Minha querida,
uma irmã.
E eu, que nunca imaginaria isso, lhe entreguei assim, um presente (que você achou meio torto).
A bem da verdade, não foi o presente que você achou torto. Foi a mudança. Temos alguns senões em relação a mudanças, não é mesmo? Pois é...
Mamãe, além de um novo companheiro _ que ela gostaria que ficasse para o resto da vida _ deu de fazer um bebê. E você respondeu de uma maneira muito confusa, misturando raiva, medo e revolta. Sua ansiedade foi a milhão. Sinto muito.
Não que eu sinta por ter lhe dado uma irmã: sinto por ter contribuído de alguma forma para que você fosse uma menina ansiosa. Gostaria de tirar isso de você e trazer para mim, para que você não tivesse de sentir essa ansiedade toda.
Não posso :(
Quando lhe contei que você teria uma irmã, você ficou incrédula: "mas não é possível, mãe. Você fez sexo? Que burrice, mãe! Você não sabia que sexo era para procriação??"
Tive de lhe contar sobre o sexo como parte da intimidade de um casal. Você não gostou nada de ouvir sobre isso. Pensar na mudança lhe trouxe tamanho horror que procuramos terapia.
E a terapia foi importante para muitas coisas, até para você perceber que não era daquela terapia que precisava. Era de viver a vida compartilhada e não a vida que você queria dentro da sua cabeça. Essa aceitação das coisas como são é a melhor terapia (fala uma terapeuta, hein). E quando a gente percebe que nós somos responsáveis por fazermos nossos dias melhores ou piores, então, ah, que maravilha de terapia conseguimos realizar em nós!
O primeiro contato entre vocês duas foi na maternidade, logo no dia em que Maia nasceu: sua avó lhe buscou na escola e foram, vocês duas, para a Santa Úrsula, visitar a gente.
Eu tinha acabado de passar por um parto natural, estava cheia de alegria, endorfinas e animação (porque sua irmã nasceu perfeitinha, grande, saudável e eu não tive de passar por nenhum procedimento médico de anestesia, cortes, costuras, raspagens _ nadinha!). Ver você chegando no quarto completou meu dia! Eu e minhas meninas...
Nunca pensei que fosse ser do jeito que foi: a gente ali, sua avó e Berthil olhando a gente. Uma família crescida.
A gente entende melhor família quando temos irmãos: dividir a mãe, dividir o espaço, o silêncio, a comida, o sono, tudo isso ajuda a gente a ter mais confiança na humanidade, a sermos mais compreensivos, mais coletivos. E seu primeiro olhar para sua irmã foi de amor...você já estava dividindo ali mesmo, sem nem ter pegado a criaturinha no colo ainda.
Sei que o medo de ser deixada de lado existe. O primeiro filho sempre fica confuso no princípio. Mas espero que, no frigir dos ovos, você relaxe e a gente possa começar a rir bastante de tudo. E que possamos planejar bons futuros para nós todos.
Amo você.
Amo vocês.
Mamãe
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