmo? Muito?
- Amo.
E você vai ter uma casa comigo no Canadá?
- Aham.
E nós vamos ter um cachorro no Canadá?
- Amm... quem sabe?
E vamos ter um filho também?
- Claro. Daqui a uns dois anos.
E vamos ter um filho em junho?
- ...
E o diálogo parou por aqui. Ele me olhava estupefato. Bêbado. Aterrorizado. Suspeito que ele não tenha entendido mais nada desde aquela hora até uns dois dias depois, quando toda a informação começou a fazer sentido e ser mais parte da nossa vida. Eu, por outro lado, achava que teria até junho para realmente me encontrar com você, olho a olho. Mas minhas contas estavam erradas. Você deveria vir no início de maio, como constatei depois, em seu primeiro ultrassom e em nossa consulta médica.
Mas, como você é minha filha mesmo, assim, sem tirar nem por, não aguentou esperar nem até lá: acabou chegando em abril mesmo...
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