domingo, 15 de julho de 2012

Os dias mais difíceis até agora

Baixou a prisão de ventre. Mas não era um prisão de ventre comum. Foi um furacão amarrando seus intestinos de tal forma que passamos cinco dias sem visitar o banheiro. Bateu um desespero leve, que se alastrou e tomou proporções mais sérias depois de conversar com seu avô Hortensio e escutar que aquele cocozinho preso por tanto tempo poderia virar um fecaloma e, quem sabe, necessitar de remoção cirúrgica. Ai o desespero aumentou (que diabos era um fecaloma?). Precisávamos de um médico.
Pensei na prisão de ventre como pensaria um psicólogo. Você estaria decidindo reter o que? Ou quem? Ou quens? Seu pai morando em BH. Sua avó Zizi de férias viajando, Dida e Daniel de férias, também viajando. Sobrou a mamãe aqui (e também sobrou o vovô ali). Mas a mamãe você sempre teve e nunca houve um momento em que se sentira ameaçada por minha ausência, afinal de contas, estamos juntas para o que der e vier.
Ok, pensei, vamos desistir de pensar nas psicologias posto que, em primeiro lugar, precisávamos liquidar as possibilidades de algo fisiológico.
Antes de tudo, uma lavagem intestinal feita em casa, com remédio de farmácia, foi o que a médica de plantão do primeiro andar nos indicou (que sorte é ter uma pediatra morando no primeiro andar do seu prédio! Maior sorte ainda quando no dia em que você precisa dela, ela não está de plantão!). Foi traumático. Você ficou muito sacaneada e triste, porque coloquei o remedinho no seu bumbum. Brigou comigo, chorou, fez cara feia. Imagino que se sentiu resignadamente violentada e demonstrou isso com os olhos. Não demorou, veio a dor de barriga. O remedinho tornaria seu cocozinho mais hidratado e aumentaria o peristaltismo. Foi tiro e queda: cinco fraldas em menos de uma hora, todas carregadas.


(Fraldas, sim, porque você não faz cocô no vaso sanitário ainda. Só xixi.)

No outro dia, você comeu pouco. Ainda estava braba com a lavagem. E comigo. E foram assim por mais quatro dias e nenhum banheiro. Resultado? Outra lavagem, desta vez com um remedinho menos potente e menos traumático. Eu disse menos traumático? Talvez creia isso para diminuir minha culpa: seus olhos me fuzilaram tanto quanto da primeira vez.
"Mamãe, você promete que nunca mais vai colocar esse remedinho no meu bumbum? Promete?", me pediu entre lágimas. Falei que, para lhe prometer isso, você teria de me prometer que faria cocô todos os dias. Você foi contumaz: "quando eu crescer, vou fazer cocô na privada". E enquanto for pequena, Alice, tive de lhe perguntar, ao que me respondeu:" quando eu era bebê, eu fazia na fralda. E quando eu crescer, vou fazer na privada. Agora eu não preciso fazer cocô".
Deu um nó na minha cabeça.
Depois da segunda lavagem, fomos ao doutor. Laxante e óleo mineral, para começar. Sua dor era tanta que não conseguia ficar na escola: precisei buscar você por dois dias seguidos, antes das três da tarde. A sensação que eu tinha ao ver você chorar era de impotência pura. Você se espremia para cima, para baixo, para o lado. Não queria fazer cocô, mas o laxante aprontou uma reviravolta no seu intestino, de modo que a sua luta para manter os fedorentinhos era vã. Eles teriam de sair.
Já estamos no quarto dia e você tem feio cocô todos os dias, não sem antes de espremer por longos minutos, contudo. Ou fazer nas roupas, sem fraldas, como aconteceu por três vezes, em horários e locais aleatórios.
Após algumas noites sem dormir direito, rezo para todos os deuses para que esse terror fecal esteja se dissipando...

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